
La frontière de l'aube, de Philippe Garrel (França, competição)
Sessão terminada agora há pouco, o filme de Philippe Garrel provocou alguns risos de deboche durante a projeção e foi vaiado no final, na sessão de 8h30 no Grand Theatre Lumière. Curioso ver reação de críticos estrangeiros diante do que de alguma forma deve ser visto como protótipo do "filme francês" por esses mesmos jornalistas. Num preto e branco lindíssimo como em Amantes Constantes fotografado por William Lubtchansky, o personagem de Louis Garrel, fotógrafo, atravessa o filme vivendo e discutindo uma relação amorosa com uma jovem estrela de cinema. Bem menor que Amantes Constantes (e com metade da duração), La frontière de l'aube está também longe da força e da estranheza de outros filmes de Garrel como A Cicatriz Interior ou Le Révélateur, mas tem sua beleza além da fotografia e dos corpos em questão. Conexão sutil e pouco importante, porém interessante, com Les chansons d'amour, de Cristophe Honoré. Forte candidato a bater o belíssimo filipino Serbis como pior média do famigerado ranking da Screen. Por sinal, o filme de Lucrecia Martel apareceu hoje com a também muito baixa média de 1.9. Lembrando que este ranking parece servir só para divertir os jornalistas em Cannes, que não deixam de consultá-lo, raramente coincidindo com a prêmiação do festival ou com algum pensamento minimamente identificável ou coerente sobre o cinema contemporâneo.
P.S: Estou começando a cansar, enxergando os limites desse tipo de observação, de dizer que um filme visto aqui não é tão grande como o(s) anterior(es) de seu autor.
Il Divo, de Paolo Sorrentino (Itália)
Retrato burlesco-sombrio do político italiano Giulio Andreotti, diversas vezes primeiro-ministro, acusado de assassinar opositores e de envolvimento com a Máfia. Itália anos 90, culminando com a ida de Andreotti aos tribunais. Filme afetado em caracterização cômica e movimentos de câmera, demasiadamente preso aos episódios reais e nominalmente aos personagens. Faz pensar rapidamente em algo de Jeunet e sobretudo lembrar com saudade o muito mais brilhante Il Caimano, em que Nanni Moretti se debruça também com humor - porém com talento e inteligência - sobre outro político hiper-poderoso italiano, Silvio Berlusconi. Na sessão de imprensa vez por outra apareceram risadas sinceras, embora tenha ficado a impressão de serem todas italianas.
Aplaudido sem entusiasmo.
Palermo Shooting, de Wim Wenders (Alemanha, competição)
Quando terminou agora há poucos minutos a primeira sessão de imprensa do novo filme de Wim Wenders e surgiu na tela "dedicado a Ingmar e Michelangelo", ouviu-se um sonoro, sincrônico, doído e totalmente espontâneo "Oh!" na enorme sala Debussy lotada. A verdade é que o último terço do filme já vinha atravessando a sessão acompanhado por gargalhadas isoladas em momentos não exatamente cômicos, como quando o protagonista, um fotógrafo alemão, está deitado ao lado da moça ("por acaso" deslumbrante) que conheceu em Palermo e pergunta-lhe:
- Você está com medo de que ?
- Das flechas de Eros…
Palermo Shooting é um filme que consegue fortalecer a já eterna intrigante questão sobre o que terá acontecido com Wim Wenders depois de terminar Asas do Desejo. Filme impressiona de tão constrangedor. A reflexão sobre a fotografia e a imagem, aparentemente o tema do filme, quando não vazia é ingenuamente conservadora.