
om os filmes: Tarabatara, Icarus, Décimo Segundo e Um Ramo
Tarabatara
por Gabriel Martins
Debruçar um olhar pessoal sobre uma realidade social pode, muitas vezes, tornar-se um exercício imageticamente belo, um entretenimento estético que, numa linha do documentário poético recente (Cão Guimarães, Paula Gaitán, dentre outros), busca reverberar na tela o acontecimento da vida. Este olhar pessoal se resume, a partir da valorização de momentos únicos e na reverência a certos preceitos de fotografia (Henry Cartier Bresson é um nome a ser lembrado), a tornar um universo um objeto pulsante. Daí, o mundo passa a ser tratado como uma fonte para abstração do real, sendo “O real” uma matéria de interesse ambígua. Sua caracterização como imagem, ainda que fomente uma necessidade de registro em sua enorme complexidade (e o Brasil sai favorecido em sua amálgama sócio-cultural), torna-se uma limitação ao se deparar com um olhar virtuoso pré-fabricado. É um pouco deste mal que sofre Tarabatara.
Na convivência da equipe em meio a uma família de ciganos, a ferramenta de registro é o elemento essencial para a distância claramente visível entre a realização e o objeto em questão. Neste caso, este mesmo distanciamento, que parece seguir uma pré-disposição ao fetiche em relação ao dispositivo, usa de interpolação entre entrevistas, imagens em super-8 e o registro da espontaneidade - uma busca de beleza já devidamente gasta dentro da articulação proposta. Pensemos um pouco mais sobre este específico registro: a documentação de uma experiência possibilita testemunhar diversos momentos particularmente interessantes - e este documentário está repleto deles. O que de fato transparece na articulação desta proposta é a crença dos realizadores em que muitas vezes a espontaneidade em si, simplesmente mediada por um registro devidamente calculado em sua beleza estética, torna-se imediatamente um bom documentário. Isto se torna uma inverdade a partir do momento em que estamos constituindo um espaço de intervenção claro, ainda que na observação, de uma matéria que não é apenas engraçada, rara, socialmente importante, mas de fato um acontecimento. A própria busca pelo “momento” torna-se, neste filme, um paradoxo do seu próprio eixo.
Falta em Tarabatara uma articulação mais rigorosa, pois o elemento que provoca interesse, a especificidade daquele grupo, já está ali disposta. A opção pelo registro como um fenômeno imaculado, tendo com base o documentário poético, não se sustenta como uma mera afirmação desta base. Portanto, sendo apenas um elemento pós-reverberação de uma linhagem estética ainda em construção, esta proposta de documentário reflete certa ausência criativa, falta de questionamentos e inconstâncias no desenvolvimento da própria forma. O que temos em Tarabatara é um registro de um fenômeno que, ainda que belo e curioso, praticamente não ousa. Se há uma autoria, ela está interposta somente na relação objeto câmera (a diretora também operou a câmera, o que é relevante na estruturação feita), e não num projeto planejado do documentário. A limitação maior é esta, em restringir a experiência subjetiva a um registro insuficiente e metodológico que, aliando o conceito de olhar pessoal à estética pessoal, deixa nas mãos do objeto de pesquisa o papel de tornar o documentário algo realmente interessante.
Icarus
por Mariana Souto
Na apresentação antes da sessão no Festival de Curtas de Belo Horizonte, Victor-Hugo Borges, diretor de Historietas Assombradas (para crianças malcriadas) definiu seu novo curta como uma “fábula para adultos”. Mas apesar de toda a atmosfera sombria, que talvez não coubesse num trabalho dirigido ao público infantil, Icarus é repleto de inocência e ternura. E, de uma forma ou de outra, aponta saídas para o sofrimento e pode ser considerado mais otimista do que a princípio parece.
Icarus, o garotinho, condoído pela morte do pai voa pelos ares junto com ele, em seus sonhos. Só deixa de voar porque cresce e fica pesado – o que talvez possa ser visto como pessimista se pensarmos na perda da capacidade infantil de sublimação pela imaginação e brincadeira, mas razoável, já que se ele não pode mais voar, é também porque pode se sustentar com os próprios pés.
