
Com os filmes: Como todo mundo, Rosto de Anjo, Paraíso e Sem Amanhã 
Como Todo Mundo
por Ursula Rösele
O curta Como todo mundo parece dividir-se em dois formatos de abordagem, que vão do adolescente dotado de todos os clichês e características próprias da idade à sua mãe, amargurada com os caminhos desiludidos de sua vida e uma necessidade angustiante de manter-se de pé para seguir em frente e sustentar casa e filho. A câmera de Franco Lolli parece a responsável pela construção desses dois universos díspares, na imensidão adolescente pautada por câmera na mão e uma fotografia que não se preocupa com os estouros provocados pela luz do sol e toda catarse iminente que caracteriza esta fase da vida; e a câmera no tripé, os enquadramentos mais “ortodoxos”, que acompanham de perto o olhar da mãe, que parece procurar um aconchego que nunca vem.
Toda sutileza do filme se dá no extremo respeito pelas duas fases retratadas ali. Toda profusão sexual, toda pulsão de vida que emana do rapaz, está muito bem representada por um registro que se permite imergir nos espaços como se fizesse parte dele e aderisse toda energia dos adolescentes exercendo nada mais que seus papéis de adolescentes. A descoberta do desejo, a contradição de sentimentos, o enfrentamento ao mais velho, expira de cada movimento de câmera. Quando vai do filho para a mãe, o diretor parece alternar seu foco. Cede ao furor jovem para a melancolia de um olhar que provavelmente guarda muito tempo e muitas outras catarses.
Como todo mundo é um filme que passeia por terrenos aparentemente seguros da narrativa clássica, mantendo um vigor próprio de quem ou acompanha ou vivencia as contradições dos jovens contemporâneos. Optando por um tipo de “secura” em sua abordagem, o filme é muito feliz ao narrar sem excessos os inúmeros vazios da solidão de descobrir-se diariamente num mundo sem tréguas.
Rosto de Anjo
por Ursula Rösele
A maneira encontrada para retratar a memória em Rosto de Anjo é um mergulho estético através de texturas, pulsação, respiração e sons que surgem do silêncio das reflexões solitárias. A primeira seqüência do filme apresenta imagens aparentemente distorcidas no escuro da fotografia da cena, que aos poucos se vão desvendando como partes de um corpo enrugado, com diversos sintomas da idade avançada, que transpira, respira, pulsa.
De repente vemos um homem inerte, deitado em uma cama (de hospital? Prisão? Manicômio?), naquele que parece ser seu último sopro de vida. Com seu levantar e a frase “eu não estou morto”, somos conduzidos aos poucos à memória daquela pessoa, que - entre quadro paredes de um quarto que parece aprisioná-lo do mundo que anseia reviver – rememora um tempo que ao longo da projeção descobrimos que era seu histórico de pugilista.
O filme tem um ritmo interessante, que vai do profundo subjetivo do personagem à externalização de um tempo que racionalmente não pode mais voltar, mas que o cinema é capaz de transportar sempre que deseja. Assim, Rosto de Anjo estabelece uma bonita relação com o tempo e a melancolia daquele personagem, ao retirá-lo da condição moribunda para seguir com ele rumo a lugares que somente sua memória é capaz de resgatar.
Paraíso
por Leonardo Amaral
O curta-metragem Paraíso é uma animação que faz uso do próprio dispositivo e aparato técnico para construir-se como temática e estética. O filme de Jesse Rosensweet procura refletir sobre a padronização social, acerca do cotidiano capitalista, como também o American Way of Life e suas pseudo-formas de sucesso e empreendimento, escondidas por trás de uma espécie de conformidade. Entretanto, o filme não se pretende como apenas uma crítica contundente, ao contrário, procura a reflexão, analisa os reflexos e fala sobretudo de relacionamento, solidão e conceitos sociais.
No início do curta, vemos uma espécie de caixa-preta de funcionamento social, na qual um disco é colocado em uma vitrola enquanto uma mola-mestra faz girar o cotidiano de uma cidade. John levanta-se, é servido pela esposa, toma seu breakfast, lê as notícias do jornal e se encaminha, de carro, até o trabalho. Em sua empresa, é informado pelo chefe acerca de uma futura promoção e faz serviço extra para o amigo Mitch. Casa, esposa, trabalho, sucesso, perfeita harmonia. Jane acorda, prepara o café da manhã do marido, tenta falar com ele, mas é impedida pelas notícias dos jornais. Solidão.
