
Com os filmes: Yu, Fantasmas e ruas de cascalho e De volta às ruas
por Leonardo Amaral
O cinema, ao cruzar a realidade com uma linguagem que não o simples registro, tem a capacidade de fazer emanar novas questões, que, por sua vez, não se encontram nem na ordem cinematográfica nem na real. A imagem, de uma certa forma, não deixa de ser uma construção, na medida em que limita um olhar, direcionando-o, por menos interferência que a câmera possa realizar. Há filmes que trabalham no limite do documento e da criação, sendo que, para obter tais efeitos, acabam por se construir no próprio fazer, dentro mesmo do processo, explicitando, em certos casos e em de maneiras diferentes, seu dispositivo de operação. Abbas Kiarostami e seu estudo de construção de realidade e Andrea Tonacci e seu personagem/documento Carapiru de Serras da desordem são alguns dos muitos exemplos desse tipo de realização cinematográfica.
O programa 1 de Um Pé no Real do Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte apresenta filmes que, de uma forma ou de outra, trabalham em um dispositivo bem próximo dessa interação do documentário com a ficção. Dois dos filmes – Yu e De volta às ruas – centram-se no acompanhamento de um personagem, em uma espécie de registro cotidiano, enquanto o outro – Fantasmas e ruas de cascalho – se desenvolve por meio de um relato que opera dentro de uma abordagem acerca da não-presença.
Yu acompanha a trajetória de uma jovem – cujo nome é titulo do filme – de Birma, que tenta conseguir regularizar sua situação na França, para onde foi após fugir de seu país em busca de uma vida melhor. A câmera segue os passos de Yu, mostra o seu dia a dia difícil, da sempre alternância de moradia. Há o registro das reuniões que fazem parte do processo de ligação, como também do cotidiano, por meio do relato da garota. Há, em muitos dos momentos, uma construção imagética que se mistura fortemente a realidade, chegando-se, em várias vezes, a uma construção filimica que influi diretamente na maneira como o espectador enxerga a personagem. Ocorre um exercício de montagem, que se não dramatiza, pelo menos traz uma aproximação bastante forte com aquela história. Não existe, no entanto, uma manipulação, mas uma relação forte da câmera e da personagem, um ato involuntário que, junto a uma história de vida realmente envolvente, acaba por constituir essa proximidade documentado/público.
Algo semelhante também se dá em De volta às ruas. Nesse documentário de Guérrin Van De Vorst há, assim como no Yu, de Manon Ott, uma presença física que é bastante forte. Mas, ao contrário do curta francês, esse traz uma câmera ainda mais presente no drama do personagem, estabelecendo um verdadeiro jogo de cumplicidade com o mesmo. Raymond é um idoso que vive em uma Instituição Social que lhe serve tanto de abrigo como trabalho. Mas sua permanência se vê ameaçada e ele precisa ir para a rua a procura de sobrevivência. Há uma pessoalidade muito forte no tratamento, na condução do filme. Em certos momentos há quase uma representação diante da câmera, enquanto em outros, há um quase esquecimento dessa, que se apresenta impassível, da mesma forma como o próprio Raymond, sem grandes alternativas e forças, se mostra dentro do filme. O filme de Van De Vorst é uma espécie de documento íntimo do esgotamento humano, personificado em Raymond, solto e ao mesmo tempo perdido nas ruas.
Já o trabalho de Mike Rollo, em Fantasmas e ruas de cascalho, talvez apresenta o trabalho mais instigante porque conseguir obter uma proximidade física bastante forte ao, interessantemente, trabalhar com a ausência. Não existem personagens em contato direto, ou estão sob a forma de sons, sombras ou nos retratos pregados em ruínas de uma localidade fantasma. Interessante como Rollo, através de vozes, sons, consegue trazer para o vazio uma certa presença, que é um retrato histórico de um local em meio a paisagem canadense. A câmera vasculha espaços, transita pelos cômodos das casas, em meio à pradaria, cruzando cercas, em sua busca .
O filme, que se define como documentário, é muito próximo à ficção, pois seu sentido está em um contraste do que a imagem apresenta e aquilo que podemos escutar. Seus personagens são os objetos, algo como a inanimação da vida, mas com que respondem pelo que remetem, pelo que constroem histórica e imageticamente. As fotos são a maior representação disso, a princípio são objetos, mas, ao serem apresentados, eles carregam uma carga histórica e buscam na sua característica indicial toda a construção desse filme. O filme é, principalmente, um relato de um tempo existente, ainda marcado por seus fantasmas, por aquilo que remetem, que ainda percorrem os espaços daquele local.
Filmes citados:
Serras da desordem (idem, 2004/Andrea Tonacci)
Yu (idem, 2007/Manon Ott)
Fantasmas e ruas de cascalho (Ghosts na gravel roads, 2008/Mike Rollo)
De volta às ruas (Retour à la rue, 2008/Guérrin Van De Vorst)