Vídeos - Série 3: O olhar da rua

Jardim Invisível

por João Toledo

 

“Há três hipóteses a respeito dos habitantes de Bauci: que odeiam a terra; que a respeitam a ponto de evitar qualquer contato; que a amam da forma que era antes de existirem e com binóculos e telescópios apontados para baixo não se cansam de examiná-la, folha por folha, pedra por pedra, formiga por formiga, contemplando fascinados a própria ausência.”

Cidades Invisíveis (Ítalo Calvino)

 

 

Na paisagem negra à frente, surgem luzes ao fundo que aos poucos se aproximam de nós. Um suporte metálico sustenta esses holofotes que vêm chegando, pairando como uma nave espacial num ambiente soturno.  Em seguida, a câmera passeia por galhos torcidos e sobrepostos uns aos outros, iluminados por postes da cidade – parecem veias pulsando na noite vazia. Todas as luzes iluminam árvores, galhos, folhas e nada mais. Ouvimos os ruídos da noite, mas não há ninguém por perto.

Sob a luz do excerto do livro Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino, as imagens do filme ganham novos sentidos. As árvores iluminadas por uma luz crua e a noite de ninguém é observada de longe pelo telescópio digital de Bellini, as imagens banais do dia-a-dia são extraídas de seu prosaísmo e esquecimento para serem admirados formalmente, vislumbrados de maneira a perceber as imagens que existem no além do óbvio.

A noite vai se esvaindo e o dia clareando. A imagem do vulto humano visto por trás de uma grade regando o chão se torna cada vez mais visível. Vemos a água espalhando no ar; no chão não há flores ou plantas. À volta, apenas as árvores em seu contexto arquitetado e humanamente nulo; não importa a ausência do signo óbvio, a poesia da imagem é o bastante, ainda que a realidade por trás da imagem seja melancólica em sua frieza e vazio.

Urbanographia Digitalizada de Baixa Resolução – Versão Beta

por João Toledo

Diogo Marques faz uma colagem de imagens recortadas da cidade que pululam os signos urbanos da mesma maneira saturada e indigerível que, na própria cidade, impõe-se essa amálgama a seus habitantes. Sua montagem condiz em absoluto com seu objeto de estudo; mas não se trata aqui de uma tentativa de compreender as intervenções urbanas feitas por jovens artistas em busca de desconstruir os valores institucionalizados da arte, mas de um discurso em prol dessa expressão urbana iconoclasta urgente.

Isso fica patente no momento em que se constrói uma montagem paralela entre uma pesquisadora que defende a expressão dos interventores urbanos e um homem qualquer que constrói um discurso tosco e moralizante sobre aqueles jovens. A montagem desnecessária não constrói contraponto algum; apenas ridiculariza o homem que claramente escolhe não absorver essa expressão. Ao final, porém, o discurso caminha no sentido de constatar a seletividade pessoal de cada habitante da cidade, que escolhe ver e digerir o que melhor lhe convém. Essa perspectiva da escolha abranda o discurso do filme e nos entrega a questão para que cada um construa sua própria visualidade urbana.

 

Praia de Botafogo

por João Toledo

A imagem em super8, precária em sua contingência de texturas – coisa que em Ouro Preto remete inevitavelmente ao registro cinematográfico histórico – carrega o filme para um certo ponto de origem da representação da realidade através do cinema. A paisagem carioca em preto e branco da tom de nostalgia. A canoa simplória na qual o personagem entra para se afastar da margem também emana do passado; já distante da praia, o personagem observa a cidade ao longe. O registro fora do tempo se afasta do presente para tentar enxergá-lo, compreendê-lo. Mas a atualidade engole o passado quando o personagem tira o celular do bolso a faz um registro fotográfico da paisagem contemporânea. A relação intertextual atualiza a contemplação da cidade e chega à margem do presente ao fotografar essa realidade atual: sempre mediada por imagens, só compreendida quando apreendida, registrada. A memória se tornou imagem, a relação com o mundo é menos sensória e pessoal e mais registro objetivo. Não mais observamos a cidade para entendê-la; observamos a imagem, e o aparato técnico se tornou uma extensão do ser, de seu olhar para o espaço. O filme é rico em sua discussão da forma como o mundo é observado, de onde, de quando, de como, e ocupa um espaço raro no plano da reflexão sobre essa observação.

Cruzamento

por João Toledo

Resultado de uma oficina ministrada por Ivo Lopes Araújo, diretor de Sábado à Noite, fotógrafo de O Grão e prolífico realizador, o curta traz muito da essência do trabalho Ivo e desse novo núcleo de criação no ceará; a clausura, a simplicidade, a primazia da imagem em detrimento da palavra, o tempo dilatado do plano que acumula o peso da realidade em cena, o limite tênue entre ficcional e documental... E, no entanto, mais do que procurar similaridades, há de se procurar o fôlego particular de cada objeto de expressão. No caso do filme em questão, muito além de um bonito e interessante resultado de um curso de cinema, com proposta estética que cria interesse por si só, ele parece carregar sua poética do trivial de uma complexidade humana sem par nas atuais produções que acreditam que para ser radical é preciso ser experimental. Captado em digital, inteiro passado dentro de um carro, o filme usa a seu favor a limitação da captação e apaga a cidade com a luz forte que estoura a fotografia. O que interessa ali são menos os espaços externos e mais os internos, humanos.

