Isto é Meu e Morrerá Comigo (Fábio Carvalho) e Tomba Homem (Gibi Cardoso)

por Marcelo Miranda

Por vezes alguns filmes encaixam-se tão bem numa proposta de curadoria que sua seleção dentro de determinado festival parece ter sido feita absolutamente a dedo, ainda que as qualidades do trabalho em questão sejam bastante questionáveis. No caso da Mostra de Ouro Preto, onde o eixo curatorial gira todo em torno de uma certa idéia de memória e preservação, a nota dissonante (sem trocadilho) foi Os Desafinados, cuja proposta é relembrar o auge da Bossa Nova através de cinco amigos que tentam pegar carona no sucesso desse gênero musical – leia aqui a certeira avaliação do filme feita pela polvo Mariana Souto.

 

A escolha por manter a linha de curadoria firme dentro de suas propostas, mesmo que para isso entrem determinados trabalhos talvez de menor impacto – porém, sempre imbuídos de algum interesse, seja por conta de quem os realizou, caso de Os Desafinados, dirigido pelo veterano e respeitado Walter Lima Jr, seja pelo óbvio significado enquanto obra a ser preservada, como os filmes-homenagens (Deus e o Diabo na Terra do Sol, Terra em Transe, O Bandido da Luz Vermelha, A Mulher de Todos) – é, no mínimo, bastante ousada, o que já lhe dá forte aura de importância.

 

É nesse contexto que surgem dois médias-metragens mineiros exibidos na mostra. Tanto Isto é Meu e Morrerá Comigo, de Fábio Carvalho, quanto Tomba Homem, de Gibi Cardoso, inserem-se numa noção de rememoração a partir das experiências pessoais e profissionais de seus personagens. São ambos filmes documentários, apontando as câmeras para figuras de importância dentro dos universos onde transitaram no passado.

 

Porque é de passado, afinal, que os filmes tratam – até porque, quando os diretores chegam, seus retratados estão no fim da vida, apenas restando-lhes liberar da memória histórias, mitos, lembranças e reflexões a partir de suas experiências no mundo em anos anteriores. Isto é Meu e Morrerá Comigo registra o professor, jornalista, poeta, dramaturgo e ator João Etienne Filho (1918-1997), figura importante da literatura mineira que transitou e atuou entre amigos como Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Mário de Andrade e Paulo Mendes Campos. Fábio Carvalho posta a câmera diante de Etienne e o deixa falar, falar e falar, o que lhe permite discorrer sobre cinema, letras, música e um tanto de outros assuntos. É como se ele estivesse à espera de alguém para lhe ouvir pacientemente – e esse alguém, antes de ser apenas o diretor, somos nós, espectadores, sentados numa sala de projeção acompanhando o raciocínio rápido (e nem sempre claro) do poeta.

 

Num certo momento surge uma narração do próprio Fábio Carvalho, o que quebra a proposta de dar espaço apenas ao personagem. A tentativa do diretor se inserir no filme fisicamente (inclusive com um reflexo no espelho) parece não concatenar com a proposta de dar livre espaço a Etienne. Num vídeo de pouco mais de 40 minutos, este é um tropeço quase fatal, suplantado pelo interesse na figura verdadeiramente central do filme.

 

Por sua vez, Tomba Homem tem estrutura muito próxima à de Isto é Meu e Morrerrá Comigo. A câmera se fixa diante do personagem central e o deixa se abrir sobre o que vier à mente naqueles instantes. Porém, o trabalho de Gibi Cardoso tem maior preocupação com os pequenos detalhes, com a construção visual de seu retratado, via objetos, formas, movimentos, corpos. Assistente de Cao Guimarães há dez anos (e um dos principais responsáveis por encontrar algumas das figuras reais mais interessantes do cinema deste diretor), Gibi absorveu alguns “cacoetes” do parceiro e os utiliza à sua maneira – e muito bem, aliás.

 

Tomba Homem é um travesti carioca que, quase aos 80 anos, vive isolado e aidético em Minas Gerais. Conviveu com o mítico Madame Satã na Lapa, brigou com policiais e bandidos, prostituiu-se de todas as formas imagináveis. Através das lentes de Gibi, essa figura estranhíssima, de imagem muitas vezes incômoda, mostra-se um ser humano de razoável sensibilidade, orgulhoso e convicto da vida que levou e ainda alimentando sonhos de, um dia, tornar-se mulher em definitivo através de uma operação de mudança de sexo. O diretor não se mostra condescendente com esse personagem e o deixa dominar o filme a cada plano – desde as imagens da casa e dos dedos pintados ao acompanhamento a uma aparente clínica de repouso, onde ele toma contato com outros travestis.  

 

Novamente a memória é fundamental para a fruição do filme e de quem é esse (ou essa) tal de Tomba Homem. Mais ao final, o relato de uma briga ganha contornos de filme de aventura, tamanha a emoção e autenticidade como é narrado. A câmera insiste em servir de ponte entre o passado rememorado do documentado e o presente testemunhado pelo público, e a crença demonstrada por Gibi na força dessa intermediação torna-se um verdadeiro trunfo à sua estréia na direção. 
 

Filmes citados

Isto é Meu e Morrerá Comigo (idem, 2008/Fábio Carvalho)

Tomba Homem (idem, 2008/Gibi Cardoso)

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