
Curtas Série 2 – Delicadezas
Esconde-esconde*
por Mariana Souto
Através de câmeras de vigilância, acompanhamos Amaro entrando em seu prédio e logo mais em seu apartamento, imergindo assim em seu mundo particular. A câmera principal de Esconde-esconde vê o mundo a partir da percepção deste senhor de idade, enquanto a de segurança revela a realidade através de um olhar externo.
Em um preto e branco melancólico, o curta retrata Amaro e sua esposa às voltas com a morte do filme. O roteiro crescente, de revelação ao final, torna a experiência de assistir ao filme cada vez mais triste e evocadora de compaixão. A reviravolta se percebe através da câmera de vigilância pelo olhar do porteiro do edifício – elo entre o real, externo e ao ar aberto e a consciência de Amaro, interna em sua residência. O esconde-esconde pode ser tanto a brincadeira de mãe com o filho como a relação de interior/exterior, ocultar/revelar presente em vários níveis do filme. A esquizofrenia, antes atribuída a outra pessoa, volta-se para o personagem principal, num movimento de introspecção da loucura, de percepção de quebra de um mundo que se acreditava concreto. Rompe-se, assim, a sensação do espectador de segurança no sentido da visão e nas informações recebidas.
Areia*
por Ursula Rösele
Areia transcorre numa idéia de memória, na medida que trabalha a relação entre os dois protagonistas através de um simbolismo que subentende uma distância temporal, sugerindo a presença física da mulher no tempo representado pelo filme e a ausência do rapaz, que profere suas palavras quase como que simulando a ordem da lembrança dessa mulher. A atuação praticamente nula do rapaz fortalece a sensação de que ele não se encontra ali, uma vez que reage a tudo como se estivesse em algum tipo de transe.
O filme trabalha suas metáforas tendo o mar como pano de fundo e o uso recorrente do plano-detalhe como "verbalizador" da memória da mulher silenciosa, no enfoque de suas mãos na areia, no corpo do rapaz, etc. Aquela personagem parece ter retornado ao lugar mais profundo de sua lembrança, numa busca por reviver aqueles momentos norteada pela melancolia de saber que não há esperança de retorno àquelas sensações já vividas. Sua expressão é de tristeza profunda, suas ações são contemplativas de um tipo de vazio, utilizando-se do toque como demonstração sofrida da impossibilidade de realizá-lo de fato.
Dessa articulação, escolheu-se uma proposta narrativa interessante, uma vez que tomarmos como fato que aquele rapaz é fruto de seu passado. O processo de memória daquela mulher se estrutura em forma de um tipo de devaneio que, como tal, rompe em alguns momentos a barreira passado/presente, quando ela justifica suas lágrimas para aquele "personagem" ao seu lado e quando ele reage à sua afirmação de que naquele dia ela começou a envelhecer dizendo que ela tem apenas quinze anos.
A forma com que o casal é enquadrado em Areia aparece - em outros contextos - dialogando bastante com os outros três curtas da sessão. Esses casais, apesar de sua distância emocional, estão quase sempre enquadrados lado a lado, de frente para a câmera. Em Areia, essa escolha metaforiza a distância temporal que se subentende: o lado do quadro que ela ocupa seria o presente, o lado dele, o passado. Ela, vista do ponto de vista onírico dele, pode ser tocada simbolicamente: seu nome "dá pra pegar, dá pra comer". Ele, como representação de algo que já foi real, possui um corpo palpável cujo toque naquele contexto serve para a narração da mulher do que já havia ocorrido entre ela e aquela pessoa.
Todos esses momentos resultam inevitavelmente na constatação de uma ruptura, de onde só resta a saudade. A partir desta comprovação, a mulher vira o seu olhar e câmera passa a acompanhar o ponto de vista do outro lado da praia (que até então pertencia somente aos dois) agora ocupada por outras pessoas. No silêncio contemplativo do que há naquele provável presente, fica a sensação de melancolia e incerteza em relação ao futuro.
O Livro de Walachai
por Rafael Ciccarini
O Livro de Walachai é um curta memorialista sobre um pequeno povoado alemão no sul do Brasil, feito a partir de um livro de relatos de um velho professor e agricultor, que, na década de 1940, ensinava português àquela crianças que tinham o alemão como primeira língua, além de ser uma espécie de mito histórico – além de professor era agricultor e referência absoluta aos que ali residiam e perseveravam.
