
Com os filmes: John and Karen, Operador, Orgesticulanismus, Formas, Passos e Robôs, Tocador de Sinos, Dji vou veu volti, Música de Jazz, O Pássaro e Enquadramento
por Leonardo Amaral
A grande questão da animação é plena liberdade temática e de formas possibilitadas por seus recursos técnicos. Característica que, por sua vez, dá a animação a capacidade de explorar muitas orientações, experimentando novos formatos, novas vertentes, sejam temáticas ou estéticas. Mas o que impressiona é como Norman McLaren se mostra atual, como o animador escocês erradicado no Canadá faz escola não só por lá, como também em todo o restante do globo. Outra coisa interessante é como a animação consegue dar conta do humor em suas várias facetas, desde o pastiche até formas mais finas ou cínicas, como o humor negro e o non sense. Dentro do programa de animações da 10º Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte, muito dessa gama de possibilidades é explorada – e bem.
John and Karen
Esta animação inglesa de Matthew Walker vai buscar na simplicidade das distorções de formas o seu mote para falar dos problemas de relação, algo bastante presente na atualidade e tema constante da produção contemporânea de curta duração. A maneira utilizada é bastante clara: John é um enorme urso polar que tem como esposa Karen, uma minúscula pingüim. O próprio tamanho dos personagens já funcionaria como grande limitador do relacionamento, entretanto, o que Walker realmente constrói é um diálogo em que ambos discutem a relação. Karen cobra por mais atenção e John, arrependido, tenta se desculpar. A articulação é bastante eficaz: plano conjunto com cada um dos personagens em sofás diferentes, planos e contraplanos nos diálogos e, ao final, a junção deles em um mesmo sofá. Com o desenvolvimento da narrativa, até chegar a esse fim, a diferença descomunal de tamanho não mais parece tão limitadora assim, o diretor inglês consegue transpor para a palavra e para as atitudes as reais diferenças que ocorrem em qualquer relacionamento.
Operador
Também de Matthew Walker é o curta-metragem Operador. Mais uma vez a utilização do 2D e do humor, dessa vez de forma mais direta, através de um homem, sentado no sofá de casa ao lado de seu gato, que faz uma ligação para Deus, enquanto a chuva cai do lado de fora, podendo ser vista pela janela da sala. Walker trabalha o seu humor ao lidar com a impossibilidade das coisas, e por conseguir abarcar um timing preciso para a sua rápida piada. Operador é uma espécie de quadrinhos de jornal, algo como um Peanuts, sem necessidades de extensões, bastando resolver tudo em dois, três quadros.
Orgesticulanismus
No começo de Orgesticulanismus temos um depoimento de alguém que perdera os movimentos corporais, falando de dificuldades e incutindo uma idéia de retorno a esses mesmo movimentos. Em seguida, pessoas em suas diversas profissões, são apresentadas tais como bonecos cujos movimentos são dados por fios conectados aos seus membros. O diretor belga Mathieu Labaye representa os movimentos como algo mecânico, de pessoas presas e necessitadas de fios, de máquinas. Os movimentos são repetitivos e orientados.
Mas os recursos da animação possibilitam o movimento e não o aprisionamento desses, os fios se rompem para que formas e movimentos ganhem a tela, a dança dos desenhos e as batidas rítmicas ditam o novo padrão. Trabalho de formas, tal como ocorre em Norman McLaren, as curvas são sim bastante caras ao cinema de animação e Labaye as explora de maneira a obter seu organismo vivo e pulsante.
Formas, passos e robôs
Assim como no curta-metragem Orgesticulanismus, em Formas, passos e robôs, os gestos e formatos são fundamentais para o desenho esboçado em tela. Outra vez a referência de Norman McLaren e suas multiformas, cores e movimentos. Assim como fazia o diretor escocês, nessa animação norte-americana de Cathy Karol, essa estética só é possível graças ao trabalho musical, que dita as formas e responde ao movimento, num aparelho de ação/reação. Formas, passos e robôs é um exercício de performance e som.
Tocador de sinos
A animação suíça Tocador de sinos busca humor na ação repetitiva. Um padre toca o sino da igreja, de uma escola saem a professora e as crianças. Uma bola é lançada ao ar, para cair nas mãos de uma das crianças. Novo retorno para a sala de aula. De dentro da igreja saem noivos e convidados de um casamento. O buquê é lançado ao ar e uma das convidadas consegue agarrá-lo, retorno à igreja. Por fim, um cortejo fúnebre, o sepultamento, seguido da volta de todos para dentro da igreja. O diretor Dustin Rees remete o procedimento em planos mais fechados. Mas uma badalada mal dada é capaz de causar todo caos, a rotina é interposta, Rees rompe com a primeira estrutura, altera os movimentos e o humor é ‘físico’, obtido pela ação, ou melhor, por sua desorientação, pelo desarranjo.
