CB 4 – Competitiva Brasileira 4

 

Com os filmes: Miravento, Solidão Pública, O Crime da Atriz, Banho de Mar, Pajerama e A Cauda do Dinossauro

 

Miravento

                                                                         por Ursula Rösele

A câmera do curta-metragem Miravento inicia sua trajetória num acelerado caminho por entre as folhas de uma floresta, quase que atropelando os dois pés que seguem rapidamente diante dela, seguindo, firmes, um caminho que ainda desconhecemos.

O som que predomina é o da natureza e o diretor parece mergulhar com sua câmera por entre os espaços de forma que eles parecem dominar todo e qualquer canto do quadro, praticamente coberto por aquela paisagem que – nos contornos descompassados da câmera na mão – sugerem um ritmo caótico que destoa da natureza que ocupa nossa visão. 

Essa urgência da direção atrapalha um pouco o que de mais interessante a experiência estética alcançada ali poderia oferecer, que é justamente o exercício de contemplarmos a árvore, que após a intervenção do rapaz, fica sem folhas e as mesmas são substituídas por sacos plásticos, o que nos permitiria observar um fenômeno impossível de ser visto a olho nu: o vento. 

Toda essa seqüência de movimentos acontece num ritmo a la Gaspar Noé, resultando numa experiência interessante, ainda que nauseante. Tivesse o diretor deixado sua câmera observar (sem o excesso de movimentos) o que restou da árvore totalmente repleta das sacolas por mais tempo, talvez Miravento nos presenteasse com um momento de repouso visual para contemplarmos o resultado de sua intervenção estética na natureza de maneira a imergirmos de forma mais poética.

Apesar de sua incompreensível urgência, Miravento é um interessante experimento visual que pode suscitar reflexões outras, talvez até ligadas a um pensamento mais ativo em relação à influência do homem com a natureza, mas que certamente possui uma beleza plástica curiosa de se ver.

Solidão Pública

por Ursula Rösele

Solidão Pública inicia-se num vazio metafórico proporcionado pela tela branca e o off do diretor, que pondera rapidamente sua intenção de fazer um documentário, porém, um filme sobre “gente de verdade”. Ele conta que fez uma experiência de colocar alguns passantes do local onde filmou defronte sua câmera por três minutos (cada um receberia R$3,00 por isso). 

São claras as semelhanças com as experiências do cineasta Eduardo Coutinho ao transitar entre os terrenos inevitáveis do ficcional e do “real”, como no longa Jogo de Cena. O diretor pernambucano Daniel Aragão queria encontrar a solidão daquelas pessoas e acabou por realizar um pequeno experimento capaz de suscitar diversas reflexões acerca da relação do homem em seu estado de “personagem” a partir do momento em que se liga a câmera. 

Sabemos que não existe a possibilidade de fazer-se um registro puramente objetivo. A simples presença de uma câmera muda o objeto filmado assim que o mesmo toma consciência de sê-lo. Os primeiros momentos de Solidão Pública não explicitam totalmente os mecanismos usados por Aragão. Tem-se um senhor de idade diante da câmera com um olhar extremamente expressivo, enquanto vozes em off dizem diversas coisas como que direcionadas a ele. Não se sabe de onde vêm as vozes, se foram colocadas em pós-produção, se o observam de perto, se ele as conhece. Aragão teve o cuidado de escolher para o primeiro experimento uma filmagem com uma pessoa com um olhar semelhante aos personagens fotografados por Sebastião Salgado. 

Aquele senhor parecia guardar no olhar um sem-número de sentimentos que talvez ele mesmo não percebia conscientemente, mas que – principalmente pelos elementos narrativos inseridos ali - deram um grande peso ao início do filme. Ao tirar o off e simplesmente deixar-nos observar aquele senhor interagir com a lente da câmera até os instantes em que ele pareceu silenciar-se internamente, o filme alcançou o que parecia ser o exato limite entre o real e a ficção: a possibilidade de extrair de uma experiência premeditada uma reação dotada de uma melancolia poética, verdadeira. 

E está aí o que de mais curioso este curta experimentou, que é o paradoxo clássico do documentário ao iludir-se “documental”, um registro de alguma realidade particular, mas que – inevitavelmente – alcança suas diversas possibilidades reflexivas a partir de mecanismos de manipulação. 

Após esse rápido mergulho no primeiro “personagem”, somos apresentados a todo um aparato intensificador da experiência: o lado de fora. Aragão montou uma tenda e agora sabemos que aquele senhor estava sozinho diante da câmera, porém, ouvindo todos os murmurinhos das pessoas que observavam sua “solidão” em um imenso telão na praça. Temos, portanto, diversos olhares para e a partir da experiência: a do diretor para com seu objeto; a do ser filmado para com a câmera; a do ser filmado que se sabe filmado e que ouve as reações à sua instantânea clausura; a dos espectadores daquele que sabe estar ao alcance de suas manifestações verbais e, por último, nós, que assistimos a tudo isso.

