II For Rainbow – A verdade das cabeças falantes

Por se tratar de um festival que, a priori, discute questões tanto sociológicas quanto políticas, baseadas em conflitos do nosso espaço cotidiano (não é um festival de cinema fantástico, nem de cinema de aventura), não foi surpreendente ver como os documentários compostos predominantemente por depoimentos, ainda que em minoria, tiveram provavelmente maior resposta positiva dos espectadores. Criou-se ali um espaço forte de identificação do público (principalmente o LGBTT) com os entrevistados. Responsáveis pelo carisma das histórias, cada um na sua especificidade, estes provocaram admiração pela forma de expressão por vezes libertária, por vezes esperançosa na superação de adversidades.

Amanda e Monick tem exatamente estas características. O filme conta a história de Amanda e Monick, duas travestis do Cariri Paraibano. A primeira é professora de ensino médio e fundamental, respeitada mesmo tendo sua homossexualidade explicitada. A segunda, aluna de Amanda, mantém um relacionamento com uma lésbica (que espera um filho dela) e se prostitui. O fato das histórias de Amanda e Monick serem atípicas, raras, torna-se o elemento chave de comunicação com o público. Em certo momento, vemos o pai de Amanda defender a opção do filho e dizer orgulhar-se dele independente de suas escolhas. Ao utilizar este discurso, que cria um espaço de identificação óbvio com a maioria dos presentes, o filme claramente busca a empatia do espectador. Assim, o documentário passa a enfatizar excessivamente este momento, tornando o pai, já imaculado por sua integridade e aceitação, um instrumento praticamente de protesto. Um filme que se pretende expositivo (objetivo, limpo de posicionamentos explícitos frente a expressão dos entrevistados), acaba utilizando a fala do pai como um instrumento excessivamente idealizador – uma frase dita por ele volta em texto escrito nos minutos finais, em tom de esperança para a Humanidade. Ainda que legítimo como um sentimento positivo daquele entrevistado “modelo de pai”, cinematograficamente o recurso soa excessivamente publicitário. De toda forma, são situações bem interessantes ali expostas que se somam às imersões narrativas ficcionais (a composição de um quarto com cabeças de bonecas remete a uma projeção quase infantil de beleza e ideal da personagem), trazendo um documentário de personagens bem fortes.

Cinema em 7 Cores, que abriu a Competitiva Brasileira, é um filme que vai direto na discussão da representação do homossexual no cinema brasileiro. Na impossibilidade de falar de tudo, o filme consegue condensar muito bem o seu conteúdo focando nos depoimentos de personalidades (de Jean Wyllys a Karim Ainouz) e nas várias imagens do cinema brasileiro em que o homossexual foi representado (seja da forma “ideal” ou não). Ainda que contenha opiniões individuais, é possível perceber como a montagem esquematiza aquela amálgama de idéias para um caminho comum que, em primeira instância, seria óbvia, a da não-estereotipagem. Em sua maioria, o cinema brasileiro é visto – de forma justa – como um conjunto infeliz na retratação, até então, de relações homossexuais. E o filme é importante justamente pela composição destes cenários, contextos e imagens, tornando-se a melhor abertura possível de um festival com esta temática – e é ótimo que tudo teve início discutindo diretamente representações de cinema.

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Assumir a identidade e algo que está intimamente ligado a ela, a sexualidade, é um dos temas de Homens. O documentário de Lucias Caus e Bertrand Lira retrata com um olhar muito particular o universo de homossexuais moradores de pequenas cidades do Nordeste do Brasil. Levado em um tom muito mais pessoal do que necessariamente político ou panfletário, o que interessa a Homens é perceber a humanidade por trás de uma opção de vida que provocou e ainda provoca diversas situações que levariam aqueles personagens à amargura, ao ódio, à depressão. Mas em Homens ou, naqueles homens, existe algo que os possibilita estarem vivos e aparentemente bem o suficiente para compartilharem seus relatos com um sorriso no rosto. E é sobre esse “algo” que este belo documentário trata, ainda que não precise necessariamente afirmá-lo. Um tratamento sutil que lhe confere delicadeza cativante.