A opção pela fábula - apoiada na mitologia grega - se faz mais concreta com a presença da narração, de Gianfrancesco Guarnieri, que conduz a história como se fosse um conto. O aspecto sombrio traz referências ao expressionismo alemão, com confusão de perspectiva, uso de 2D, tonalidades escuras e assimetrias. Os próprios personagens são assimétricos e possuem traços que lembram recortes, cabeçudos bonecos de pano. A trilha soa gótica e dramatiza ainda mais toda aquela escuridão. Pela mistura entre o lúdico e o macabro, Tim Burton inevitavelmente vem à mente. Contudo, apesar de próximo da estética do pesadelo, Icarus apresenta a possibilidade do sonho.
Décimo Segundo¹
por Ursula Rösele
Décimo Segundo traz novamente a recorrência no passado e presente. Porém, não se sabe o que foi esse passado. O silêncio e os olhares baixos guardam esse segredo. Existem somente alguns resquícios, através da brincadeira não reconhecida imediatamente no interfone, nas malas que vão sozinhas no elevador e na maneira sutil com que o casal brinca-lembra disso.
Ela agora mora no décimo segundo andar, o que torna a brincadeira das malas difícil de ocorrer com freqüência. Esta diferença de localização simboliza o outro lugar ao qual a vida dela se encontra naquele momento. Em relação aos outros filmes da sessão, em Décimo Segundo não há nem sequer um passado que se possa “tocar” ou verbalizar.
O filme foi todo dividido por planos-seqüência, que funcionam ali como um tipo de representação literal de um tempo que ocorre enquanto o filme acontece, conseguindo ainda assim encontrar momentos de angústia por demorar a passar. Existe uma luz estourada quando eles chegam próximos da porta, que vem de dentro do apartamento, de um lugar não enquadrado pela câmera. Há pouca iluminação nos espaços que o casal habita, mais uma vez em diversos momentos sendo enquadrado do lado direito e esquerdo, mas com diferenças de perspectiva que apontam uma quase impossibilidade de serem novamente um casal.
Seus diálogos são interrompidos por silêncios do não-dito, intercalados de conversas que escondem talvez mais melancolia e amargura que saudade, trazendo à memória A chuva nos telhados antigos, de Rafael Conde.
Não há trilha no filme, mas em determinado momento há o uso do som da água em ebulição no fogão, funcionando com esse propósito. A mulher vai buscar uma blusa de frio e demora um tempo que sugere talvez que ela possa estar em algum cômodo se preparando para retornar ao quadro que aquele homem ocupa. A câmera permanece com ele na cozinha, num enquadramento aproximado de seu rosto, enquanto a água que ferve entoa um som que imprime tensão àquele momento.
O filme transcorre num meio-tempo, sem informar o que houve e o que se seguirá no seu seguir. Fecha a seqüência dos quatro primeiros filmes da sessão, já numa impossibilidade praticamente concreta do retorno. A ponto de não se querer deixar vestígios daquela presença masculina. As xícaras do café tomado durante a conversa inexpressiva serão imediatamente lavadas, numa tentativa de manter um presente ao qual aquele homem não mais pertence.
Um Ramo ²
por João Toledo
Embarcando no universo cinematográfico de Marco Dutra e de sua constante colaboradora Juliana Rojas, encontra-se uma imensidão a ser explorada; um espaço de detalhes e minúcias inesgotáveis e de recorrências de forma, estilo, ritmo e tema. É um embarque imperativo, uma quase imposição das circunstâncias, uma injunção urgente de um cinema que merece atenção e avaliação ou mesmo algum tipo de reiteração de seu mérito majestoso.
Em Um Ramo, a incomunicabilidade no núcleo familiar continua sendo central na narrativa, com sua personagem feminina que, na incapacidade de lidar bem com as questões que a acometem, esconde-se cada vez mais em si, como se aceitasse, em estado de depressão oculta, a pena que lhe é aferida. No entanto, ao mesmo tempo em que a personagem esconde seus sentimentos e suas preocupações, suas ações a entregam, como quando ela procura no filho traços do mesmo problema; ela lida com a afetividade com alguma dificuldade, mas não deixa de ser afetiva.
