
Com os filmes: Filho, Fawn, Ondas e De Volta Para Casa

Filho
Por Gabriel Martins
As relações de afetividade entre as pessoas parece ser um tema importante para Daniel Mulloy. Em Sister, uma relação de cumplicidade criada entre duas crianças frente a uma situação de conflito (garotos encrenqueiros no ônibus provocando a uma delas) dizia muito a respeito de um apego próprio do ser humano, que se faz claro em situações de ameaça individual ou grupal. Em Dad, a relação familiar tratada com seu devido caráter freudiano resultava em um desafino do “normal”, uma quebra de conforto ao espectador visando à exploração dos comportamentos humanos na falta de carinho. Refletindo, vejo que a carência é de fato o tema principal que permeia tanto as obras supracitadas como este novo curta-metragem de Mulloy, Filho.
“Dividido” em duas narrativas que se cruzam entre o imaginário, o real e o cinematográfico (existe uma equipe fazendo um filme), temos o elemento central do garoto, ou o rosto deste garoto, que nos conecta com possibilidades da situação ali proposta. O filme dá-se início na terceira pessoa, a câmera posicionando-se atrás do garoto, que é filmado por uma equipe numa espécie de preparação a uma situação só revelada no fim, também evocando atenção ao valor da perspectiva desta criança. Um travelling feito na produção ali filmada torna-se um movimento de câmera do próprio filme, aproximando-se do rosto do garoto. Respirações ofegantes são ouvidas no fundo.
O que veremos no decorrer da narrativa é uma tentativa de relação entre a figura de uma mãe e um filho tendo a sombra de um pai ausente, que faz parte de um outro lado da trama, o da produção do filme. A mãe entra em conflito com a teimosia do filho e acaba se encontrando, após brigar com o mesmo, em um pesadelo indefinido, o terror do que não se pode ver, um filme que está sendo rodado. Ainda que se revele parte da verdade sob a segmentação na obra, o final nos mostrando o que seria filme ou acontecimento factual, temos ali uma proposta diegeticamente ilusionista – para o espectador, o que é visto é tão crível quanto de fato é para aquele garoto/ator da obra ali rodada – que acaba por nos trazer o olhar do personagem principal.
E neste jogo de verdades latentes na produção daquela
ficção, sobra a carência no olhar da criança: voltamos ao travelling inicial, à
proposição do jogo, quando Mulloy nos revela a profundidade do olhar deste
“filho”. Vendo a figura paternal e maternal brigando, o garoto, ainda que esteja
em foco sendo filmado sobre luzes intensas, é relegado à invisibilidade
afetiva. Como em Dad, quando a busca à afetividade virtual (o filho
consumia pornografia na internet) era insuficiente, e em Sister, quando
a individualidade era sinônimo de um fracasso (garotos abusam de um oriental
negligenciado por todos), a solidariedade será a solução e redenção para estes
personagens. Criando na procura à estetização da fragilidade, Daniel Mulloy faz
novamente um bom recorte de relações propriamente humanas.
Fawn
por Leonardo Amaral
Fawn é um curta-metragem austríaco que aproveita uma textura rústica do super8 como uma espécie de dureza da imagem que suja nosso campo de visão. Essa sujeira, também por conta da projeção digital, acaba realçada, mas, mesmo assim, ainda está totalmente abarcada na proposta do filme, que é mesmo de turvar aquilo que vemos, distorcer a imagem como experiência de percepção, não somente imagética como também sonora.
O que podemos ver, a bem verdade, são sombras, delineações de movimentos e acontecimentos. O som, alto e aterrorizante, é realçado pela narração de uma espectadora, que assim como nós, procura descobrir (ou descrever também em sua precária visão) aquilo que ocorre, de maneira fragmentada, à sua frente. É possível perceber que as imagens, mesmo em suas limitações (como já ditas, propositais), são chocantes, portadoras dos instintos humanos, dotadas, principalmente, de agressividade. Para destacar esse caráter agressivo, há a opção estética da precariedade visual, juntamente com o desconexo ruidoso da montagem.
A forma adotada por Christoph Rainer tem, no entanto, conseqüências: ao optar pela imagem obscura, pela quebra da articulação dessas imagens, ele acaba por dar ao seu filme uma abertura que pode trazer o impacto; mas, não somente ele, podendo existir uma certa desconexão com o espectador, que se perde frente ao amontoado de contornos. Por mais que essa seja a proposta, por mais que seja isso um pouco do objetivo, o de sujar, distorcer, há esse risco (que pode e é notoriamente assumido). A distorção estética, exatamente por não desvelar a imagem, estabelece, junto ao espectador, um jogo de sensações orientadas por aquilo que quer se ver. Entretanto, o contrário pode ocorrer quando a mesma experiência pode ser encarada com uma mera experiência de formalismo, causando um distanciamento em relação ao espectador, ao invés de afixioná-lo à imagem.
