
Criador de Imagens
por João Toledo
Abrindo a sessão de curtas na Praça Tiradentes, em plena consonância com as discussões em voga no evento, o filme da voz a uma das principais figuras do Cinema Novo, o pintor de luz e sombras, responsável pela fotografia de muitos dos mais primorosos filmes da década de 60, Mário Carneiro. É, de certa forma, um resgate de sua memória, feito pouco antes de sua morte. Com simplicidade e eloqüência, Mario fala de si, de sua trajetória desde a infância até seu encontro com o cinema. A câmera permanece quieta, diante dele, como uma ouvinte atenciosa. O documentário se constrói sob o signo da simplicidade, sem buscar nenhum rebusque narrativo, deixando que a voz de Carneiro guie a narrativa da poltrona do que parece ser a sala de sua própria casa enquanto o filme recorre às lindas imagens que o diretor de fotografia ajudou a construir em colaboração com Saraceni, Joaquim Pedro e outros muitos diretores do cinema nacional.
Apenas dois recortes de Mario ilustram seu discurso, e não tentam se posicionar de antemão perante o objeto, com um discurso próprio. O filme se atém a breves comentários escritos em cartelas pretas; interlúdios que contextualizam o homem e destacam sua importância de maneira didática, mas também simples, quase sempre factual, sem a recorrente grandiloqüência dos discursos mitificadores de um passado revisitado pelo filtro da nostalgia. É uma bela conversa com o pintor, gravurista e fotógrafo do cinema nacional que, em sua condição de artista, nunca conseguiu separar suas formas de expressão. Ilustrou o Brasil.
O Menino e o Bumba
por João Toledo
O título lúdico que parece remeter a fábulas infantis, em forte contraste com a realidade exibida, permite uma leitura onírica da história lúgubre do garoto que protagoniza o documentário. A narrativa em movimento, atrás do volante de um ônibus, segue os rumos das estradas quando em busca de uma liberdade sempre interrompida pelos depoimentos da mãe e dos avós do garoto, sentados em suas casas e rodeados de uma realidade que não permite fugas.
O garoto sem pai foi criado pelos avós, já que sua mãe era muito nova para se encarregar de todas as responsabilidades de mãe. Sentindo-se sempre abandonado, o garoto buscava consolo em pais postiços e auto-proclamados – eram os motoristas de ônibus de uma empresa local, onde o garoto passou grande parte de sua infância, se afeiçoando não apenas aos motoristas, mas aos motores que o levariam para outro lugar. A obsessão por ônibus fez com que o menino aprendesse a dirigir apenas assistindo aos outros motoristas.
Com 12 anos, o menino roubou o ônibus e dirigiu quilômetros estrada afora para depois retornar e devolver seu primeiro “bumba”. Desde então vem, em uma eterna busca, roubando ônibus e rodando por onde pode, sendo preso e solto, mas insistindo sempre. Sua última fala, “enquanto eu puder, vou continuar buscando”, ilustra o lirismo de uma fuga daquele espaço opressor, que é também uma busca – talvez por seu pai, talvez por si próprio, por caminhos que o levem independentemente do destino à frente. O documentário consegue muito bem ilustrar as ambigüidades e permitir as várias dimensões de leitura do real. Entre os recortes de jornal, os depoimentos amargurados dos familiares e a voz esperançosa do menino de 18 anos, o incessante deslocamento evoca expectativas de mudança naquele solo acidentado de uma estrada real.
Profetas da Chuva e da Esperança
por Mariana Souto
Profetas da Chuva e da Esperança é pura poesia visual. Márcia Paraíso filma personagens do sertão imersos em um ambiente de beleza natural não só pela exuberância, mas principalmente pelo detalhe. A apreciação do pequeno também faz parte do discurso dos profetas, em pensamentos sobre assuntos mundanos, rotineiros.
Enquanto ouvimos trechos de sabedoria popular, assistimos às deslumbrantes imagens captadas. As gotas de chuva em câmera lenta têm o apuro técnico da captação de programas do Discovery Channel e impressionam tanto pela bela essência como pelo uso da tecnologia para filmá-la. Algumas tomadas de paisagens nos fazem lembrar de que estamos próximos de espetáculos constantes. Outros momentos em câmera lenta, como a de crianças correndo, enchem os olhos pela simplicidade, pela harmonia dos movimentos, ainda que estejamos assistindo a um menino perder a bola em um lance bobo. A estilização acaba por transformar momentos banais em bonitos pedaços de existência, mesmo que, parando para analisar, o tal momento aparentemente nem mereça tanta atenção assim, pelo menos não sem intervenção fílmica. É a redescoberta de um mundo que está debaixo do nosso nariz, que às vezes esquecemos de apreciar e que só é visto pelos olhos dos mais atentos, os ‘profetas’. Nada que uma boa fotografia e uma câmera lenta não resolvam.
