EM1: Mostra Especial Minas 1

Com os filmes: Náusea, Cuco, “Entreaspas”, Tudo Que Tenho a Dizer, Curral, Brincadeiras (do Homem-Aranha) Sem Fim.

Por João Toledo

 

Náusea

Náusea é filme mudo em tom operístico, cuja trilha grandiosa impregna o filme de uma carga emocional à qual a imagem não dá conta de corresponder. Ele se pretende grandíloquo, mas mal consegue erguer uma narrativa a partir dos dados audiovisuais maneiristas, pautados por uma tentativa de experimentar sem muito rigor. Os enquadramentos tortos e a saturação e granulação excessivos, elementos reforçados na pós-produção como forma de remeter mais obviamente ao expressionismo, parecem sempre à beira de um didatismo que, se por um lado faz remeter ao cinema desejado a partir dos signos desgastados, ainda não consegue criar imagens com a força expressiva do movimento alemão.

A proposta narrativa do filme – onde dois personagens convergem mas aparentam não se cruzar – acaba sempre colidir com uma excessiva pulsação de imagens de uma montagem que parece preferir se escorar numa desculpa que liberdade expressiva poética-sombólica para justificar o ritmo e os muitos cortes (num experimentalismo trivial), do que realmente estabelecer um tempo de ação e movimento dos corpos. E, na relação com a música, com a qual a imagem parece querer sempre se relacionar, essa mesma imagem a subjuga, a domestica, e ela acaba se encontrando também didatizada numa frágil e boba representação de músicos tocando, ou quase isso. Não sobre espaço dentro do exercício para qualquer coisa original. Além do óbvio, que fica na mente, tudo se perde no caleidoscópio excessivo de imagens manipuladas.

 

Cuco

A animação super simples, calcada na idéia do curta-piada, que desenvolve todo o filme para o clímax final, consegue, nessa relação com a simplicidade, delinear um projeto mínimo sobre a poesia e a liberdade do processo criativo – coisas que, inclusive, encontram acolhimento especial no universo da animação. Ele não se pretende grandioso ou impressionante; se relaciona com o público justo a partir do que há de mais simples e frugal, e fim.

 

“Entreaspas”

No universo tecnológico em que vivemos, é absolutamente comum que se veja esse tipo de convergência de formas de expressão artística e de linguagens múltiplas – o acesso aos recursos expande o leque expressivo e se, com isso, cria aberrações, também guarda boas surpresas. Há muitos vídeos que tratam de intervenções urbanas e da relação de certas tribos com o espaço urbano, mas normalmente a ênfase é maior no objeto a ser visto/avaliado/discutido. “Entreaspas” é, nesse sentido, um híbrido dentro desse contexto, pois a relação forte com a intervenção urbana em si não é mais forte que a proposta do vídeo. Mais do que documentar um processo de criação de algo, ou discuti-lo documentalmente, o curta cria um espaço de expressividade visual grande, de muita exploração de técnicas de montagem, ao mesmo em que documenta uma criação concreta no espaço urbano.

O filme é muito cuidadoso com a elaboração em vídeo da construção da intervenção – o projeto parece sempre preocupado com a organicidade da imagem do objeto em seu contexto, e faz uma montagem construtiva que simula um pouco do que a intervenção provoca no transeunte; ela é sempre uma aparição no vídeo, tem um caráter mágico e concreto, e também fugaz, efêmero. Se constrói e se modifica ao ritmo da música. Se degrada junto à cidade, como uma célula de um organismo.

 

Tudo Que Tenho a Dizer

É complicado falar de um filme que não parece ter uma intenção legítima de ser cinema, de um filme que não parece interessado no diálogo sobre si em qualquer âmbito. O esforço de fazê-lo, no entanto, se é em vão para o realizador, é importante na medida em que esse tipo de atitude anti-cinema merece algum tipo de pensamento, discussão, até mesmo resposta – afinal, o diálogo e a propagação de idéias críticas são essenciais para a trajetória da arte.

A proposta do filme é inteira escorada em um discurso ridicularizador roteirizado, projetado enquanto falação e não enquanto cinema; daí, o que vemos é justamente um roteiro transposto, ipsis litteris, para imagens tão limitadas quanto o pensamento exposto. A câmera se limita ao papel banal (quase como se emulasse um formato de novela) de expor a cena, e não de narrá-la. O jogo metalingüístico, também trivial, parece apenas desculpa para que se possa traçar o caminho mais fácil do discurso direto e falado, ao invés do discurso audiovisual. Somente esses dados já revelam o triste desinteresse pelo cinema; lacuna essa que o filme deseja preencher com algum tipo de ódio doentio por qualquer pessoa cuja relação com o cinema que seja diferente daquela do realizador.