O resultado é uma multiplicidade de elementos passíveis de intensas reflexões acerca não somente do resultado de uma exposição fílmica (estar diante da câmera, manipulá-la e observar ao que ela capta), mas das questões comportamentais que isso implica. E o que de mais curioso fica nessa urgente explanação sobre Solidão Pública é a dúvida: onde, realmente, esconde-se nossa solidão?

 

O Crime da Atriz

por Gabriel Martins

O Crime da Atriz é um projeto calcado fortemente em um cenário teatral belo-horizontino criado em torno do Grupo Galpão e extensões. Em muito lembra Tricoteios: e sofre dos mesmos males. Há ali um projeto de encenação que não ultrapassa as limitações do próprio roteiro, o que o torna um projeto pouco interessante. Ainda que a técnica seja caprichosa, direção de arte, fotografia, arte gráfica e produção sintonizadas com o tamanho do projeto, há algo de essencial não presente: um desenvolvimento maior de seu principal objeto de análise, a sua protagonista.

Com isso, o que talvez pudesse ser uma história interessante de uma personagem que busca a visibilidade em seu meio, torna-se no máximo uma narrativa simpática, que certamente cativa parte no público, mas não vai além. Falta ao filme tanto um trabalho autocrítico dentro da história a ser contada como uma concepção de direção ao menos ousada, em maior sintonia com o seu projeto e o que está sendo narrado. Um paralelo: Noite de Estréia, de Cassavetes. Lidando com um mesmo cenário, este sabe utilizar da câmera como um objeto investigativo de uma trama, de um cenário e principalmente de seus atores. Se O Crime da Atriz busca esta filiação em um universo teatral, falta-lhe a ciência das possibilidades cinematográficas nesta intersecção. 


Banho de Mar

por João Toledo

A curiosa seleção da 4º programa de curtas da competitiva brasileira trouxe 6 filmes que dificilmente dialogam entre si. Dentro da sessão, percebe-se um choque grande entre os curtas Miravento, Solidão Pública e Pajerama, nos quais o silêncio do discurso oral tem um papel importante, pois, se permite uma atenção maior à imagem, também direciona a atenção em grande parte para o trabalho de som dos filmes; e os curtas Crime da Atriz, Banho de Mar e A Cauda do Dinossauro, onde o uso do texto é não apenas importante, mas às vezes mais importante que imagem e som, de maneira que a narrativa se torna muito dependente de seu desenvolvimento oral.

Dentre os três últimos citados,  Banho de Mar talvez seja o mais isento dessa dependência. Fotografado em um preto e branco bem puxado para os tons de cinza, o filme evoca um caráter de sobriedade e gravidade fortes (ainda que seja claramente onírico), sempre reforçada pelo texto. O ambiente deserto da praia se torna palco de divagações de dois grandes amigos. A construção visual do espaço, com grandes planos gerais e personagens perdidos na imensidão do quadro, remete a Antonioni. Já os dilemas dos personagens revelam um cruzamento entre essa visualidade do homem perdido do plano espacial e o homem perdido no plano simbólico. A relação dos amigos, pautada pela presença marcante de texto, falas bem delineadas e expressadas com muita fluidez, mostra a importância da palavra para o diretor. Isso, associado à estranheza das questões discutidas (e que afrontam os dois amigos), nos faz remeter ao Esperando Godot de Becket e a seus personagens presos naquela complexa rede de dilemas inexistentes que os conduz – assim como neste curta – à inação. A situação em que os personagens se encontram leva ambos a um paradoxo diante da vontade/incapacidade de resgatar uma vítima de afogamento; não nos são revelados todos os dados do dilema, mas no fundo seriam ainda assim incompreensíveis, pois apenas servem para alicerçar a atitude retórica dos dois. O dilema inexiste. E o que é que existe naquele ambiente?

 
Pajerama

por Gabriel Martins

Animações têm um poder de nos deslocar a outro universo de concepção audiovisual, fora do “cinema convencional”, o live action. Ao nos depararmos com um espaço animado, mesmo que em três dimensões, somos levados a outra perspectiva de análise, sendo vítimas inclusive de uma simpatia inerente ao caráter fantástico da animação, da composição visual, que pode obscurecer um aprofundamento crítico nas obras. A animação também possibilita um controle total na realização, o que torna o processo artificializado, amplo nas possibilidades estéticas, mas limitado em certas imersões na essência da obra. Wall-E é um exemplo claro de uma simpatia somente possível no espaço virtual da animação (aquele robô só pode existir ali), com estética fascinante, mas de conteúdo raso e limitado em sua abordagem antropológica.

