II For Rainbow – Balanço Geral

Uma atmosfera atípica se criou em Fortaleza do dia 05 ao dia 10 de Setembro, no II For Rainbow. Seis dias passaram em um mês, e despedidas emocionadas no último dia simbolizaram a essência de um festival calcado na diversidade sexual e possibilidades de convivência e aceitação em um país afundado em preconceitos. O agrupamento de pessoas em um mesmo hotel à beira da praia já seria motivo para que se criasse uma relação intensa de convivência. Tratando-se de um festival de realizadores e participantes predominantemente homossexuais, vale pensar ainda mais como essa agregação provocou uma maior liberdade para este grupo que, a partir desta união, não se vê podado pelo olhar social preconceituoso existente em vários outros ambientes.

Ficou evidente nesses dias de mostra como a possibilidade de uma expressão sexual sem julgamento evidente por parte do grupo socialmente predominante, o heterossexual, permitiu ao grupo estar mais à vontade. Essa própria predominância é discutida, e como ela interfere imediatamente na real discussão do festival: a expressão homossexual nas mídias, principalmente no cinema. Ao mesmo tempo em que a naturalidade da retratação parece ser a principal questão – versus a estereotipagem -, várias outras questões apareceram durantes os debates complementando uma conversa que se tornava cada vez mais complexa, principalmente ao pensarmos em até que ponto a discussão de um tema pode limpar certos preconceitos e até onde ela pode, ao contrário, efetivá-los. Ao insistentemente pensarmos em como aceitar um grupo, não estamos automaticamente colocando-o num crescente patamar de desigualdade?

Foi de certa forma estranho me ver, de repente, como uma minoria (sou heterossexual) e perceber certa banalização de situações atípicas (pelo menos para mim, que não tenho convivência cotidiana em ambientes de maioria gay) que, ao decorrer da mostra, possibilitaram elucidar a verdadeira questão que, mesmo sendo óbvia, vale ser apontada: a aceitação é um processo muito mais de experiência concreta do que abstração isolada e distanciada. A persistência do contato durante o Festival aguçou não só um questionamento maior em relação aos filmes ali exibidos, mas aos próprios entraves sociais e barreiras à aceitação.

Vale fazer uma crítica técnica ao Festival, que infelizmente não foi feliz nas exibições da Competitiva Nacional (os filmes da Mostra Nacional exibidos na Casa Amarela estavam com boa qualidade de imagem e som, exceto problemas técnicos no segundo dia). A sala Cine São Luís merece receber investimento pela sua beleza suntuosa e, infelizmente, todos os filmes estavam com áudios ruins e mal projetados, em formato distorcido. Devido a isso, adianto que não foquei profundamente em questões técnicas (principalmente no som) na análise dos filmes para não ser injusto.

Tirando esse fator, facilmente superável em próximas edições, digo que o II For Rainbow foi uma surpresa muito agradável, realizando debates de suma importância e, ao longo dos dias, tentando pensar o cinema na medida do possível. Uma iniciativa que merece continuidade e promete crescer ao longo do tempo, destacando realizadores que poderiam ser ofuscados em outras circunstâncias e sediando na bela – apesar de quente – Fortaleza, um panorama essencialmente diversificado do audiovisual.

 

Leia novidades instantâneas em nossoblog.