CI-6: Competitiva Internacional 6

 Com os filmes: O Arco Secundário, Caixa Surpresa, Ao Vivo em Stuttgart e Rima sem fim.

 

O Arco Secundário

por Ursula Rösele 

O curta O Arco Secundário foi exibido na última sessão internacional da 10ª edição do Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte. A sessão, já um tanto quanto distante do que se pode chamar de “convencional” do ponto de vista da narrativa clássica, foi toda pautada por experiências de quebra, de tempo morto, de colagens em tom de subversão. E – com a permissão da também quebra da crítica convencional – O Arco Secundário, um curta que gera questionamentos para além do próprio filme, principalmente por se tratar de uma obra que pressupõe uma espécie de ruptura a ponto de confirmar (ao menos a esta que vos escreve) a sensação de que a leitura fílmica, em primeira instância, é uma experiência difícil de ser dissociada da subjetividade.

O filme é indiscutivelmente interessante em sua composição estética e narrativa, ao apresentar uma seqüência de cenas em constante travelling numa cidade em tons de “cidade-fantasma”, cujos seres que a habitam parecem transitar por ela como se fossem composições do quadro, ao invés de personagens. Explico: a câmera parece narrar algo para além de um pressuposto de roteiro, como se os personagens não fossem humanos, com o espaço em si e tudo aquilo que o compõe dando uma estranha sensação de vazio e ao mesmo tempo de preenchimento, por se tratar de um lugar cheio de casas e becos e árvores e caminhos, e, ao mesmo tempo, com pessoas que nela transitam, aparentemente alheias a tudo.

É um filme no qual inexiste a presença de um narrador convencional, seja ele em formato de off, seja através de um protagonista. O filme segue num transitar estranho, sóbrio, sem muitas pistas de suas intenções. Parece haver um lugar ali para além das pessoas que o habitam. A natureza se apresenta ao longo do filme num tom de suspense no qual o vento proporciona às folhas das árvores uma presença mais forte e incisiva que todos os homens e mulheres vistos até então. Paira no ar uma constante do cinema contemporâneo, uma quase fixação pelo que se pode extrair de sombrio da natureza (a exemplo do atual Fim dos Tempos e do tailandês Apichatpong Weerasethakul).

A experiência de assistir a O Arco Secundário foi certamente curiosa. O filme gerou algumas anotações ao longo dos planos, das frases soltas, de personagens numa existência quase “lynchiana” tentando averiguar algo que se assemelha a um assalto com agressão física e fuga dos agressores. A câmera acompanha de diversos ângulos e possíveis pontos de vista a esta agressão mencionada por alguns personagens, adentra uma escola, parece observar a criança deslocada que desenha a chuva.

Nesse ínterim, faz-se toda uma explanação acerca da apreensão do filme enquanto foi exibido, para duas curiosas quebras ao construir o que se diria a crítica do mesmo: O Arco Secundário termina de repente. E, além disso, sua sinopse passa quase a impressão de experiência para além da experiência, uma vez que – além da surpresa de seu desfecho sem sentido – diz se tratar o filme do “estudo de um cientista acerca de um amigo italiano que foi abduzido e gerenciava uma pesquisa semelhante. Embora avisado dos riscos, ele começa a seguir a trilha do desaparecimento e conhece uma jovem mulher testemunha da abdução” (extraído do catálogo do festival).

Há algumas possibilidades de conclusão desta crítica: ou o filme foi feito no intuito de quebrar inclusive com a idéia de compreensão de sua intenção ou esta é uma crítica totalmente equivocada. Fato é que, independente do que ele deveria ser ou queria ter sido (se é que há um fim para a arte), é um curta que instiga, tanto pela sua estrutura não ortodoxa quanto pelas belas composições de cena.  

Caixa de Surpresa

Por João Toledo

Dentro da competitiva internacional, Caixa de Surpresa é, ele próprio, uma bela surpresa. Ao lado de A Aventura, exercita um humor estranho, que, assim como no filme supracitado, surge de um desvio na normalidade do cotidiano, o que leva o filme para uma esfera onírico-realista, de suspensão do estado natural das coisas e de uma relação habitual entre ser espaço e tempo, mas tudo ainda dentro da própria realidade dos personagens. Nesse sentido, esse é um filme que evoca os últimos dois curtas da dupla Marco Dutra e Juliana Rojas (O Lençol Branco e Um Ramo), já que ambos também tratam de cotidianos tomados pela presença do inesperado, tomando as personagens de surpresa e criando um novo espaço do cotidiano, onde as coisas mais comuns tomam novos sentidos. No entanto, a morbidez, o tom grave, a presença da morte enquanto força potente e transformadora nos filmes da dupla Marco e Juliana não se apresenta em Caixa de Surpresa; aqui, o que move o filme é a vida, ou a iminência dela, sua presença ausente.

A estranheza de uma situação como a do casal do filme, que espera o nascimento do bebê de uma gravidez que já chega aos 10 meses, cria todo um universo de bizarrices, mas sempre trabalhadas a partir de elementos simples, elementos passíveis de estarem presentes no dia-a-dia dos dois. O homem consegue mais 10 dias de folga no trabalho alegando depressão. Ele faz isso para ficar com a esposa enquanto ambos aguardam a vinda do bebê. O ócio parece ser o que move o homem, fazendo com que ele construa, ele próprio, uma cadeirinha de bebê. O projeto da cadeira, todo mal ajambrado, já é um pouco reflexo do personagem e de sua crescente inquietude, ansiedade, desespero e incompreensão da situação que vive. Disperso e confuso, ele quase engole um prego. O que o filme possui de mais rico está justo na forma inquieta da câmera se posicionar diante dos dois e daquele novo cotidiano instaurado pela espera.

