
por Leonardo Sette, de Cannes
Uma fronteira entre documentário e ficção no cinema nunca existiu, mas é provável que a maior parte dos contadores da História dessa Arte só entendam essa simples e sofisticada noção muito recentemente. Ou muito em breve.
O cinematógrafo, invenção inspirada em tantas maravilhas da História, entre elas a fotografia, a máquina de costura e a locomotiva, caminha para desempenhar de alguma forma o papel que teve em seus primeiros anos de vida, o de engenhosa máquina, certa vez atração de feiras, em breve atração de museu, ou instrumento de linguagem reciclado.
Uma obra-prima em arte não precisa estar em ligação brutal com a ponta de lança da sociedade de seu tempo para sê-la, mas aquela que está provoca um t(r)emor raro no espectador ao fazê-lo sentir pulsar ao máximo a aventura humana em sua trajetória no tempo.
(Notas após 24 City, de Jia Zhang-ke.)
Le Silence de Lorna, de Jean-Pierre e Luc Dardenne (Bélgica, competição)
Havia uma inevitável expectativa no ar da grande sala Lumière para descobrir se Jean-Pierre e Luc Dardenne estariam trazendo a Cannes seu quinto excelente longa-metragem seguido, assim como haverá expectativa sábado sobre a possível (e inédita) terceira Palma de Ouro para esses notáveis irmãos belgas. O fato é que Cannes 2008 já mostrou filmes grandes o suficiente para que essa Palma ou qualquer um dos prêmios principais não seja de forma alguma merecida por Le Silence de Lorna mas, como se sabe, júris e prêmios são constantemente a parte mais problemática e menos importante de qualquer festival. O filme que vimos agora há pouco é sem dúvidas o mais frágil - ou o único frágil - dos irmãos desde A Promessa (1992). Pode-se dizer que continua a convencionalização” formal vista em A Criança, Palma de Ouro em 2005, embora não seja por isso que Le Silence de Lorna não esteja à altura de A Promessa, Rosetta, O Filho e A Criança. Recebido com algum entusiasmo, na sessão às 9h no Grand Theatre Lumière.