CB-5: Competitiva Brasileira 5

Com os filmes: Dreznica, Partida, Mercúrio, Animadores, Trópico das Cabras e Ocidente

 

Dreznica

por Gabriel Martins

O Super-8 pode ser visto como um formato representativo de um registro acessível a não-profissionais, uma espécie de câmera de vídeo portátil do passado. Com sua estética peculiar, nos traz fortes traços de construção de memória: os registros feitos de forma amadora como possibilidade de fixar um momento. Muitas vezes relevamos a ação de filmar, tal a banalização e acesso na atualidade. Mas ao nos depararmos com imagens em Super-8, percebe-se o quanto o formato evoca para si uma espécie de idílio cinematográfico do tempo, uma transformação do instante que, ao se granular na película, constrói um outro universo de sensações. Filmar em Super-8 é uma ação especial.

Dreznica é o lugar onde a neve encontra o mar”, diz a sinopse do curta-metragem. Certamente o espaço de sonho evocado pela frase representa bem a forma que o curta dá a si. Numa interpolação de depoimentos e imagens de Super-8 geradas nos anos 70, temos a composição de memórias que constituem, nesta junção, um universo paralelo. Neste universo, acontecimentos reais inexistem, sendo o registro uma ferramenta de molde memorial (em certo momento um jovem diz ter a imagem dos registros do pai mais forte que a real). Dreznica vai afirmar, constantemente, que o formato é o moldador do tempo, um construtor de um espaço lúdico que, mais por sua estética que pelo conteúdo, exerce um poder fascinante sobre o real.

Partida

por Gabriel Martins

Mais do que a trama envolvendo o casal, Partida se destaca pelo seu rigor  estético. Neste filme, a angústia presente na separação (a impossibilidade de coexistência é tanta que os dois nem se postam um de frente para o outro em uma conversa) nos leva a ter personagens quase sempre sufocados pela geografia do ambiente onde se encontram – uma impossibilidade também da individualidade, do relacionamento consigo mesmo. A montagem, que chega a quebrar um ato (grito no espelho) e a continuidade de movimento, não se dispõe a expor a verdade daqueles personagens, isolando-nos do espaço diegético para um outro lugar, da ordem da composição visual.

O resultado final é um curta-metragem visualmente interessante, instigante em sua relação câmera-corpo e no tratamento ao tempo. Padece na ausência de elementos mais intensos que nos conectem com o universo sentimentalmente pesado dos personagens, mas ainda assim resume bem a solidão como fruto de uma desconexão total com o mundo.

Mercúrio

por Gabriel Martins

Esta animação de Sávio Leite parece pertencer a um universo beatnik de personagens perdidos, constantemente relacionados com drogas que, daí, buscam algum tipo de olhar a respeito do universo. Seguindo o tom de uma viagem lisérgica, Mercúrio não é nada mais que uma experimentação em stop motion, uma brincadeira com massa de modelar que, se pode interessar pela simpatia da imagem, pouco tem a acrescentar como projeto de cinema.

Animadores

por Gabriel Martins

Animadores é engraçado, bem realizado e simpático, levando até o fim da obra um espírito de humor visual recorrente nos projetos da Toscographics, produtora de animação responsável por vários projetos no Brasil. Como uma boa pílula de comédia, traz na simpatia e criatividade da construção de seus personagens um universo engraçado, mas nada além disso. Destaque para a cena da festa e as suas crianças infernais.

Trópico das Cabras*

por Ursula Rösele

Em Trópico das Cabras saímos do terreno da saudade para o terreno da amargura e do comodismo pela impossibilidade do decreto de um fim já óbvio. A praia serve também como representação da memória, porém, num contexto da constatação do fim de um ciclo e na iminência de diversas outras tentativas. A narração em off acompanha todo o período da lembrança.

O casal é enquadrado lado a lado, num momento que define a mudança de um de seus diversos ciclos. Os dois estão na cama, numa apatia quase palpável. A mulher sai então da cama e, conseqüentemente, do enquadramento, simbolizando a ruptura do tipo de relação que se dava entre os dois até aquele momento. Daí surge um interessante caminho narrativo para metaforizar o vazio das escolhas daquele casal: quando ambos aparecem em outras situações e com outras pessoas, o que está em foco na cena são os objetos. Suas atitudes irrefletidas aparecem sempre fora de foco.

Não há saudade melancólica do que foi aquela relação (uma vez que parece nunca de fato ter sido alguma coisa), mas o trato de um percurso da memória também no transcorrer do filme (agora em forma de flashback). Seus símbolos estão centrados em uma relação carnal, no cheiro da vagina da mulher que transa com outros homens e que sempre retorna à cama daquele homem; no demônio pendurado no carro, entre os dois.

Há também uma relação curiosa que envolve fotografias tiradas em polaroid (que remete a Meu Mundo em Perigo, longa de José Eduardo Belmonte exibido na Mostra de Tiradentes de 2008. Só que a fotografia em Trópico das Cabras serve para “congelar” momentos angustiantes, representantes maiores das razões pelas quais deve haver uma ruptura entre aquele casal, como a mulher nua após retornar do sexo. Ela serve também para determinar uma barreira comparativa passado/presente, quando o casal chega a uma cidade rural e compara algumas de suas construções com fotografias tiradas do urbano.

Sem nenhuma catarse, o filme simula um desfecho na separação dos dois. Sai do off para o verbal do homem e da mulher, que permanecia silenciosa até então. Concluindo que jamais passaram de desconhecidos, aquele casal sai de quadro, prenunciando o início de um outro filme que se daria fora dali, no qual as circunstâncias provavelmente não mudariam, só haveria novos personagens.

Ocidente*

por Ursula Rösele 

Ocidente traz um outro tipo de momento entre duas pessoas, mais balizado no simbolismo através do estético. Um casal de senhores está sentado no trem em profundo silêncio, mais uma vez enquadrados cada um em um lado do quadro, desta vez separados por uma mesa e pelos jornais que lêem. Não resta nem o diálogo, nem o foco.

O filme é esteticamente muito bonito, mas se baliza num tipo de clichê de que toda relação amorosa estaria fadada ao tédio e a um tipo de fim, quando sai daquela seqüência para encontrar um casal jovem apaixonado, juntos no meio do quadro, podendo inclusive servir de símbolo daquele mesmo inicial em um outro tempo de sua relação.

Essa representação de passagem do tempo se dá tanto no movimento do trem como nos flashes que se alternam entre o interior e o exterior e entre o casal e a natureza do lado de fora. Na idéia de degradação que ocorre progressivamente, Ocidente encontra um lugar onde o silêncio é dominante e não há mais sentimentos efusivos, nem de saudade, nem de incômodo com o que deixou de ser.

Filmes citados:

Dreznica (idem, 2008/ Anna Azevedo)

Partida (idem, 2008/ Daniel Lentini)

Mercúrio (idem, 2007/ Sávio Leite)

Animadores (idem, 2008/ Allan Sieber)

Trópico das Cabras (idem, 2007/ Fernando Coimbra)

Meu Mundo em Perigo (idem, 2007/ José Eduardo Belmonte)

Ocidente (idem, 2008/ Leonardo Sette)

*textos adaptados da cobertura da 11ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

Leia novidades instantâneas em nossoblog.