
Com os filmes: A Primavera de Sant Ponç, Taxista, Sim talvez e O peixe

por Leonardo Amaral
A primavera de Sant Ponç
Esse curta-metragem, de David Epiney e Eugenia Mumenthaler, procura transitar entre o documentário e a animação. Basicamente, o que vemos são narrações seguidas de desenhos, quase artesanais, que se alternam na tela. Os diretores do filme visitam uma espécie de casa de repouso para autistas onde uma oficina de desenho é oferecida aos pacientes. Durante praticamente todo o documentário, o que podemos ver são desenhos realizados em acordo com aquilo que é narrado pelos próprios moradores da casa. Poucos são os planos do local: um, no início, que apresenta sua fachada, e outros do interior, que mostram os cômodos vazios.
A primavera de Sant Ponç procura dar vazão aos sentimentos dos internos, procurando ilustrar suas histórias de vidas, anseios, medos, gostos e excentricidades, e, para tanto, Epiney e Mumenthaler fazem a opção pela ilustração, que, por suas cores e formas, conseguem refletir, de uma maneira até lúdica, os sentimentos que podem ser observados em uma narrativa polifônica, já que abarca mais de um relato. No entanto, os desenhos não são somente ilustrativos, eles procuram mesmo uma certa expressão, um sentimento, já que partem de um desenho fundamental realizado na oficina. A partir de então, há uma tentativa de se exprimir um algo espontâneo de pessoas cujo mundo é bastante particular e restritivo.
Existe, porém, uma contrapartida para essa opção estética: se ela consegue dar vazão a emanação de sentimentos, de verdades interiores, ao mesmo tempo, ela também causa um certo distanciamento do espectador. Por mais que possamos escutar o que tem a dizer a personagem Enriqueta – a que mais se expressa – e outros pacientes, a sua não-presença, a câmera que capta apenas um interior, em uma primavera qualquer, possibilita, é bem verdade, um certo sentido de impessoalidade. Certo, aquelas pessoas se expressam organicamente por meio dos desenhos, mas, no entanto, elas ainda são apenas ilustrações, ainda dizem muito pouco de um universo que também é visual, e não somente sonoro. Os desenhos são sim expressivos, mas lhes falta um certo aspecto humano, o contato não mediado, aquele que não se esconde em traços.
Taxista
É evidente a excentricidade existente no fato anômico: um taxista, que transita em meio à cidade, vê uma jovem e bela estudante de telecomunicação e lhe oferece carona; ela aceita o favor e ele acaba a levando para sua casa, para, posteriormente, prendê-la no local. Em seguida, começa todo um processo de preparação de seu casamento com a moça. O diretor Roman Bondarchuk investe em uma estética do absurdo, que procura adentrar um universo estranhíssimo: ele opta por um anti-naturalismo para criar a estrutura potencial que dê conta dos desarranjos sociais do taxista e sua incompreensão diante das recusas da moça ao seu pedido esquizofrênico de casamento.
Para transitar em um mundo excêntrico onde pessoas atiram utensílios domésticos uma nas outras, onde vacas se misturam a pessoas, e em que quase tudo é motivo para discussões, o diretor ucraniano faz escolhas por uma montagem ágil – que dinamiza a ação, reflexos dos estranhamentos presentes no filme – e opta por um repertório de angulações e jogos de lente. A fotografia em preto e branco e uma certa não-expressão cênica são também artifícios criadores de situações. Em tese, o curta-metragem é uma verdadeira série de situações que ajudam a construir o absurdo e insano mundo do taxista.
Não há uma temporaridade exata e o que existe é uma demarcação espacial que busca a desorientação e, para tanto, usa as já citadas variações de enquadramento e angulação. É bem verdade que, Taxista procura rupturas narrativas, um certo experimentalismo em linguagem. Porém, em seu traquejo, se mostra apenas como um cinema de superfície. Não chega a ser uma pirotecnia, por conseguir, em certos momentos, expor e transitar bem n esse universo absurdo - e mesmo ser interessante visualmente. Mas existe uma certa falta de unidade estética, talvez fruto de uma vontade excessiva de dizer coisa demais em um só filme.
Sim talvez
Esse curta possui uma execução bastante simples e que, de uma certa forma, contribui muito para a fluência narrativa. A opção por planos-seqüências e pela câmera acompanhante e não interferente dão à ação uma unidade não fragmentada - já que o filme é bastante factual - em que a expressão está na sua concatenação, não cabendo muito qualquer tipo de proposta mais retalhada e manipulativa de montagem. O filme trabalha com o ocasional, com a relação de aproximação dos personagens e com a estranheza do momento. Após uma peça de teatro, uma jovem segue um dos atores pelas ruas desertas de uma noite em Paris. A câmera, em um primeiro momento, ainda se mantém resguardada, acompanhando tudo de trás. O ator percebe a moça e ela se apresenta como fã. Eles iniciam uma caminhada enquanto trocam impressões. A câmera agora, de frente, também faz parte da caminhada, deixando, assim como a mulher, de ser apenas uma seguidora: ela agora passa a ser o aparato da ação, deixando com que ela se desenrole.