O motorista estabelece uma relação com o limpador de pára-brisas, quase como um respiro no sufoco impessoal do trânsito, um carinho, ainda que pautado pela troca de valor monetário. Acidentalmente ou não, ele retorna ao local, mas dessa vez não possui dinheiro para pagá-lo. Não sabendo lidar bem com a incompletude da troca, como se houvesse rompido o laço de uma quase-relação humana, o rapaz parece compelido a retornar em busca do limpador. Ele busca inquieto e cada vez mais angustiado, mas, na ausência do encontro, acaricia seu remorso na solidão de uma garagem, com o limpador de pára-brisas ligado.

 

 

De Passagem

por João Toledo

 

Feito para um festival cuja temática era “do centro, para o centro”, o filme parece levar ao pé da letra essa proposta ao se constrói no centro da cidade com personagens que, de alguma forma, retribuem dedicando uma ação transformadora ao espaço que compartilham. É quase um filme institucional no sentido de querer discursar sobre os direitos e deveres do cidadão que desfruta e que poderia facilmente contribuir para o espaço público. Sua estrutura cíclica (um plano seqüência que retorna ao começo) remete à possível continuidade que aquelas ações trariam, se renovando a cada ação responsável, assim como o duplo espelhado das ações parece remeter à multiplicação que cada ato de cidadania teria no mundo imaginado para o concurso. O filme, nessa esfera de criação direcionada, é menos a organização de uma visão de mundo e mais um discurso adequado a um tema que limita a expressividade artística a uma banalidade politicamente correta. O filme é menos um filme e mais um sintoma desse tempo de temáticas se impondo às formas, uma época de editais que valorizam a visão institucionalizada do país, uma época em que festivais institucionalizam a experimentação audiovisual: liberdade é contradição.

O paradoxo da espera do ônibus*

 
por Gabriel Martins


O vídeo de Christian Caselli faz parte de um projeto maior do que o seu formato de vídeo com início e fim: é formatado para uma exibição contínua em instalações e etc. Esta mesma origem revela uma virtude do projeto como uma peça de instalação, de repetição e continuidade. Entretanto, como um vídeo solo, não consegue atingir os mesmos efeitos. Trata-se de uma pílula bem desenhada e bem humorada, mas que não vê tempo para ser desenvolvida isoladamente. A própria exibição repetitiva enfatiza a espera do ônibus como uma discussão sobre a relatividade do tempo e do momento, quando a cidade parece parada, estática como as próprias figuras inanimadas do filme. Um momento interessante, porém fechado em sua curta estrutura com um vídeo.

 

Favela 20x30

por João Toledo

Depois da frenética câmera subjetiva em plano-seqüência que rodou os festivais do Brasil com o título de Sete Minutos, um de seus realizadores, Julio Pecly, retorna com este Favela 20x30, propondo um novo olhar para o espaço que abrigava a ficção anterior. Diametralmente oposto, o novo curta se pauta pela contemplação, pelo recorte do espaço (ausente de movimentos de câmera), pelo tempo de observar, pelo que a luz do dia oferece de belo e feio, de ameno e amargo naquele lugar. Como o próprio título insinua, estamos aqui diante de retratos (em movimento) de uma favela – O filme, em sua evidente simplicidade, não parece ter ambição maior do que simplesmente concatenar retratos de uma realidade x. O filme é um álbum de retratos da favela da mesma forma que poderia ser um álbum de família; acrítico, casual, banal. A escolha dos pontos de vista não se desloca da esfera do medíocre, ela se assenta, permanece passiva, resignada. A inércia ali é metáfora da indiferença que sentimos diante do filme. Despretensão esconde o vazio crítico. Se extrai da realidade, se expõe e mais nada.

 

Filmes citados:

Jardim Invisível (Idem, 2008/Roberto Bellini)

Urbanographia Digitalizada de Baixa Resolução – Versão Beta (Idem, 2007/Diogo Marques)

Praia de Botafogo (Idem, 2008/Flora Dias)

Cruzamento (Idem, 2007/Pedro Diógenes, Guto Parente)

De Passagem (Idem, 2007/Mari Alves Pinto)

O paradoxo da espera do ônibus (idem, 2007/ Christian Caselli)

Favela 20x30 (Idem, 2008/Julio Pecly)

Sete Minutos (Idem, 2007/Cavi Borges, Julio Pecly, Paulo Silva)

Sábado à Noite (Idem, 2008/Ivo Lopes Araújo)

O Grão (Idem, 2007/Petrus Cariry)

Livros citados:

CALVINO, Ítalo. As Cidades Invisíveis. São Paulo: Companhia das Letras, 2000

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