Fica claro, desde o início, o fascínio da diretora por seu objeto e sua encenação, que passeia do ficcional ao documentário, demonstra grande cuidado técnico, delicadeza na condução da narrativa e boa condução dos atores – destaque para as crianças que encenam o que seria uma aula na década de 1940, onde Rejane dirige crianças que residem atualmente na reunião fazendo-as bastante críveis enquanto simulacros daquelas crianças do passado.
No entanto, o que talvez seja o mérito do filme seja também sua armadilha, que é a total devoção e confiança no objetivo abordado. Até que ponto interessa um retorno tão cuidadoso, lento e meticuloso a um universo tão particular, tão ermamente localizado no tempo e no espaço? Por qual razão o tal livro é mesmo um objeto tão precioso a ponto de sua perda significar uma tragédia? Não se constrói, no filme, força expressiva ou mesmo discurso histórico que responda de maneira incisiva essas questões, e por vezes o filme acaba se tornando enfadonho, auto-importante e auto-centrado. No entanto, sua delicadeza, esmero e entrega acabam nos fazendo reter de O Livro de Walachai mais suas virtudes que seus senões.
Satori Uso
por João Toledo
Satori Uso poderia estar no lugar errado, ser um curta deslocado dentro da temática da sessão intitulada “Delicadezas”. E não exatamente por suas imagens não serem delicadas; elas são. São de um extrato poético extremamente orgânico. Sustentam – como o cinema japonês ali emulado – a bela tensão entre o simples e o sofisticado. O filme é inteiro construído de haikus visuais, imagens-síntese que, em si, abrem e concluem pensamentos, estes sempre sobrepostos pela narração de Jim Kleist ou pelas poesias do livro “Nihonbashi Doji”, do escritor que dá título ao filme. Mas porque ele poderia, então, ser questionado dentro de seu contexto? A questão sobre seu não-pertencimento ao tema reside na seguinte questão: o documentário sobre o diretor Kleist e seu filme incompleto sobre Satori Uso é, na verdade, um filme de ficção, e nenhum de seus personagens realmente existiu.
Num primeiro momento, me ocorre que aquilo seria um deboche, uma plena sátira do tom embargado das narrações de documentários nostálgicos, uma ironia mordaz que leva o espectador a se emocionar com imagens forjadas, com o espectro fantasmagórico das sombras que escondem a verdade vazia. No entanto, muito além do que faz, por exemplo, o curta Novela Vaga – sobre um cineasta frustrado com seus vídeos nunca selecionados para festivais, que resolve fazer um filme de “arte”: sem conflito algum, em preto e branco, passado em paris – Satori Uso é extremamente verdadeiro e entregue ao seu discurso, sem deboche ou ironia às suas filiações estéticas. Mais legítimo que a maior parte das “verdades” lidimadas pela mídia nesses tempos em que o jornalismo sensacionalista vende o espetáculo descartável tanto quanto as novelas mais vazias, o curta parece trazer um certo alento em sua máscara. Ele é uma sombra – como o personagem Satori dizia almejar – que esconde a autenticidade de um discurso estético (visual tanto quanto escrito) realmente singular, que busca diluir legitimidades bobas da experiência real. Ao invés de construir mentiras a partir do real, como faz a mídia, o filme constrói discursos autênticos a partir de mentiras. É uma bela experiência, uma forma interessante de revisitar o passado para reencontrar, nos fragmentos, perguntas essenciais. “Nem dentro, nem fora/ neste canto do jardim/ sou uma sombra de mim”. A contemplação do mundo, o elogio ao inacabado, à forma aberta, a tensão entre o infinito e o efêmero, entre o eternizar-se e o anular-se, entre cinema e poesia, luz e sombra; estas questões norteiam o filme e dão vida a um cineasta underground americano e a um poeta japonês, dão vida também à Londrina da década de 50, à memória reinventada e ao cinema contemporâneo.
Filmes Citados:
Esconde-esconde (idem, 2007/ Álvaro Furloni)
Areia (idem, 2007/Caetano Gotardo)
O Livro de Walachai (Idem, 2007/Rejane Zilles)
Satori Uso (Idem, 2007/Rodrigo Grota)
Novela Vaga (Idem, 2007/Beto Valente, Dado Amaral)
*Exibidos na 11ª Mostra de Cinema de Tiradentes 2008.