A caminhada e a ação continuada criam uma intimidade fugaz entre os dois, que se expressam com uma maior facilidade a medida em que o tempo diegético se dá, a falta de naturalismo vai se desfazendo. Mas ainda existe uma resistência, a unidade entre eles ainda é bastante superficial, e a diretora é bastante bem sucedida na arquitetura desse anticlima.
Ao final, os dois param e o ator diz que precisa pegar um táxi e ir para casa. Ela faz um convite para que eles possam beber algo, mas ele recusa, ela reforça um convite para que ele vá para a casa dele; há um tempo substancial, com a câmera impassível, para ela arrisque um beijo, mas ele acaba por ir embora. A diretora constrói todo um cenário romântico para, depois, romper com a idéia do acaso, do encontro, para demonstrar que a vida ainda é um construto social. Durante todo o filme há uma criação de uma expectativa que não se resolve, que fica suspensa. Sim talvez é um filme da proposição, da não resolução, da incerteza refletida em seu próprio título.
O peixe
Para quem não está muito habituado com o contato com a neve, é impossível perceber as várias tonalidades do branco, tendo sempre a impressão de uma imensidão alva. O deserto gelado é ainda mais aterrador do que o deserto de areia, a brancura da neve, a ausência de vegetação, a falta de vida traz uma aparente construção do nada. A paisagem desoladora acaba, por sua vez, se refletindo diretamente na atmosfera, na percepção do mundo de uma outra maneira, mas detalhista, com outra concepção do tempo e do espaço.
O peixe é um filme que se constrói em meio a um deserto de gelo na Sibéria. Uma pequena casa no meio de um nada é abrigo de uma família, sendo habitada pelo silêncio. Alexander Kott busca na paisagem sua construção dessa relação com os personagens. Em um primeiro plano, vemos um garoto, filmado de baixo para cima, até que a câmera chegue a sua mãe, sem, no entanto, apresentar sua face. O curta se conduz pela distância, seja espacial, física e humana. Frio é o tempo climático, o rigor do inverno, a paisagem opressora são os contornos da casa.
Há o esfacelamento dos relacionamentos, uma falta de calor, de proximidade humana. O abandono do pai é o símbolo da perda em processo, da solidão que se constrói, do isolamento que se monta. A doença da mãe e o silêncio imperante trazem uma nova compreensão sonora.
O desenho de som e a ação temporal são o esmerilhamento desse curta-metragem. Na casa, podemos escutar o relógio, as vibrações e rangeres dos objetos, sons que fazem parte do cotidiano do garoto. A descoberta do estetoscópio esquecido pelo médico passa a elencar novos elementos que repercutem nesse dia a dia, são sons que antes pareciam distantes, mas agora se apresentam mais próximos, ou mais vibrantes. É uma nova descoberta, uma maneira diferente de sentir o mundo.
O menino sai com o aparelho médico para o gelo, procura novas coisas, ocasionados pela percepção de mundo experimentada em razão da presença do estetoscópio. O filme possui uma variação sonora com altas e baixas intensidades. quando o garoto encontra algo abaixo da neve e começa a picaretar, Kott nos traz uma pancada seca e intensa, para, no plano seguinte, agora geral, ele abafar esse som. O diretor procura um cinema de impressões e sensações, encontrado, nessa expressão sonora, nossa proximidade com personagem. Novo plano e vemos o menino observando uma barra de gelo em cima da mesa, sobre um prato. Congelado e preso no gelo está um peixe. Kott trabalha novamente a questão temporal como havia feito no início, nas observações da criança em relação à mãe e o ambiente que a cerca. O tempo agora é quase físico, o gelo derrete lentamente enquanto é observado. Os olhos, antes tão observadores e perceptivos, começam a se fechar, o gelo já se derrete quase que completamente, o peixe já está quase liberto. Outra vez o som, agora amplificado na respiração do peixe, ele pulsa em meio ao gelo, como ainda é pulsante o garoto, que, como o animal, também se encontra preso e solitário em meio à neve, ao frio, ao inverno, mas à espera, assim como no derretimento que trouxe novamente o peixe à vida.
Filmes citados:
A primavera de Sant Ponç (Le printemps de Sant Ponç, 2007/David Epiney e Eugenia Mumenthaçer)
Taxista (Taxyst, 2007/Roman Bondarchuk)
Sim talvez (Oui, peut-être, 2007/Marilyne Canto)
O peixe (Ryba, 2008/Alexander Kott)