O curta busca, a todo o tempo, tratar o bizarro da situação de maneira visualmente curiosa, causando sempre a sensação no espectador de iminência de uma explosão interna, principalmente do quase-pai. Ele enlouquece aos poucos com aquele vazio ruidoso, com aqueles brinquedos parados, cores que pululam, um cartaz de bem-vindo que não se comunica. Essa observação do espaço pela câmera, somada ao trabalho de som bastante cuidadoso e inusitado no uso de trilhas e ruídos, cria uma atmosfera que irrompe no impressionante final catártico, onde há a explosão da angústia causada pela espera, assim como um retorno à irresponsabilidade que já não lhes caberia enquanto seres responsáveis, semi-pais. E então, diante do gozo daquela libertação, a vinda do menino é, mais do que surpresa ou alegria, um desespero diante da concretização daquilo que era apenas uma presença vaga, ausente.

Ao vivo em Stuttgart

por Leonardo Amaral 

Personagens do cenário geopolítico, como o presidente dos EUA George W. Bush, figuras do meio artístico, como o jazzista Miles Davis, todos eles são ícones de uma espécie de jukebox alegórico construído, em um formato de colagem, por Kasumi X. O diretor trabalha com a repetição, com a desfragmentação do movimento e com uma roupagem de cores para realizar uma espécie de máquina hipnótica que procura a (des)construção de sentidos.

Kasumi X parte do recorte para propor um mundo caótico, onde operam mensagens subliminares, sobreposições de poderes e uma desorientação acerca de seguimentos políticos e democráticos. O interessante é que essas imagens e falas são buscadas na realidade, mas sua readequação, sua montagem em sobreposição, a repartição silábica, juntas, dão um novo sentido, uma nova reflexão, a cada vez que o material é recolocado.

Kasumi X propõe, em seu curta-metragem, uma espécie de processo, tendo como base a mensagem de que o mundo se deteriora e que também vive sua interpolação em meio ao conflito geopolítico total. Mas, na verdade, o filme, que se propõe como uma espécie de explosivo – com sua resolução final da autodestruição , termina por funcionar apenas como um traque.

Rima sem Fim

por Gabriel Martins

Várias vertentes do cinema oriental, talvez por agruparem cineastas crescidos em uma parte do mundo onde a espiritualidade é valorizada através de outras perspectivas, têm em muitos momentos uma maneira, de certa forma, religiosa de tratar o cinema. Com essa virtude, estampada nas obras de diretores como Apichatpong Weerasethakul e Jia Zhang Ke, a vida parece tomar uma proporção maior na tela, tornar-se um universo de possibilidades para o real, uma verdadeira manifestação de um dom.

Rima sem fFim revela cada plano como uma obra gerada do espontâneo. No caso, essa espontaneidade não diz respeito a um produto natural documental, mas a um produto natural da vida. A própria luz não parece ser artificializada pelo cineasta, seguindo um tom realista do que existe no momento da captação. Na busca por um sentido maior para um filme, a boa ou má definição fotográfica de certas imagens acabam não tendo a menor importância. Em Rima sem Fim, é feito um convite à reflexão sobre as possibilidades da imagem para o espectador em suas diversas manifestações, buscando excitar o sentimento incrível que é constatar a natureza e, a partir daí, experimentá-la.

Ao final, um bebê chora, tocado pela luz do sol. Aí está o elemento-chave para a acepção desta obra: ver a reação de uma criança ao ter um de seus primeiros contatos com um elemento natural (a luz) nos lembra de como a imunidade que adquirimos a estes fenômenos ao longo da vida nos torna débeis à nossa oportunidade de verdadeiramente enxergar o universo. No caminho, colocamos várias artificialidades que nos separam de um significado maior, de manifestações físicas da natureza que poderiam ser muito mais assimiladas que negadas. O cinema, como proposta audiovisual, só nos permite ver e ouvir o mundo, o que, em muitos momentos, nos alerta para uma exposição que é necessária, uma regressão a primeiros contatos sensoriais que, no mundo de hoje, são extremamente necessários.

O último curta-metragem da última sessão do Festival de Curtas é possivelmente o melhor do evento, pois, na tentativa maior de uma reflexão e discussão sobre o cinema, a captação, a exibição e as razões para tudo isso que fizemos em uma semana, lembra que este mesmo cinema só se dá porque, antes, existe a vida.

Filmes Citados:

O Arco Secundário (L´arc Secondaire, 2007/Arnaud Maudru)

Caixa Surpresa (Polichinelle, 2007/ David Braun)

Ao Vivo em Stuttgart (Live @ Stuttgart, 2007/ Kasumi X)

Rima sem fim (Endless Rhyme, 2008/ Tanatchai Bandasak)

Fim dos Tempos (The Happening, 2008/M. Night Shyamalan)

A Aventura (The Adventure, 2008/Mike Brune)

Lençol Branco (Idem, 2004/Marco Dutra, Juliana Rojas)

Um Ramo (Idem, 2007/Marco Dutra, Juliana Rojas)

 

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