
Com os filmes: 13 anos, Boa noite, Aula Particular e Porque um homem é humano
por Leonardo Amaral
A sessão Primeiro Olhar remete a uma espécie de cisão de um primeiro olhar cinéfilo com as primeiras tentativas de se encarar a vida. Explico: são filmes que buscam lidar com a linguagem de uma maneira que ao mesmo tempo se apresenta apurada e fluída, abordando, em suas temáticas, as primeiras experiências da transição criança/adulto. Quatro dos cinco filmes abordam, de alguma forma, isso (somente Tocador de sinos foge um pouco, sendo, portando, analisado junto às animações).
Boa Noite
Boa Noite, de Mehmet Can Koçak, dentre os quatro curtas-metragens analisados, talvez seja aquele no qual a infância esteja mais fortemente representada. O diretor turco aborda o medo noturno que a maioria das crianças apresenta. A aposta se dá em um plano-seqüência que acompanha os últimos instantes de um menino antes de ele dormir. Ele se despede dos pais, e sobe as escadas. Para criar a tensão, Koçak recorre a elementos caros ao suspense, como o uso de câmera subjetiva e intensidade da trilha sonora. Para alcançar o momento clímax, o diretor aposta na distorção da imagem do irmão do menino, que sai por uma porta de frente à escada. Assim como a criança, o espectador é tomado pelo susto. Boa noite é simples e direto, sem grandes pretensões, apenas faz uso (e de maneira correta) dos recursos cinematográficos certos para a causalidade de climas, saindo-se bem em seus objetivos.
13 anos
13 anos, curta-metragem francês de Rudi Rosenberg, busca lidar com a descoberta, com a sexualidade pueril. Já no início do filme, Jonatham, um garoto de 13 anos de idade, pede para que sua irmã ligue para Julie, a menina pela qual ele se encontra apaixonado. O prólogo apresenta o drama adolescente do menino, que, pouco depois, por meio de uma narração em off, é compartilhado com o espectador. A todo instante a câmera procura o olhar do garoto, buscando como contraplano, logicamente, sua musa juvenil.
O ponto de junção entre Jonathan e Julie é o irmão da garota, Charlie, menino com sérios problemas de relacionamento, excluído e provocado pelos colegas de escola. Charlie possui um ar misterioso e uma feição incomodada e triste. Rosenberg trabalha em uma narrativa simples e eficaz, apresentando primeiro os sentimentos de Jonathan, para, posteriormente, por meio de uma festa de Julie e Charlie, fazer com que o menino apaixonado tenha acesso a um diário no qual seu nome é circundado por um coração. Ciente da reciprocidade amorosa, Jonathan ganha confiança suficiente para ir ao encontro da amada. O diretor francês faz toda uma preparação para o momento sublime. Por meio de uma montagem de planos e contraplanos, mostra a timidez do garoto quando de frente para Julie, para, em seguida, uni-los por meio de brincadeiras, mostrando, novamente, que eles ainda são crianças, apesar das descobertas. Aliás, essas descobertas estão em consonância a uma câmera que se aproxima aos poucos, que, delicadamente, adentra cada um dos universos dos personagens.
Mas ainda faltava embrenhar pelo universo até então mais fechado, o de Charlie, o garoto ruivo envolto em seus anseios e descobertas pessoais e sexuais. O diário encontrado por Jonathan não pertencia a Julie, mas sim ao irmão. E a sutileza de Rosenberg está em jogar com a profundidade de campo e com uma montagem simples. Em primeiro plano, Charlie, jogando vídeo-game, sem graça e em dúvida em relação aos seus primeiros sentimentos. Atrás, Jonathan, estático e desiludido. O corte para o rosto de Charlie é ao mesmo reflexo da dúvida do segundo corte, agora para Jonathan. Desconstrução e construção amorosas, a desilusão e as primeiras descobertas da perda, retratos dos olhares fugitivos, de ambos os garotos.
Aula Particular
O título de Aula Particular – como também em seu original Leçon Particulière – carrega em si toda a ambigüidade que percorrerá por todo o filme. Em seu começo, temos Cyril, jovem de 16 anos, lendo um poema de amor para Eva, moça mais velha que ele. Não demora muito para que o espectador perceba que se trata de uma aula acerca do texto do escritor francês Victor Hugo.