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Voltando-se para uma proposta claramente de denúncia, Sexualidade e Crimes de Ódio concentra-se excessivamente na exploração de crimes e em mensagens de indignação e revolta, deixando a parte estética e conceitual do vídeo totalmente de lado. Existe ali uma mensagem clara de indignação nos depoimentos que acaba se dispersando na montagem confusa proposta pelos realizadores, com pouco capricho de finalização e praticamente sem uma composição definida por trás da obra. No entanto, o vídeo possui um conteúdo interessante e expõe algumas questões necessárias. Ainda assim, a lapidação daquele material bruto poderia ser bem mais pensada, tornando o filme menos longo e mais objetivo.

Quem é Você na Noite?, realizado quase que inteiramente pelo paulista Marcelo Ramos, busca traçar um panorama geográfico e social das noites gays paulistanas e as tribos que ali se formam. É feito um trabalho interessante de entrevistas, que procura descobrir, nos agrupamentos, as identidades ali formadas. Por outro lado, o filme sai prejudicado em algumas tomadas feitas com câmera escondida (as pessoas não se deixavam filmar), pois, mesmo evocando uma naturalidade das cenas, quebra o ritmo da montagem. Ao contrário de outros documentários da mostra, que se focavam em se aprofundar na vida dos seus entrevistados, Quem é Você na Noite? é essencialmente um filme didático e encontra seu lugar como cinema-reportagem. Nada genial, principalmente para o espectador que já não tenha algum interesse pelo universo retratado, mas certamente um trabalho de pesquisa que vale ser observado.

Tibira é Gay investiga a homossexualidade em descendentes de índios na Amazônia. Baseando-se no depoimento de quatro deles, o filme acaba não sendo muito mais que isso, um agrupamento de depoimentos e histórias visando compartilhar uma realidade pouco registrada e discutida no Brasil. Mais interessante pelo assunto retratado do que a sua articulação dentro do documentário.

Singularidades, pode se dizer, foi o queridinho do festival. Não só ganhou o prêmio de melhor filme de documentário como ainda ganhou o Prêmio da Imprensa e levou a platéia do riso ao choro durante seus 35 minutos de duração. Realizado por um coletivo, alunos de uma oficina do projeto chamado Olho Vivo em Curitiba, o filme impressiona por seu rigor, especialmente dadas as origens de sua realização. Ainda que ninguém assine a função exercida, vale dizer que o operador de câmera, seja quem for, é certamente talentoso.

O filme segue à risca o “manual Eduardo Coutinho”, e entra pesado nas particularidades, ou singularidades, dos seus entrevistados. O importante ali é o momento dedicado a cada um e como eles nos apresentam seus percursos individuais. Temos desde a história do pedreiro que gosta de roupas de mulher e possui um quarto enfeitado como se fosse de boneca, até a história de uma lésbica casada, com vários filhos e netos e um dedo de formato, digamos, sugestivo. Focando em homossexuais com idades variando entre 42 a 57 anos, o filme compartilha parte da vida de sete entrevistados buscando o mais interessante da experiência de cada um.

E nesta enorme sintonia entre todo o coletivo realizador, é visível uma preocupação enorme com enquadramentos, montagem e ritmo das entrevistas. Todos ali ficam totalmente à vontade, e são captados de forma singela nos momentos de espontaneidade. No fim das contas, Singularidades é um belo convite a histórias de vida realmente singulares e emocionantes retratadas por um grupo mais que interessado em realizar sua proposta da maneira mais carinhosa possível.

 

Filmes citados:

Amanda e Monick (idem, 2008/ André da Costa Pinto)

Cinema em 7 Cores (idem, 2008 / Rafaela Dias)

Homens (idem, 2008/ Lucia Claus e Bertrand Lira)

Sexualidade e Crimes de Ódio (idem, 2008/ Vagner de Almeida)

Quem é Você na Noite (idem, 2007/ Marcelo Ramos)

Tibira é Gay (idem, 2007/ Emilio Gallo)

Singularidades (idem, 2006/ Projeto Olho Vivo)

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