CB-1: Competitiva Brasileira 1

Com os filmes: Peiote, Carta de um jovem suicida, Casa de Máquinas, Os filmes que não fiz e Amarar

 

 

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Peiote

 

por Ursula Rösele

 

O cineasta Cao Guimarães parece ter um gosto – ou o dom – pela descoberta do acaso. Em Peiote, em pleno México, ele abandona um olhar documental de uma dança típica para enquadrar os dançarinos da cintura para baixo, de onde se pode ver uma criança de cerca de três anos totalmente imersa na cerimônia.

 

Através de um trato interessante com o som (que, com vários efeitos e distorções, constitui um discurso próprio, alheio ao que seria o som direto ou “original” do acontecimento) e a cor, Cao provoca sensações que estão para além do sentimento literal que uma filmagem documental daquele momento causaria. Posiciona sua câmera na altura da criança, observando de maneira muito curiosa a sua entrega sem ao menos perceber o registro do diretor.

 

Seu interesse não é o olhar puramente histórico à manifestação regional daquele povo, mas em uma criança de calça jeans, totalmente familiarizada com um ambiente do qual parece não pertencer, numa entrega cuja pureza da infância é percebida através do olhar cuidadoso de Cao Guimarães para as sutilezas de um mundo que provavelmente jamais seria enquadrado daquela forma.

 

 

Carta de um jovem suicida

 

por Mariana Souto

 

Filmando inteiramente em plano-seqüência, Marcelo Ikeda parece ter encontrado em Carta de um jovem suicida uma possibilidade de exercício cinematográfico, mas sem perder de vista seu ponto essencial, a dor da mãe que se transforma – e transforma a casa – a partir da perda do filho.

 

No curta, transparece a sensibilidade de Ikeda diante do tema, sua vontade de filmar de perto e pacientemente um momento difícil na vida de uma pessoa. Nesse sentido, o plano-seqüência cumpre uma função de mínima intervenção para propiciar o registro da emoção da forma mais natural possível, sem cortes, sem edição. A câmera aguarda a personagem lendo a carta no seu tempo, esperando a virada da página, um suspiro, a contração do corpo. A escrita da carta é prosaica e às vezes parece que falta ao rapaz um motivo que justifique, de fato, sua ação. Mas o motivo é a própria falta de sentido, a mediocridade que vê a sua volta e que se apodera de si mesmo. Mais importante do que a carta é o impacto dela na mãe, o que justifica o fato de assistirmos a ela e suas sutis reações por tanto tempo, ininterruptamente. Não por acaso ouvimos a voz da mãe ao ler o texto, e não a do próprio garoto, autor daquelas linhas.

 

Contudo, ao mesmo tempo em que o plano-seqüência joga todas as atenções à mulher, acompanhando-a calmamente, chama também atenção para si mesmo, o plano-seqüência. Ikeda utiliza alguns truques recorrentes quando se opta por este recurso, como a mudança de cenografia e de luz em um local temporariamente fora da amplitude de visão das lentes. Exemplo recente de tal procedimento é Ainda Orangotangos, de Gustavo Spolidoro, onde, o que está em foco parece ser, antes de tudo,  a magia do cinema e suas mirabolâncias. É inevitável, durante o filme, imaginar a equipe correndo loucamente para transformar o cenário enquanto a ação se desenrola a alguns metros dali, o que talvez distraia o espectador do suposto resultado pensado quando se escolhe filmar em plano-seqüência – a não-intervenção, o realismo e a imersão em determinado contexto.

 

Mas Marcelo Ikeda passeia entre o realismo e o intervencionismo, entre a devoção a seu objeto – a mulher – e a devoção ao dispositivo. A condensação do tempo entre as paredes da casa, que é um elemento de sua participação dentro do filme que muitas vezes parece dominado pela mãe, isola aquela atmosfera do mundo. Começamos pela maçaneta, entramos no universo do filme, fechamos as cortinas e estamos lá, no mundo mental da mulher ao lidar com a perda, com a falta que tanto preenche o espaço. E terminamos novamente com a mesma maçaneta, que nos joga para fora desse mesmo mundo, do qual não há mais nada para se ver.

 

Casa de Máquinas

 

por Rafael Ciccarini

 

Casa de Máquinas é uma animação que traz consigo uma espécie de encantamento com o próprio dispositivo – como se o próprio fazer do filme constituísse, para além do desafio técnico (mas bastante em função dele) seu discurso, sua razão de ser.  Na tela, vemos diversas engrenagens de uma “máquina”: o funcionamento de uma delas dispara o funcionamento da seguinte, num moto-contínuo nem sempre linear: há constante movimento, processo, ação que, a princípio, não parece ter sentido determinado.