Pajerama tem um design de som notável (algo essencial para a credibilidade da animação), criatividade na movimentação no espaço onírico do personagem principal, capricho no design, mas uma limitação na exploração de seu conteúdo. O curta-metragem parte da denúncia de invasão da civilização no espaço físico e mental do indígena, que vê ao fim sua própria oca ser invadida por um símbolo da tecnologia e a presença da civilização.

Pode-se apontar como aspectos positivos uma referência curiosa a Kubrick, parte de uma total liberdade de encenação do pesadelo (um bom ritmo para o filme) e um final com certa inventividade na provocação a um alerta. Como já dito no primeiro parágrafo, tem toda a sedução de uma boa animação, mas trabalha dentro de um discurso que não consegue ser aprofundado. Talvez seja a junção entre o encantamento e a impossibilidade de erro humano os fatores cruciais para que possibilidades de ruído dentro de uma animação como esta, que denuncia exatamente as falhas humanas, sejam suprimidas. Estamos em um espaço onírico, de simbologia idílica, essencialmente estética, sem a afetação necessária a seu impacto crítico. Como exercício de encenação e técnica, no entanto, funciona muito bem.


A Cauda do Dinossauro

por Mariana Souto

A Cauda do Dinossauro tem ambientação underground na claustrofobia de um único ambiente-caverna, permeado de referências visuais nostálgicas e trilha de rock pesado. Aqui, o típico clima de anarquia do cartunista Angeli é levado ao extremo – os personagens se encontram em um local indeterminado, tempo suspenso, em estado de desordem. Excessivo também é o tom do curta, que de tão agressivo pelo simples prazer de chocar pode perder a graça. Há nele um gosto pelo desbunde, pelo incômodo, em grande parte expressão natural de um sentimento de podridão, mas também somada com uma vontade de cutucar.

Estamos em um futuro com cara de passado, datado pela visão imaginária que se tinha dele. Dentro do quarto do personagem, estamos nos anos 80. Do lado de fora das janelas, estamos em Blade Runner. Em suma, estamos no futuro dos anos 80 - e sem querer sair deles. A sensação de nostalgia, da saudade de um tempo de revoluções, amor livre, experimentação (usando sinônimos para sexo, drogas e rock’n’roll) gera uma volta no tempo ainda maior, aos loucos anos 60 e 70. Toda essa efervescência e rebeldia são trazidas para o tempo futuro, mas de outras formas: o desrespeito às leis vigentes, os esconderijos, a conspiração de um grupo desviante.

O personagem de A Cauda do Dinossauro tem em sua essência a subversão e seu espaço reflete isso. A bagunça e a sujeira do quarto, com traços de vários ícones temporais e musicais, é uma expressão da personalidade de seu habitante. As cores são vibrantes, mas sujas, decadentes. O apego ao sexo, ao carnal emerge nos diálogos e nas cenas que começam despudoradas, mas que se camuflam de alguma forma. Do registro de um ato obsceno, a câmera se desloca e filma uma parede reluzente, num sinal de timidez – por incrível que pareça.

O personagem central, caricato como deveria ser (pensando na origem de seu autor), é tão deslocado de seu ambiente que se diferencia fisicamente, cria uma cauda, se animaliza. E cresce dele logo uma parte do corpo de um bicho velho, pré-histórico. Pela referência aos tempos pesados dos Titãs, poderia ter uma cabeça de dinossauro, mas o que lhe surge é uma cauda, um rabo, algo coprófilo. Pode-se dizer, para além de gostos e afinidades, que A Cauda do Dinossauro é a cara de Angeli.

 

Filmes citados:

Miravento (idem, 2007/ Alexandre B.)

Irreversível (Irrevérsible,2002/ Gaspar Noe)

Solidão Pública (idem, 2008/ Daniel Aragão)

O Crime da Atriz (idem, 2007/ Elza Cataldo)

Noite de Estréia (Opening Night, 1977/ John Cassavettes)

Jogo de Cena (idem, 2007/ Eduardo Coutinho)

Banho de Mar (Idem, 2008/ Theo Solnik)

Pajerama (idem, 2008/ Leonardo Cadaval)

Wall-E (idem, 2008/ Andrew Stanton)

A Cauda do Dinossauro (idem, 2007/ Francisco Garcia)

Blade Runner (idem, 1982/ Ridley Scott)

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