SS: Seis Curtas Malaios

 

Com os filmes: Perdido, Sexta-Feira, Mona, Checkpoint, Kamuting, Pagyau

 

Amir Muhammad e o texto ilustrado

Por João Toledo

Daquilo que parecem fragmentos de imagens e recortes do dia-a-dia de um malaio, em suma, pedaços de filme e fotos, Amir consegue extrair ilustrações para pensamentos peculiares sobre sua cultura. Nessa série de 6 curtas, produzida em 2002, Amir ataca, com uma verve cínica e precisa, o estado, a igreja, a polícia, as relações internacionais, a família e qualquer entidade que se coloca diante dele com as incoerências tão comuns a países com regimes autoritários. Esse se posiciona dentro da história, sempre enquanto personagem, sempre pertencente à história que narra, e propõe um estado de suspensão da consciência, observando assim as estranhezas mais comuns de culturas que, de tão impregnadas de si, já não enxergam suas contradições mais patentes.

Por trás de seu humor seco, que busca sempre expor a brutalidade e a violência moral por trás da banalidade de um cotidiano de liberdades restritas, há muito mais que um simples texto flagrante de uma realidade radical, como em grande parte dos documentários. Há, aqui, a criação de uma narrativa simples, banal, uma historinha que já não importa se é extraída de um fato ou se é fantasiada, mas que se configura como um caso pelo qual o personagem passou – dentro dessa perspectiva, assistimos aos relatos de um personagem divertido, como em um diário de viagens, e todo o peso e veemência da crítica política, tratadas na narrativa como algo secundário, tornam-se escárnio suave. A densidade é desmantelada pela forma escrachada com que ele lida com a imagem. Nesse sentido, há algo de extremamente precário na captação e elaboração das imagens – assim como na maneira como elas se concatenam na montagem – que é usado a favor do discurso de escracho. As imagens em constante mudança de tonalidades, efeitos que beiram o ridículo, o uso de excertos sonoros retirados (ao que me parece) de desenhos animados; há algo nesse jogo com a ferramenta mais simplória imaginável que nos aproxima do filme em sua construção quase caseira (se é que não é absolutamente caseira), em seu personagem palpável, na legitimidade do discurso e na imagem real que se apresenta, sem qualquer verniz de apuramento técnico. A precariedade é um discurso trabalhando em favor da nossa empatia àquele universo peculiar que o personagem expõe.

O que une as imagens, esses recortes de cotidiano, de imagens da rua, pessoas e prédios, de cultura e cores, são justamente os textos dos filmes: são eles a liga entre cada uma das imagens que os compõem, ou mesmo da ausência de imagens, do vazio, do negro, do espaço de projeção de pensamentos a partir dos dados expostos. Escondidos por trás da narrativa simples, do desenvolvimento linear, da trajetória de deslocamento (de presença marcante em quase todos os curtas) sem qualquer justificativa, há um texto rico de nuanças que, se está impregnado de ironia, está também cheio de inteligência, de uma busca legítima por compreender e imergir na cultura (sem se deixar levar por ela, claro), de muito bom humor e de uma vontade transformadora inquietante.

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