 

Impossível não pensar num comentário sobre a mecanização do mundo e das coisas, mas aqui a visão não parece ser amargurada ou apenas crítica; ao contrário, há um certo fascínio por essa lógica: é a animação como comentário lúdico (e algo ingênuo, ressalte-se) sobre as idéias de técnica e progresso.  Nesse sentido, como dito, as escolhas técnicas e o processo de realização são centrais: todo o cenário do filme é construído, as engrenagens ‘verdadeiras’ e feitas de madeira (que dá um tom artesanal, humano, importante como contraste à idéia impessoal de processo).

 

Ao fim, a engrenagem mostra ter como fim fazer dançar uma bailarina, num desfecho coerente com o tom de encantamento que perpassa a integral duração do filme: toda a complexa engrenagem, toda essa sincronia caótica serve, ao fim, ao singelo e o lúdico, numa singela conciliação final que, se questionável em função de certa ingenuidade na crença no dispositivo que a engendra, ganha força pelo vigor e verdade com que o filme se articula e se mostra na tela.

 

Os filmes que não fiz

 

por Mariana Souto

 

A partir de poucos filmes, já é possível perceber um estilo recorrente dos realizadores ligados à produtora Camisa Listrada e, agora, à Abuzza Filmes. Alguns traços unem nomes diferentes e, apesar das singularidades, vemos a marca do grupo.

 

Os filmes que não fiz parte de uma premissa interessante, que usa de forma criativa as próprias frustrações misturadas com as paixões e anseios de uma classe artística, fazendo uma metalinguagem autocrítica e perspicaz. Há dentro do filme vários gêneros em um, como a opção pelo formato de falso documentário para a narração do protagonista, misturado com episódios de sátiras a romances, dramas sobrenaturais, mas com o tom predominante de comédia. Nas atuações, sobretudo do frustrado diretor, interpretado pelo próprio Gilberto Scarpa, e do Zelvis, um jeito canastrão cativante. O filme, de alto padrão técnico, com fotografia e arte muito bem cuidadas, tem forte apelo popular e agrada o público, mas engancha em algumas piadas fracas e momentos de diálogo pouco inspirados.

 

Em comum com 5 frações de uma quase história, há um toque modernoso e dinâmico, que quase esbarra numa pretensão de esperteza. Contudo, o ritmo episódico e as transições rápidas aqui cabem melhor ao tom cômico de Os filmes que não fiz do que ao longa citado. O filme de Scarpa chega a ter características de prólogo, colagem, o que faz sentido quando se pensa que provavelmente há nele, de fato, fragmentos de idéias que surgiram em tempos diferentes, em contextos diversos. Sendo assim, o curta parece uma amarração de cacos e pérolas de arquivo, com embalagem vibrante e cores que saltam aos olhos – e desviam o olhar de algumas fraquezas.

 

Amarar

 

por Mariana Souto

 

O início de Amarar parece contar uma história através de uma animação de quadros estáticos, com desenhos que se movimentam apenas pelo deslocamento da câmera. Essa estética se relaciona com a usada durante todo o filme, dessa vez em live action. No curta, Emanuel Mendes faz uso de muitos enquadramentos em que pouco acontece, apenas se visualiza uma ação sutil (ou um olhar, uma aproximação), com personagem e ambiente bem posicionados. Assim como na animação, a história se forma pela montagem, pela sucessão dos quadros parados, tendo como um elemento de ligação o espelho. Não há linearidade narrativa ou qualquer tipo de explicação – nem mesmo diálogo -, mas algumas dicas a partir de repetições e rimas visuais, que podem provocar associações e leituras diversas.

 

A figura feminina diante do espelho, em diferentes idades, sugere uma aproximação entre as personagens, que podem ser facetas, estilhaços de uma só. A garotinha desengonçada se vê como uma princesa em trajes esvoaçantes, numa praia de amarelo quente. Mas nessa suposta visão ideal há também rupturas, o espelho que se quebra, a lembrança traumática que invade. Mesmo o local isolado tem comunicação de mão dupla e influencia suas outras nuances. Mais tarde, uma senhora na mesma posição (mãe da primeira atriz, o que revela algo), diante de seu reflexo, dessa vez de vestido negro.

 

Amarar é enigmático, curta poético, de alma feminina. Mas de tão misterioso, comunica mais beleza estética do que emocional, ainda que sua trilha forte denuncie que seu objetivo era também pegar pela emoção; às vezes as notas graves são sentidas como desproporcionais, já que o que se vê na tela inspira e enche os olhos, ainda que não comova – considerando que esta era mesmo a intenção.

 

Filmes citados:

5 frações de uma quase história (idem, 2007/ Armando Mendz, Cristiano Abud, Cris Azzi, Guilherme Fiúza, Lucas Gontijo e Thales Bahia)

Amarar (idem, 2008/ Emanuel Mendes)

Carta de um jovem suicida (idem, 2008/ Marcelo Ikeda)

Casa de Máquinas (idem, 2008/ Maria Leite e Daniel Herthel)

Os filmes que não fiz (idem, 2008/ Gilberto Scarpa)

Peiote (idem, 2007/Cao Guimarães)

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