CB-6: Competitiva Brasileira 6

 Com os filmes: Convite para jantar com o camarada Stalin, Cocais - A cidade reinventada, Saliva, Satori Uso e Dossiê Rê Bordosa

 
Reflexões gerais sobre a sessão

Por João Toledo 

A última sessão da mostra competitiva brasileira se mostrou muito interessante, pois trouxe uma diversidade que faz saltar aos olhos uma série de questões que permeiam nosso atual panorama de criação cinematográfica. Para começar, temos o Convite para Jantar com o Camarada Stalin, filme hermético, que desvela fragmentos de um cotidiano, observado de forma rigorosa e bastante instigante; em seguida, Cocais, um documentário em tom poético que, mais do que retratar uma cidade e seus habitantes, trava uma relação com a cidade que transforma a ambos os lados; depois temos Saliva, o filme indie por excelência, tecnicamente impecável e sempre criativo na forma de explorar as questões sensoriais que o permeiam; Satori Uso, um filme de camadas diversas que escondem, por trás do que ele falseia, uma interessante relação com o real a partir de jogos com o cinema e com as possibilidades narrativas no intra-plano, e não na relação entre planos; e, para fechar, Dossiê Rê Bordosa traz à tona questões instigantes sobre a classificação do “gênero” documentário a partir de sua proposta formal, uma animação, que, por sinal, tem tudo a ver com o universo abordado.

Isso tudo dito, é possível desenvolver melhor as elucubrações surgidas a partir do choque de contrastes. Os filmes trazem não apenas vigor no sentido de provocar sensações muito distintas, mas demonstram também a qualidade do trabalho desenvolvido em muitas linhas de frente do cinema atual, com suas afinidades estéticas distintas,  buscando, nos resultados, coisas também distintas.

Se os dois primeiros filmes empreendem buscas mais intensas e nos jogam sem muitos parâmetros para dentro dessas buscas, os outros três possuem uma série de características atraentes, que podem até não ser dessa mesma visceralidade, mas que também vão além do simples frescor que possuem no virtuosismo estético patente. Partindo do curta Saliva, por exemplo: se pensarmos nessa relação inquieta de busca formal ao retratar angústias do universo jovem, enquanto modelo saudável de cinema comercial, com uma relação de interação afetiva com o público, é possível vislumbrar um futuro mais amistoso entre cinema nacional e seu espectador. Esses muitos cinemas me parecem diferentes espécies de fogos de artifício; alguns são mais extravagantes, coloridos, alguns mais pretensiosos nos jogos de movimento e ritmo, outros mais contidos, mas todos de alguma forma possuem um brilho e podem causar deslumbres em espectadores que se relacionam com o cinema em níveis muito diferentes. Uma sessão, afinal, muito saudável, tanto enquanto momento presente, quanto como premonição de um futuro mais prospero e saudável.

Convite para jantar com o camarada Stalin

por Gabriel Martins

Concentrando a ação em duas senhoras que preparam um jantar para um convidado especial, Convite para jantar com o camarada Stalin destaca a visualidade das ações, mais do que suas funções propriamente ditas. Com isso, o universo de preparação ali criado torna-se argumento para uma análise do significado daquelas personagens no enquadramento.

Os próprios créditos dizem: “Com a presença de Olga e Marilu”. De fato, trata-se de uma proposta de encenação que valoriza o espaço físico, a geografia do ambiente e todos os elementos que compõem o quadro. E em sua concepção, na procura de uma melhor maneira de retratar esta espera, o curta acaba propondo um estudo sobre a relação da imagem e o tempo.

Assim como as personagens, que esperam por um convidado que não chegará, o espectador também é colocado neste instante de preparação para uma virada na “trama”, que, na verdade, inexiste. Com isso, percebe-se que Convite para jantar... é uma obra sobre a preparação, sobre a construção de algo que poderia ser, no nosso caso, o próprio olhar. Interessa a esta obra não os fins de uma elaboração (o jantar como uma finalização de um processo), mas a elaboração em si, o processo de construção do próprio filme. E, nesta relação entre o espectador e um objeto fílmico que não se coloca enquanto algo definível, resta a contemplação de uma bela reflexão sobre a imagem, o espaço e o tempo.