Ondas
por Mariana Souto
Começamos a acompanhar Ondas através de um personagem cigano, homem moreno que desce uma rua no meio de uma multidão. Logo mais, o curta parte para uma narrativa em montagem paralela, registrando em um núcleo o cigano, uma mãe suíça e seu filho e em outro, pai e mãe com um filho próximos de um casal fogoso. Em uma solução de certa forma previsível, os núcleos se cruzam e o que pareciam ser observações interessantes de fragmentos da convivência contemporânea acaba pendendo para o lado de uma crítica social, abordando os laços dispensáveis e mesquinhos que se desenvolvem entre as pessoas.
A multidão, presente o tempo inteiro desde o primeiro plano na rua até a praia lotada, sugere a diversidade de pessoas em um mesmo lugar, impressão corroborada pela existência de diversas nacionalidades e sotaques entre os personagens; a incomunicabilidade entre pessoas que estão lado a lado é marcada pelo não entendimento de idiomas. Uma personagem se dirige a outro em francês, que parece não compreender o que ela diz e responde em inglês, que parece nem ser sua língua mãe.
A alta quantidade de pessoas por metro quadrado numa praia e os enquadramentos em plano conjunto nos dão a sensação de observação de paisagem, do olhar para uma composição fotográfica em movimento, algo contrário a assistir personagens em ações dramáticas. Tudo é cotidiano, parte do cenário, envolto por um marcante som ambiente. Uns tomam sol, outros brincam, muitos estão à toa. Em alguns momentos, Ondas remete a As Férias do Sr. Hulot, de Jacques Tati, tanto pela quantidade de acontecimentos simultâneos como pelo humor. Mas de registro do prosaico o curta caminha para a ação, o acontecimento. Uma mulher se afoga. Curioso é que esse acontecimento é rapidamente abafado pela multidão, que parece estar programada para seguir seu curso, mesmo que alguns membros se percam e fiquem para trás.
A mesma multidão que passa a sensação de segurança, de proteção contra incidentes, assaltos e que poderia se juntar para ajudar alguém em situação de risco é a que pisoteia, atropela – ela é a própria causa de agressão ao indivíduo. O anonimato é o apoio do crime – seja uma morte ou o furto de objetos pessoais. E em outra aparente mudança de rumo, o curta parece desistir de uma crítica dura à não cooperação, da elaboração de um pensamento sobre a solidão e o desamparo coletivo ao mostrar o arrependimento de um personagem que volta atrás para ajudar o filho abandonado da mulher suíça. Ainda assim, permanece a dureza e uma certa desesperança em relação à mobilização das pessoas; a constatação da apatia e da inércia diante do outro.
De volta para casa
por Leonardo Amaral
O Festival Internacional de Curtas do ano passado já havia mostrado um pouco do que se tem produzido em curtas-metragens em Israel, uma produção bastante interessante, principalmente por demonstrar uma capacidade sintética dentro de um cinema de ficção. De volta para casa é mais um exemplo desse cenário israelense. Já podemos perceber essa economia narrativa nos primeiros planos do filme, nos quais, o diretor Amikan Kovner nos insere no universo do primeiro personagem que sai da cadeia em uma permissão de três dias de liberdade: em instantes, vimos ele sair da cadeia, tomar um ônibus e ir ao encontro do filho em um treinamento de judô. Até mesmo o ato sexual com a prostituta é seco, inexpressivo e distante. Em pouco tempo, já podemos entender as dificuldades que esse pai tem de retornar à vida fora do cárcere, e os problemas ocasionados por esse retorno.
De volta para casa é um filme de condução sóbria, de uma câmera detalhista e cuidadosa, que procura a expressão, a síntese da imagem. Exatamente pela escolha por uma levada enxuta, sem espaços para uma fragmentação maior da montagem (apesar de bastante narrativo, não existe uma grande manipulação orientada pela edição), os planos acabam se tornando o principal fundamento, por isso uma riqueza centrada nos detalhes e com o tempo de duração dos momentos do filme. Para tanto, a mise en scène é centrada na presença e na ausência, no quanto os personagens e seu posicionamento são importantes dentro dessa articulação. Há uma construção olhar, um estabelecimento de expressões – tanto a da dúvida e da não conciliação com filho, quanto a carregada e presa do pai.
Os artifícios de Kovner estão orientados por esse constrangimento existente - do passado carregado do pai, do presente vergonhoso do filho -, por uma câmera que se mantém um pouco a deriva, que respeita o momento (mesmo invadindo uma privacidade de um relacionamento) e quando tenta se aproximar desses personagens, ela desfoca. A expressão do rosto, em primeiro plano, é captada por uma lente objetiva que não permite uma maior profunidade, como se o mundo se desfocasse, fosse um mero borrão naquele universo particular. São espécies de marcas de um passado que refletem a impossibilidade do presente.
Filmes citados:
Filho (Son, 2007/Daniel Mulloy)
Sister (idem, 2004/Daniel Mulloy)
Papai (Dad, 2006/Daniel Mulloy)
Fawn (idem, 2007/Christoph Rainer)
Ondas (Valuri, 2007/ Adrian Sitaru)
As Férias do Sr Hulot (Les Vacances de Monsieur Hulot, 1953/ Jacques Tati)
De volta para a casa (The Home Leave, 2007/ Amikan Kovner)