
por Leonardo Sette, de Cannes
Ver trechos de filmes de Quentin Tarantino alternados com o próprio eloqüente cineasta falando em sua Leçon de Cinéma – "aula de cinema", termo que o próprio Thierry Frémaux afirmou na apresentação não gostar tanto – dava a curiosa impressão de que Tarantino seria um personagem de seus próprios filmes que simplesmente pulou fora da tela sentando-se ao lado do crítico Michel Ciment (Positif) para uma conversa. Na verdade, o inverso é evidentemente mais adequado; é sem dúvida impressionante ver como os filmes de Tarantino parecem ser tão nitidamente uma expansão do universo de seu próprio personagem. Ao longo de cerca de duas horas, QT foi guiado por Ciment numa tentativa de falar sobre sua maneira de trabalhar, intercalando eventualmente trechos de Cães de Aluguel, Jackie Brown, Pulp Fiction, Kill Bill e Death Proof – Tarantino brincou dizendo que preferia o titulo francês "Boulevard de la Mort", pronunciando-o com um tom todo performático, aliás presente em toda a "leçon", ou seja lá onde e quando for que Tarantino se expresse.
Um dos trechos mais interessantes acabam por iluminar um pouco o aspecto tão pessoal dos filmes desse cineasta extremamente querido (a sala Debussy completamente lotada e pronta a aplaudir contente e fotografar muito). Ao falar sobre a composição dos planos em Cães de Aluguel, Tarantino disse que certa noite o fotógrafo do filme, Andrzej Sekula, chegou com uma grande papelada onde descrevia plano por plano todos os enquadramentos e movimentos de câmera do filme. "Na verdade Andrzej faria tudo no filme, se eu deixasse, e eu só me ocuparia dos atores". Ele perguntou o que eu achava das decupagens dele e eu disse: "Andrzej, acho ótimo, mas esse é o meu trabalho, se eu quiser alguma ajuda eu falo pra você, esquece isso tudo aí".
Em outro momento, questionado sobre a ausência de música original nos filmes : "Não confio em nenhum compositor… Na verdade, eu não daria nunca uma responsabilidade dessas a ninguém… E se eu não gostar do que ele fizer ? Quer dizer, é claro que não vou gostar, sabendo que já tenho que gostar…", "Por isso uso músicas que já conheço, sei exatamente onde usar, uso esse ou aquele compositor, sem ter que lidar / trabalhar com eles."
Tarantino falou ainda sobre sua já conhecida lista de cineastas preferidos (Leone, de Palma, Scorsese, Hawks, Peckinpah, Bava, Romero, Argento) e sobre como as aulas e as experiências de atuação foram o início de sua formação como roteirista e cineasta – "Aprendi a escrever atuando. Nunca tive aulas de roteiro ("writing classes") nem tenho a menor idéia de como isso possa servir para alguma coisa".
Já próximo do final, logo após trecho de Death Proof: "Meus filmes podem ser separados em dois grupos : filmes que são bem realistas, quer dizer, onde vemos coisas que podem realmente acontecer na vida real (Cães de Aluguel, Jackie Brown) e filmes "filmes" ("movies movies"), que por sinal são os filmes que os personagens dos meus outros filmes vão ver quando vão ao cinema.