Cocais, A cidade reinventada

por Mariana Souto

 
Ao fazer um filme sobre psicóticos, corre-se o grande risco de esbarrar em alguma forma de estereotipia. Isso pode acontecer tanto por uma visão esquemática do diretor sobre o assunto como pelo próprio objeto filmado, que muitas vezes carrega, de fato, a estereotipia como um de seus sintomas. Cocais, A Cidade Reinventada, a princípio, se enquadra na segunda opção, mas aos poucos percebe-se que talvez não seja bem assim.

O documentário registra diversos momentos da diretora na cidade e os variados programas culturais desenvolvidos com os psicóticos. Vemos alguns personagens falando para a câmera e outros entretidos em suas atividades. Entretanto, na maioria das vezes a câmera é fator ativo no registro e por vezes distrai as pessoas filmadas daquilo que estavam fazendo, causando uma certa paralisação, ainda que sorridente. A câmera de Inês Cardoso às vezes é sentida como invasiva, incômoda e, mesmo que no fim das contas seja para o bem, não deixa de causar uma perturbação.

A câmera cola nos rostos, analisa suas rugas, ronda o sujeito para tentar extrair algo dele. Em muitos momentos, passa a impressão de que, acima das pessoas, seu interesse é o tique, o dissonante. O fato de a maioria dos falantes trazerem em si algum tipo de loucura facilmente perceptível leva a crer que “a visão esquemática” do diretor está, sim, presente em Cocais, mesmo que não seja algo consciente. O resultado pende para esse lado provavelmente devido ao trabalho de montagem, com a seleção quase que exclusiva de comportamentos que chamem atenção. Em uma cena, assistimos a várias pessoas dançando, e a câmera se dirige justamente àquela que destoa do grupo, que se move de maneira não usual. O curta gera ambigüidades se nos questionarmos por que motivo devemos olhar para essa determinada pessoa, dentre todas as outras. A câmera de Inês parece irremediavelmente atraída por tudo o que é saliente, seja um louco, um sapateador frenético, ovelhas passando entre camas.

Em Cocais, A Cidade Reinventada, não há a naturalidade do tratamento a toda e qualquer pessoa, não importando seu diagnóstico. É um filme que, apesar de poético em sua forma artística e com algumas imagens de grande apuro estético (como a do cinema), não busca a sutileza, o cuidado. Gera até mesmo a impressão de que a equipe entrou na cidade para sacudi-la, tanto que a afirmação orgulhosa da reinvenção e do movimento provocados a partir do trabalho é estampada em toda parte: na tela ao fim do filme, na sinopse e também no próprio título.

Saliva

por João Toledo

O mais recente curta de Esmir Filho, e última realização antes de seu primeiro longa-metragem, parece indicar um acirramento ainda maior de seu cinema no âmbito da inverossimilhança, da poesia de imagens expressivas e não necessariamente realistas. O interessante, no entanto, é perceber que isso não o torna hermético nem afasta o público de uma participação efetiva e afetiva na sala de exibição; há uma identificação grande do espectador, apesar do tratamento estético que busca cada vez mais a expressividade da imagem em detrimento do uso do texto.

Saliva, único curta-metragem não abordado no texto sobre o realizador escrito para a coluna Corte Seco, dá continuidade à carreira de Esmir no sentido de trazer novamente a questão do jovem, retrabalhando temas centrais em sua breve cinematografia e buscando novas formas de discursar imageticamente. Seu diagnóstico da transição entre infância e juventude, mais que preciso na forma de enxergar o assunto, é certeiro na apresentação e na pulsação de imagens e sons que se distinguem, de cores e formas que se confundem e de exageros poéticos tratados com absoluto cuidado, sem permitir a imagem cair na caricatura estetizada. O filme, ao tratar desse universo transitório, parece mergulhar nele e na dúvida e angústia da personagem.

