
por Gabriel Martins
Antes de assistir a esta pequena mostra de curtas metragens de Karim Aïnouz, meu contato se restringia a apenas seus trabalhos como roteirista e/ou diretor: Abril Despedaçado, Madame Satã, Cidade Baixa, Cinema, Aspirinas e Urubus e O Céu de Suely. Passando por esta sessão de curtas e pensando no seu trabalho em retrocesso, vejo ser o diretor uma representação de uma linhagem forte presente nestes filmes já citados, símbolos de uma vertente do cinema nacional contemporâneo que preza pela construção elaborada do espaço de seus personagens no mundo, seus valores e crenças. Isso prova, acima de tudo, que Karim Aïnouz é fundamentalmente um realizador que respeita a verdade de suas criações.
Em um discurso que não busca necessariamente a declaração de um argumento próprio, mas a exposição de idéias de elementos da terceira pessoa, Karim delega a suas próprias criações os embates internos à trama. Se há algo de si, é a afetividade em relação ao seu material, o carinho pelo mesmo. Nos casos de Madame Satã e O Céu de Suely, seus dois trabalhos de direção em longa-metragem, vemos claramente a observação de uma criação, como se a vida fosse dada a um personagem para que este mesmo trilhe seu caminho sozinho, sendo apenas filmado por Karim. Uma relação que não se configura interventora como é possível observar em cineastas como Cláudio Assis, controlador de sua mise en scène.
Em O Preso, projeto de estrutura narrativamente frágil, temos, mesmo em roupagem excessivamente romântica, um afastamento das ações daquele personagem, provocadas e sofridas por ele próprio. Mesmo em seu extremismo no final, o curta-metragem não coloca em questão as motivações daquela ação, o que em certo ponto é uma fragilidade, mas também demonstra um afastamento próprio do diretor, como se lhe fosse impossível entender estas mesmas motivações. Existe o Karim e do outro lado os seus personagens, que, mesmo distantes, estão ao mesmo tempo muito próximos como um filho acaba sendo de seu pai.
Em Seams, este aspecto de dará de outra forma: uma voz em primeira pessoa representa relatos do próprio diretor tendo, em paralelo, entrevistas com suas tias avós. Mesmo assim, Karim não será exatamente ele mesmo, mas um personagem de si que, na construção de um percurso histórico da sexualidade na sua família, buscará sua própria posição como “diferente” que é. Na homossexualidade latente a seu discurso, se esconde uma própria maneira de preservação, neste caso, de si mesmo para o mundo.
E em Hic Habitat Felicitas, um curta-metragem de tempo e enquadramento que criam uma distância respeitosa dos personagens, a observação se faz ainda mais clara. É no desenrolar da ação daqueles personagens que se instaura a verdade sobre eles e que somente lhes pertence. É um espaço privado, que joga o espectador num espaço de não-identificação pouco confortável, instigante exatamente por fechar certas portas ao entendimento daquele universo.
Seguindo uma carreira que promete muito material interessante por vir, Karim Aïnouz representa toda uma maneira de olhar sintomática da própria realização cinematográfica do Brasil, uma linhagem narrativa que trabalha a seguinte questão: com a distância entre o sujeito e o objeto claramente estabelecida, como um filme pode ser singelamente narrado? Na relativização da moralidade, Karim se constrói como um autor na expressividade do carinho, e não do peso de sua mão.
Filmes citados:
Abril Despedaçado (idem, 2001/ Walter Salles)
Madame Satã (idem, 2002/ Karim Ainouz)
Cidade Baixa (idem, 2005/ Sérgio Machado)
Cinema, Aspirinas e Urubus (idem, 2005/ Marcelo Gomes)
O Céu de Suely (idem, 2006/ Karim Aïnouz)
Seams (idem, 1993/ Karim Aïnouz)