Há nesse filme uma espécie de resposta da natureza (ou da vida) à conturbada relação que o homem estabelece com a própria existência (algo que chamei de manifestação externa em O Lençol Branco). É como se a interiorização das questões não resolvidas quisesse aflorar na pele da mulher na forma de um ramo, chamando a atenção dela para tudo aquilo que ela tenta ignorar. E não apenas brotando dela, mas envolvendo todo o espaço do filme; está presente no pássaro preso no interior do quarto, no peixe que morre e é trocado, mas continua não se alimentando, na reportagem da baleia gigante encalhada em Marrocos. As situações a cercam ao mesmo tempo em que afloram dela.
O fantástico aqui, presente no enredo de maneira fundamental, não explora o fascínio do absurdo, mas naturaliza-o em meio às situações cotidianas, tornando aquilo um mero acaso; o inverossímil tornado verossímil pela mise-en-scène de retalhos íntimos em tom contido. E nesse filme, especificamente, a dupla de realizadores parece chegar à maturidade narrativa, alcançando um apuro na seleção de cenas que, apesar de muito expressivas, nunca ameaçam a sobriedade dada ao momento retratado. Se avaliarmos filme a filme, as famílias retratadas mostram-se cada vez mais longe de uma solução para aquilo que interrompe a rotina trazendo o inesperado para a realidade; estão cada vez mais despreparadas para o absurdo que as surpreende. E não é uma questão de ter respostas para coisas inesperadas e inexplicáveis, mas de buscar solucionar, de buscar apoio no outro, de aceitar o problema e tentar compreendê-lo ao invés de escondê-lo cada vez mais, como já antes parecia fazer com as pequenas complicações.
Quanto mais a mãe ignora os ramos que crescem da sua pele, mais eles se espalham pelo corpo e emergem, tornando cada vez mais difícil a tarefa de escondê-los. Diante da iminente internação na clínica, Clarice inventa uma viagem à sua doméstica de maneira que não precise revelar a verdade. Em seguida volta ao banho. Ali ela se senta e observa seu corpo, aquelas folhas espelhadas pela epiderme. Ela volta seu olhar para a câmera, tornando-nos cúmplices daquele momento – que parece ser definitivo, uma espécie de aceitação, enfim.
As notas finais, esses últimos detalhes de cada um dos três curtas, apesar se soarem sobre a atmosfera de imenso desalento e aflição, dão um ar de esperança aos três; uma espécie de acolhimento da dor e aceitação do inesperado. São pequenos momentos; pontas de uma possível transformação. São instantes decisivos de transformação pessoal (ou coletiva, no caso do primeiro concerto). E essa abordagem mostra que, apesar do invólucro de morbidez, há uma espécie de investigação dos desdobramentos de uma presença indesejada para que dali se encontre formas, talvez não de resolução, mas de superação do medo da morte.
Entretanto, mais interessante que a temática em si, é a resultante direta da maneira como observam essas temáticas: a forma. O traçado particular da dupla, um traçado minucioso, detalhista, que ao mesmo tempo é seco e intimista, que se faz de uma observação delicada e reservada sem nunca interferir no que propõem as personagens, mostra a segurança de ambos na busca pelo retrato que fazem de um certo cotidiano. Os três são filmes que certamente se completam e se potencializam, carregam de um em um a força que envolvia os projetos anteriores – como costuma acontecer com grandes realizadores. Com Um Ramo, além de alcançarem uma certa maturidade de realização, firmam uma posição de destaque no atual panorama da cinematografia nacional, ajudando a compor, com todas as suas particularidades, a miscelânea venerável que é a paisagem do curta-metragem contemporâneo.
Filmes citados:
Tarabatara (idem, 2007/Júlia Zakia)
Icarus (idem, 2007/Victor-Hugo Borges)
Décimo Segundo (idem, 2007/Leonardo Lacca)
Um ramo (idem, 2007/Juliana Rojas e Marco Dutra)
¹ texto extraído da cobertura da 11ª Mostra de Tiradentes
² fragmento extraído da coluna Corte Seco de João Toledo