O filme começa com um beijo de uma garotinha no espelho molhado do banheiro: logo descobrimos que ela havia beijado. A amiga, ao conversar sobre isso, é um tanto insolente de forma quase caricata, como se precisasse tratar do assunto como algo banal por ser mais experiente – estabelece-se ali uma posição de superioridade. Angustiada tanto pelo medo de não saber e não gostar de beijar, quanto pelo medo de ser excluída e de não fazer parte do grupo de amigas em fase de crescimento, a garota, que, na intimidade, faz de tudo para simular o beijo e descobri-lo de  forma mais pessoal antes (da entrega forçada quase imposta pelo contexto), resolve superar seus medos e entrar na dança.

Nos momentos que antecedem seu beijo no garoto baixinho e ruivo escolhido pelas amigas, assistimos a um belo mosaico de imagens que traçam toda sua trajetória de treino e de momentos de pressão das amigas ou angústias pessoais; até a hora do beijo em si, quando tudo aquilo vai sendo invadindo de saliva e as memórias vão se lavando e se molhando, o som de água penetrando os pensamentos e imergindo o casal numa enorme piscina de seu próprio beijo, até que, ao fim, completamente molhados, mas já de volta àquela realidade anterior retornam ao encontro dos amigos.

O olhar da menina perdido no horizonte noturno não mostra satisfação ou alívio; talvez um desgaste resultante da relutante entrega ao desconhecido. No carro com a mãe, ela abre o vidro molhado da chuva e brinca com aquelas gotas. Parece estar menos ansiosa, mais íntima da umidade, do tato, das experiências da juventude, por mais duras e impostas que sejam. O filme não busca respostas ou algum tipo de moral; o que ele faz é conciliar um emaranhado de retratos da experiência jovem, traçando com o carinho de um cúmplice esse perfil transitório e instável dos primeiros encontros com o universo da sexualidade.

Satori Uso *

* texto publicado originalmente dentro da cobertura do 3o Cineop, onde o filme foi exibido dentro de sessão intitulada "Delicadezas".  

por João Toledo

 
Satori Uso poderia estar no lugar errado, ser um curta deslocado dentro da temática da sessão intitulada “Delicadezas”. E não exatamente por suas imagens não serem delicadas; elas são. São de um extrato poético extremamente orgânico. Sustentam – como o cinema japonês ali emulado – a bela tensão entre o simples e o sofisticado. O filme é inteiro construído de haikais visuais, imagens-síntese que, em si, abrem e concluem pensamentos, estes sempre sobrepostos pela narração de Jim Kleist ou pelas poesias do livro Nihonbashi Doji, do escritor que dá título ao filme. Mas porque ele poderia, então, ser questionado dentro de seu contexto? A questão sobre seu não-pertencimento ao tema reside na seguinte questão: o documentário sobre o diretor Kleist e seu filme incompleto sobre Satori Uso é, na verdade, um filme de ficção, e nenhum de seus personagens realmente existiu.

Num primeiro momento, me ocorre que aquilo seria um deboche, uma plena sátira do tom embargado das narrações de documentários nostálgicos, uma ironia mordaz que leva o espectador a se emocionar com imagens forjadas, com o espectro fantasmagórico das sombras que escondem a verdade vazia. No entanto, muito além do que faz, por exemplo, o curta Novela Vaga – sobre um cineasta frustrado com seus vídeos nunca selecionados para festivais, que resolve fazer um filme de “arte” sem conflito algum, em preto e branco, passado em Paris –, Satori Uso é extremamente verdadeiro e entregue ao seu discurso, sem deboche ou ironia às suas filiações estéticas. Mais legítimo que a maior parte das “verdades” legitimadas pela mídia nesses tempos em que o jornalismo sensacionalista vende o espetáculo descartável tanto quanto as novelas mais vazias, o curta parece trazer um certo alento em sua máscara. Ele é uma sombra – como o personagem Satori dizia almejar – que esconde a autenticidade de um discurso estético (visual tanto quanto escrito) realmente singular, que busca diluir legitimidades bobas da experiência real. Em vez de construir mentiras a partir do real, como faz a mídia, o filme constrói discursos autênticos a partir de mentiras.