Dji vou veu volti
Dji vou veu volti é a tradução de ‘eu te amo’, cantada à sua amada por uma espécie de bardo medieval. Benoit Feroumont constrói um filme que caminha do humor pastiche para falar, ao seu final, de amor, uma espécie de comédia romântica animada, com nuances dramáticas que usam para o seu bem todos os clichês do gênero, acrescentando ainda, como ingrediente, o amor heróico existente nos romances de cavalaria. Essa animação belga consegue lidar bem com todas essas formas sem parecer nem um pouco piegas e sem, principalmente, deixar com que sua estética seja afetada. Mais uma aposta em efeitos, com uma brincadeira metalingüística no mínimo interessante com a legenda (literal) do filme. O final ainda possui um toque shakesperiano, com beijo da princesa em seu fantasma.
Música de jazz
Música de jazz tem, assim como John and Karen, uma discussão acerca do relacionamento, das dicotomias do amor. Porém, o faz por meio de uma levada totalmente diferente, buscando uma maior localização e traduzindo-se através de uma certa melancolia existente no jazz. O diretor espanhol Jorge Gonzalez procura transitar sua estética entre a liberdade e lirismo da rua, do show, da noite, para o confinamento, para o particular. Ele lida com a solidão ao apresentar, em muitos momentos, seus personagens de costas, explorando as formas, seja dos corpos, mais curvilíneas, seja na rigidez das formas mais quadráticas, que dão a atmosfera um contraponto do desejo, uma espécie de aprisionamento particular e intimo.
O Pássaro
A animação iraniana O pássaro possui uma mensagem de destruição total e para conseguir tal coisa, constrói toda uma narrativa que intenciona a chegada a um final pessimista acerca da humanidade. À medida em que uma floresta é destruída, um pássaro é obrigado a sair de seu habitat natural em direção à cidade. O filme de Ali Rasouly mostra a trajetória desse passarinho, através de enquadramentos subjetivos e constrói seus efeitos principalmente por meio dos sons. Ele trabalha com a respiração ofegante da ave, justaposta aos barulhos da floresta e o caos urbano. A medida em que acompanhamos tal caminho, somos guiados por elementos que apresentam uma paisagem em seu processo de deterioração. Ao final, já sedento, o pássaro só encontra água - para saciar sua sede – vinda de um canal de esgoto. No movimento, vários pássaros mortos, símbolos da destruição, a mensagem buscada a todo instante e até certo ponto bastante previsível.
Enquadramento
De todas as animações exibidas na sessão, o curta Enquadrando é aquele que trabalha menos em uma linha narrativa ou performática e mais no caráter experimental. As formas são muito menos referenciais de movimento e muito mais exercícios estéticos. O diretor alemão Bert Gottschalk não usa o compositor austríaco Franz Schubert meramente como ilustrativo, mas principalmente como parte fundamental de sua peça musical audivisual. O Trio nº 2 em mi bemol maior da Ópera 100, com as evocações oriundas de um cello magnânimo carregam o detalhamento do classicismo schubertiano, que, em acordo com as imagens das películas sobrepostas, do exercício milimétrico do enquadrar, da definição primitiva da contemplação cinematográfica. A sutileza dos toques do piano, tocada em uma oitava abaixo, é a tentativa da descoberta da imagem, da leveza do movimento. O filme alemão se torna um exercício denso por tudo aquilo que evoca, e a sutileza está em suas nuances perceptivas de uma janela de uma casa. Uma referência sutil à janela da vida, dos primeiros exercícios de olhar, representados pela película em 8mm.
Filmes citados:
John and Karen (idem, 2007/Matthew Walker)
Orgesticulanismus (idem, 2008/Mathieu Labaye)
Música de jazz (Jazz song, 2007/Jorge Gonzalez)
Tocador de sinos (The bellringer, 2007/Dustin Rees)
Formas, passos e robôs (shapes, steps and robots, 2007/Cathy Karol)
Operador (Operator, 2007/Matthew Walker)
Enquadrando (Bildfenster, 2007/Bert Gottdchalk)
O pássaro (Parandeh, 2007/Ali Rasouly)
Dji vou veu volti (idem, 2007/Benoit Ferroumont)