
por Marcelo Miranda
Uma sessão de curtas curiosa, esta. A proposta parece reunir trabalhos em que ser um outro, encarnar alguém que, na essência, não é ser si próprio, pauta as propostas de cada um dos filmes. O importante, aqui, é travestir a imagem com outra, de significado diferente, mas cuja vontade é encontrar e entender o que, afinal, significa ser outra pessoa.
Monstro?, de Alexandre Araújo (SP)
A estética é até interessante - uma imagem suja, quase próxima ao vídeo caseiro, parece nos colocar dentro de um universo muito próximo, que é o dos bancos escolares. Um personagem irritante finge ter uma personalidade que não a sua para "provar" determinada tese. Potencial tem, mas o filme esbarra na simples falta de talento para a encenação e numa certa ingenuidade do discurso - que, mesmo ironizando o ponto de partida, não tem força suficiente para segurar essa mesma ironia.
Tricoteios, de Eduardo Moreira, Cristiane Zago e Rodolfo Magalhães (MG)
Pegar o Grupo Galpão e levá-lo ao cinema poderia até ser um exercício interessante, visto ser este uma das trupes mais significativas do teatro mineiro. Mas carecia de haver um pensamento de cinema para além de apenas colocar na tela o Galpão ele mesmo. O que se vê aqui é um teatro filmado - não naquela idéia de palco ou marcação que insiste em servir de muleta para quem "acusa" determinados filmes de serem "teatro filmado", mas sim na linguagem e nas escolhas estéticas de "Tricoteios" para o que pretende narrar. Basicamente trata das fofoquices típicas de interior de Minas, com um casal acompanhando determinada situação e criando eles próprios um enredo que nada tem a ver com a realidade. As interpretações vão do histriônico ao exagero verbal e corporal, numa chave dramática mais apropriado aos limites de um palco do que ao infinito do campo cinematográfico.
O Crime da Atriz, de Elza Cataldo (MG)
Outra tentativa de dialogar teatro com cinema, ainda menos bem-sucedida do que "Tricoteios". É um curta-piada-dramático que se sustenta no talento de Inês Peixoto para viver a atriz teimosa que insiste em falar no palco mais do que se papel exige. Funciona na premissa, mas não se sustenta nem dramática nem visualmente após os primeiros minutos. É aquele típico trabalho que acredita ser suficiente apresentar um ponto de partida e conclui-lo sem com isso acrescentar nada ou colocar qualquer característica que tire o curta da mesmice dramatúrgica. Lembra, mais pelo enredo que qualquer outra coisa, a obra-prima Noite de Estréia, de John Cassavetes. Inadvertidamente, o filme já vale por isso.
Um Ridículo em Amsterdã, de Diego Gozze (SP)
Exercício instigante de documentário e encenação que busca brincar com os limites entre o que é verdade e falsidade num trabalho de "perfil" documental. Difícil definir onde entra a brincadeira e a captação do que é fato, e aí reside o fascínio estranho que esse filminho exerce. Estranho porque, em algumas ocasiões, o diretor demonstra estar claramente explorando seu personagem ao mesmo tempo em que revela seus artifícios (vide as duas câmeras que o acompanham, ora "entregando" o jogo, ora mascarando-o). Existe um momento, ao final, em que Gozze parece cruzar a linha entre o mau gosto e o desrespeito puro e pleno, o que pode ser justificável pela opção em brincar com os gêneros.
Filmes citados
Noite de Estréia (Opening Night, 1977/John Cassavetes)
Monstro? (idem, 2008/Alexandre Araújo)
Tricoteios (idem, 2008/ Eduardo Moreira, Cristiane Zago e Rodolfo Magalhães)
O Crime da Atriz (idem/Elza Cataldo)
Um Ridículo em Amsterdã (idem/Diego Gozze)