O poema apresenta uma mulher mais velha que caminha por um parque junto a um homem mais novo, por quem ela está apaixonada. Ele é frio e distante, ela sentimental e presa a padrões sociais. No curta-metragem de Raphaël Chevènement, a metalinguagem apresenta-se de maneira bem mais sutil e é construída pelos enquadramentos e montagem. Cyril lê o poema, que é interpretado por Eva, que, a cada explicação dá pistas que não envolvem simplesmente a compreensão do texto de Hugo. Em tese, em sua formalidade, Chevènement filma todo um jogo de sensualidade. E para estabelecer todo o clima, ele recorre ao elemento mais simples e direto do cinema: o enquadramento, aliada a reação às palavras. Enquanto determinado personagem fala, o diretor francês coloca a câmera em sua nuca, não vemos sua expressão, mas podemos ver diretamente a reação do outro. E é nessa condução da narrativa que ele consegue criar expectativas, transições de sentimentos, dando as palavras de Hugo e dos personagens, novas dimensões e intenções. Muito da construção desse clima também está ligada a encenação, de como os atores conseguem fazer com que o filme pulse.
Cécile Drucrocq, que interpreta Eva, é de uma intensidade, de uma sensualidade e sensibilidade marcantes, sua transmissão de olhares estabelece um jogo sensual não só com Cyril mas também com o espectador. E Chevènement sabe como fechar bem todo o seu ‘conto’ de amor, ao mostrar que, apesar do cinema, dos artefatos do amor, da literatura, do romantismo, ele não deixa de falar da vida, e essa não é fácil, ela feita por intermitências, pela espera, o que torna Aula Particular um filme calorosamente humano.
Porque um homem é humano
“Causa e efeito estão (...) rodeados por grupos de sentimentos e de pensamentos diferentes; enquanto que, involuntariamente, se pressupõe que réu e queixoso pensam e sentem da mesma maneira e, em conformidade com esse pressuposto, se mede a culpa de um pelo sofrimento do outro.”
Em Humano, demasiado humano, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche,em especial nesse fragmento, procura discutir a questão humana, apresentando, em certo panorama, o homem em seu estado mais particular. O conceito nietzschiano funciona como introdutório para discussões sociais existentes em Porque um homem é humano. O filme apresenta várias crianças em uma colônia de férias de uma acampamento socialista. Lá, meninos e meninas necessitam aprender a compartilhar e decidir as coisas por meio de uma espécie de parlamento instituído. Em princípio, o diretor Stephan Hilpert procura estabelecer a dinâmica de funcionamento do local, apresentando regras e personagens, até chegar no garoto Nils.
Nils é problemático, com problemas de convivência, seja por sua intransigência por vezes demonstrada, ou mesmo por tudo aquilo que ele pode afetar. Dentro do curta-metragem, Hilpert faz uma transição do global para o particular, e esse movimento intrusivo é que vem a dar o caráter mais forte existente no filme. A medida em que o curta se desenvolve, vemos as questões humanas se aflorarem na tela, tendo como protagonista e principal agente e afetado o menino Nils.
Da perda do controle às provocações dos colegas de acampamento, Hilpert nos lança três questões: o isolamento, a desilusão e a solidão. A câmera, firme, impessoal e cúmplice da diegese acompanha todo o drama vivido por Nils, sem tomar partidos, apenas mostrando o que ocorre. Nils sofre e agride, mostrando as capacidades e fraquezas humanas e o quanto o homem está totalmente vinculado a sua condição humana. E o filme de Stephan Hilpert se mostra intenso ao lidar exatamente com esses limites humanos, principalmente ao apresentar crianças que tão cedo já são inseridas em vivências e situações adultas. O público acompanha todo esse desenvolvimento através da câmera quase onipresente e observativa do filme.
Filmes citados:
13 anos (13 ans, 2007/Rudi Rosenberg)
Boa noite (iyi Geceler, 2007/Mehmet Can Koçak)
Aula Particular (Leçon Particulière, 2008/Raphaël Chevènement)
Porque um homem é humano (Weil Der Mensch Ein Mensch Ist, 2007/Stephan Hilpert)
Livro citado:
Humano, demasiado humano (Friedrich Nietzsche)