Disfarçado de autocrítica em alguns momentos – como quando alguns personagens olham para a câmera e revelam que detestaram o roteiro do sujeito – o que temos é um curta fascista e altamente intolerante, que faz uso dos preconceitos mais estúpidos e dos estereótipos mais óbvios para concretizar sua vontade de desdenhar de tudo e fazê-lo como se completamente não se importasse com opinião alguma, com qualquer questão sobre a obra. Péssimos atores realizam suas atuações tipificadas de personagens sem nuance alguma; tudo para propalar o discurso arrogante e ignorante de que o intelectual, o crítico (seja ele voltado para o mercado ou para a estética), a fã de blockbusters, a mãe complacente, o colega que não quer emprestar a câmera e o cineasta-cabeça (que termo infeliz) são todos idiotas equivocados que são movidos apenas pelo ego e nunca compreendem as reais intenções por trás do roteiro do pobre coitado do diretor-protagonista.

É curioso que em um filme haja tanto desdém pelo conhecimento do cinema, sob protesto de ser tudo bobagem egóica. Uai, de que tamanho será o ego da pessoa que, além de ter desvendado a verdade obscura sobre os pretensos apaixonados por cinema, reivindica para si o papel de legítimo incompreendido e subvalorizado realizador (de roteiros) – que, ainda por cima, dá uma banana para o que pensamos dele? Mais curioso que pensar isso é indagar sobre como uma bobagem alto-indulgente dessa vai parar num festival de cinema.

Curral

Diversas pessoas estão dentro de um curral; ao mesmo tempo que estão numa espécie de festa, com trajes de gala, esses mesmos trajes são fantasias para a condição animal deles. Todos ali são vacas, entregues às condições mais rudimentares da existência. Eles agem como animais e são observados de perto por uma câmera atenta aos detalhes. Esse curta incorre pela mesma peculiaridade descrita no texto sobre o filme “Entreaspas”, pois ele é resultado de uma laboratório para a criação de uma peça teatral – excertos dessa mesma peça são inseridos durante o filme e ajudam a compor essa ambiência bizarra de homens trajados de animais em uma orgia desmedida. Dessa ambientação, o filme corta e faz um paralelo constante com o olhar de uma vaca real. Dessa relação, construída durante todo o filme, se revela, ao final, que a vaca que víamos está não ali no pasto com eles, mas no meio da cidade.

Apesar de visualmente se constituir de maneira interessante, bastante curiosa em sua troca focal e manipulação da imagem que confere ao filme um tom de horror quase lynchiano, o filme possui pouca força enquanto discurso sobre o homem e sua condição animal; apenas explora a visualidade de uma entrega e do estabelecimento de relações não pautadas pelo compromisso da consciência.

 

Brincadeiras (Do Homem-Aranha) Sem Fim

Não dá pra falar desse curta sem dizer que não se trata necessariamente de um curta, mas principalmente da documentação de um aniversário de 10 anos do irmão da cinegrafista. A data inseria no final dos créditos (mesma data do aniversário) parece algo sintomático do quão elaborado foi o filme enquanto discurso fílmico. Trata-se de um exercício de edição de vídeo caseiro de ocasiões familiares. No emaranhado de imagens repetitivas de crianças brincando, algumas brincadeiras aparecem, e a intenção parece ser a de divertir o irmão e seus amiguinhos mais do que qualquer outra coisa. O menino pula na cama elástica e ela inverte o filme de maneira que ele volta para a mesma posição; o aniversariante da a idéia de colocar, como efeito especial, palavras indo em direção à tela, e é isso o que vemos acontecer; o título do filme é sugestão de um dos meninos; a fala do aniversariante é invertida e um letreiro diz que ele fala árabe; quem diz “corta” no final do curta é o aniversariante. Se isso é engraçadinho, eu não sei; pode até ser, mas eu não sou da família.

 

Filmes Citados:

Brincadeiras (Do Homem-Aranha) Sem Fim (idem, 2007/Carolina Canguçu)

Curral (Idem, 2008/Rodrigo Campos Rocha)

Tudo Que Tenho a Dizer (Idem, 2007/João Carvalho)

“Entreaspas” (Idem, 2007/Israel Campos)

Cuco (idem, 2007/Samira Pacheco Ayres Heringer Daher)

Náusea (Idem, 2007/Sanzio Machado)

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