Daminhão Experyença
por Mariana Souto
O curta de Jimi Figueiredo e Ricardo Movits é mais um documentário em torno de uma figura tipicamente nacional, um peça-rara carismático e popular de alguma redondeza. Simples e excêntrico, artista criativo. Tal figura é Daminhão Experyença, músico que perambula pelas ruas da zona sul carioca, mendigo por opção, já que possui um apartamento perto dali, completamente entulhado até o teto com o acúmulo de pertences e lixo. Os diretores se aproximam de Daminhão – literalmente, já que a câmera cola em seu rosto - para conhecê-lo melhor, mas a questão é que parecem ter iniciado o filme com uma empatia inatacável pelo sujeito filmado.
As perguntas dos diretores algumas vezes se fazem ouvir – assim como algumas interjeições - durante o filme e percebemos a carga não de uma simples admiração, mas de uma admiração a priori. Antes de Daminhão responder, já pressupõem que algo de interessante vem aí. Obviamente, ao escolher um tema para um documentário, é comum que se considere algo que desperte seu interesse e simpatia, mas no caso de Daminhão, esse sentimento parece prejudicar um contato mais verdadeiro com o músico, fazendo com que o resultado seja tendencioso. O que prende realmente a atenção é o fato de alguém ser mendigo por opção, mas o discurso do ‘personagem’ não é lá muito interessante ou atrativo.
Seja falando, andando ou cantando, a câmera gruda em Daminhão de tal forma que quase não se vê mais nada além de seu rosto no enquadramento. O mendigo é retratado desgarrado de seu cenário, quando o ambiente provavelmente tem grandes relações com sua personalidade, sua música e suas escolhas. O curta cresce nos momentos em que vemos Daminhão se relacionar com outras pessoas, como a senhora de flor no cabelo ou um colega mendigo - em plano e movimento de câmera inspirados, aliás. Centrando-se demais no personagem, o documentário pouco nos mostra que há algo nas ruas e nas pessoas que faz Daminhão querer viver tão próximo deles ao invés de fechado num apartamento.
Câmara Viajante*
por Gabriel Martins
A fotografia como um souvenir e símbolo de um fragmento de memória. Daí, histórias de vida que se baseiam neste mesmo fascínio pela imagem, pela brincadeira de congelar o instante. Câmara Viajante propõe, dentro de um recorte bem humorado, buscar um pedaço destas vidas, contá-las ao mundo.
Uma orquestração visual precisa permeia a realização do curta-metragem. Mesmo caindo em certo exagero da colagem, o próprio efeito soa como uma própria referência à multiplicidade cultural dentro do assunto retratado. Montagens de símbolos com santinho, fotos e outras lembranças características tanto religiosamente como artesanalmente (ou os dois), fundem-se à abordagem de grupos presos na idéia do ícone e da adoração de símbolos. Há nesta paixão, ou fé, uma necessidade de pegar, de tornar concreto o Deus, ou a Santa, ou a própria vida em algo material.
Neste caso, a fotografia tende a reiterar no processo de fixação das pessoas no local e instante que desejam levar como prova, ou algo possível de mostrar. Daí há uma outra necessidade de corrigirem a imperfeição, como no exemplo do homem que pinta fotos. Na idéia de ter uma representação sua em outro papel, a própria correção de alguma característica ou “ressuscitar” na foto um ente perdido, demonstra o quanto a fotografia toma este poder de projeção, ou até mesmo sonho, fascinação, como se ali fosse uma outra pessoa – o que, de alguma maneira, acaba inevitavelmente sendo.
O curta se assemelha a alguns formatos televisivos, quadros do Fantástico no estilo “descobrindo o Brasil e sua cultura”, mas vê algo a mais no tratamento a seus artistas personagens, o que é transmitido para a própria forma. Bem humorado, Câmara Viajante é um bom documentário, leve e sem pretensões, um bom achado tanto de pesquisa como filme.
*Exibido na 11ª Mostra de Cinema de Tiradentes 2008.
Filmes citados:
Criador de Imagens (Idem, 2007/Diego Hoefel, Miguel Freire)
O Menino e o Buma (Idem, 2007/Patrícia Cornils)
Daminhão Experyença (idem, 2007/ Jimi Figueiredo e Ricardo Movits)
Profetas da Chuva e da Esperança (idem, 2007/ Márcia Paraíso)
Câmara Viajante (idem, 2007/ Joe Pimentel)