O recurso utilizado por Rosensweet é bastante simples: para demonstrar toda a artificialidade das situações cotidianas, os personagens são bonecos, tudo é guiado por um sistema mecânico e a maioria das coisas a que ocorre é repetitiva. O diretor lida com a repetição e uma narração empolgada para construir e, posteriormente, desconstruir seus conceitos de cotidiano perfeito.
Dentro de todo o mecanicismo empenhado, de toda a rotinização interminável, o componente humano se faz presente e ele é suficiente para desarticular todo o sistema. O rompimento de Jane com John é capaz de afetar totalmente o cotidiano. Na manhã do abandono a completa solidão e a ausência demonstrada fisicamente: durante o café da manhã, apenas os pinos e engrenagens são mostradas. A explicitação da máquina é o símbolo do destronamento de uma vida artificial repleta de mesmices. A ausência se reflete na perda da promoção no trabalho, o insucesso agora se faz presente, e até mesmo uma tentativa de se fugir das engrenagens do sistema (inclusive de maneira literal, com a batida do carro de John no muro do vizinho) se torna frustrada.
Porém, a ida de John para o trabalho no final, uma espécie de conformismo instaurado e a troca do disco e o novo funcionamento do aparato por trás da vida em Paraíso ainda dão a dimensão da artificialidade presente no cotidiano, de uma vida em repetição, como já demonstrada em outros filmes como Meu tio de Jacques Tati e Tempos Modernos, de Charles Chaplin. Por mais que a dinâmica cotidiana seja por vezes alterada, os elementos de engrenagem ainda se apresentam fortemente amarrados.
Sem Amanhã
por Ursula Rösele
Nessa linha de filmes que retratam um determinado momento sem situar-nos através dos contextos anteriores e posteriores a ele, Sem Amanhã retrata de maneira bela e contundente o pós-sexo de um casal que não se sabe se já fora íntimo, se é fruto de uma noite apenas ou qualquer outra possibilidade do tipo.
Após acompanhar o êxtase da mulher, no orgasmo que finalizaria sua junção com o homem do qual somente ouvimos a voz e vemos pequenas partes de seu corpo, a câmera passa a acompanhar as sensações dessa mulher num primeiro momento semelhante ao primeiro close de Bergman em Gritos e Sussurros. Ficamos ali a observar seu silêncio, que vai do gozo para uma tristeza imensa, em angustiantes minutos de silêncio nos quais somente temos acesso ao seu olhar perdido e aos barulhos do homem que, sem qualquer cerimônia, sai da cama, a deixando consigo própria, com aquilo que restou de um momento antes compartilhado.
É curiosa a escolha por manter-se focado o tempo todo na mulher, sem fazer um contra-plano sequer nos momentos em que ela olha para o homem e eles dialogam brevemente. A ausência desse diálogo da câmera com ambos os personagens nos coloca numa posição bem semelhante à da mulher, que provavelmente o olha pela última vez - e nem a isso temos direito. Também estamos a nos despedirmos de algo que nem sequer sabemos o que vem a ser, de alguém que não conhecemos e que não iremos conhecer.
O filme possui um desfecho não tão abrupto como o primeiro filme da sessão, Como todo mundo, mas tão angustiante quanto. A suspensão de explicações em torno daquele contexto abre a possibilidade de inúmeras leituras que, certamente, podem dar ao filme a capacidade de provocar diferentes sensações a cada revisita.
Filmes Citados:
Como todo mundo (Como todo el mundo, 2007/Franco Lolli)
Rosto de Anjo (Faccia d’angelo, 2007/Elsa Amiel)
Sem Amanhã (Sans lendemain, 2007Valérie Lienardy)
Paraíso (Paradise, 2007/Jesse Rosensweet)
Meu tio (Mon oncle, 1958/Jacques Tati)
Tempos Modernos (Modern Times, 1936/Charles Chaplin)