II For Rainbow – O eu e o outro

 

O ato de se vestir como outro sexo, seja com roupas ou com modificações físicas, traz situações obviamente conturbadas no meio social. Como as mudanças de aparência traduzem de fato uma identidade? Essa identidade é aceita? Como é para o outro aceitar esta mudança?

Bárbara traz praticamente um monólogo de um travesti que compartilha a memória de uma visita a seu pai. Está em jogo a recepção do pai, hospitalizado e desprovido de comunicação verbal, se dará frente ao retorno do filho, agora Bárbara. Trabalhando bem as influências teatrais do seu diretor, Carlos Gradim, Bárbara ainda conta com a interpretação dedicada de Vandré Silveira (premiado neste festival e em outros), responsável por manter a verdade e dignidade daquela personagem.

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O reconhecimento da identidade em Entre Cores e Navalhas ocorre no momento em que dois personagens, o cabeleireiro Antony e cobradora Esperança se encontram. Antony vê em Esperança uma beleza escondida. É criada aí uma possibilidade de relacionamento não convencional entre os dois – Antony já tinha um relacionamento com um homem. O cabeleireiro proporciona uma constante mudança de visuais em Esperança como se criasse novas identidades para ela, restando no final a sua própria transformação em mulher. Levado em tom de humor em vários momentos, Entre Cores e Navalhas, mesmo tendo uma concepção visual interessante, acaba perdendo sua força e ritmo ao longo da narrativa, esvaziando em parte os seus personagens em prol de uma diegese pretensamente complexa.  Vale dizer, entretanto, que os atores William Ferreira e Adriana Lodi conseguem manter o espectador concentrado em seus rostos, ainda que a direção não permita que nós efetivamente os conheçamos.

Identidade é um filme muito interessante em termos de montagem. Parte de uma boa premissa: jovem transexual se preparando para o show da Madonna realizado em 1993 no Brasil. A questão aí, é que o filme utiliza a fragmentação do vídeo-clipe para mais a frente negá-la, criando um ambiente completamente lúdico ao mesmo tempo em que o fuzila com o real (a revelação mais ao final do filme). Todo o fenômeno Madonna é construído por imagens de arquivo e fotos, expondo a maneira como a mídia pode engrandecer pessoas – e é uma bela ironia ver, logo depois, a mega Madonna vista como mini no show, filmada à distância. Trazendo um problema real, o do conflito entre a identidade visual e espiritual e a identidade formal, no papel, Identidade se fecha muito bem, jogando o espectador praticamente no vazio daquele personagem, o vazio da falta de reconhecimento e aceitação que, infelizmente, ainda é presente, mesmo 15 anos depois.

Filmes citados:

Bárbara (idem, 2006/ Carlos Gradim)

Entre Cores e Navalhas (idem, 2006/ Catarina Accioly e Iberê Carvalho)

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