É uma bela experiência, uma forma interessante de revisitar o passado para reencontrar, nos fragmentos, perguntas essenciais. “Nem dentro, nem fora/ neste canto do jardim/ sou uma sombra de mim”. A contemplação do mundo, o elogio ao inacabado, à forma aberta, a tensão entre o infinito e o efêmero, entre o eternizar-se e o anular-se, entre cinema e poesia, luz e sombra; estas questões norteiam o filme e dão vida a um cineasta underground americano e a um poeta japonês, dão vida também à Londrina da década de 50, à memória reinventada e ao cinema contemporâneo.

Dossiê Rê Bordosa

Por João Toledo 

Em sua curta carreira até aqui, Dossiê Rê Bordosa vem colecionando prêmios de todos os festivais por onde passa. O filme, afinal, cria uma relação de interação muito forte com a platéia; a comédia maldita perpassa todo o filme e atrai o espectador no que há de engraçado nos relatos, na proposta visual e também no que há de tosco e absurdo naquilo que é dito/mostrado. E esse forte laço que se cria não se escora somente nas gags ou no fato de se tratar de algo que povoa o imaginário popular (pelo sucesso que obteve nos anos 80 a tirinha criada pelo monstro sádico e assassino, o dinossauro não-extinto do sexo drogas e rock n’ roll: Angeli), mas também no tratamento inventivo que nos leva para dentro do universo criativo do autor e tece uma confusa costura de personagens reais e imaginários, misturados para reconstruir a mitologia da mocinha libertina torturada e morta.

Visualmente impecável, o filme, além de nos inserir no universo da Rê Bordosa, coisa imprescindível no empreendimento de torná-la algo palpável, e seu assassinato, algo concreto, não incorre pelo mesmo equívoco de A Cauda do Dinossauro. Pois, se este último, na busca por retratar o caos, acaba por domá-lo numa direção de arte e absorção visual extremamente preciosistas, impecáveis, controladas, Dossiê pode se dar ao luxo de ser levianamente limpo, já que é fruto de um outro momento, que surge de um olhar atual para o passado sujo; ele joga com o sujo, com a podridão, mas não se entrega a ela.

A narração, que nos direciona nos meandros da vida de Rê Bordosa e encosta os entrevistados na parede com perguntas capciosas, parece ter saído de O Bandido da Luz Vermelha, passado pelas estações de rádio de Perfume de Gardênia e chegado até aqui para novamente funcionar como uma consciência crítica que é ao mesmo tempo coerente e sensacionalista. Isso resulta num jogo midiático muito interessante em se tratando de uma personagem de Angeli, que, como não poderia deixar de ser, é fruto do esculacho, vítima do sadismo, politicamente incorreta e representante suprema da libertinagem – não há nada mais desejável enquanto objeto de dissecação sensacionalista que personagens, reais e criados, com estes antecedentes.

Filmes citados:

Convite para Jantar com o Camarada Stalin (idem, 2007/ Ricardo Alves Jr.)

Cocais, a Cidade Reinventada (idem, 2008/ Inês Cardoso)

Saliva (idem, 2007/ Esmir Filho)

Satori Uso (idem, 2007/ Rodrigo Grota)

Dossiê Rê Bordosa (idem, 2008/ César Cabral)

Novela Vaga (Idem, 2007/Beto Valente, Dado Amaral)

O Bandido da Luz Vermelha (idem, 1968/Rogério Sganzerla)

A Cauda do Dinossauro (idem, 2007/ Francisco Garcia)

Perfume de Gardênia (idem, 1992/ Guilherme de Almeida Prado)

 

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