Waltz with Bashir, de Ari Folman (competição)

 

por Leonardo Sette, de Cannes

 

-  Posso desenhar um pouco você com seu filho?

- Pode. Enquanto você somente desenhar e não filmar, tá tudo bem.”

 

Essas duas linhas entre o diretor israelense Ari Folman e um de seus companheiros de juventude parecem funcionar naturalmente como pilar retórico por trás do fato de que Waltz with Bashir seja realizado e apresentado como um documentário em animação. Se Folman tem sua explicação, admito que não me interessa pesquisar, esse par de frases dentro do próprio filme parece dizer tudo, inclusive nada, ao poder ser lido do jeito inverso, como um alerta à paranóia defensiva que dominou nas últimas décadas a captação de imagem documental, fixa ou em movimento. O que importa é que toda uma questão em torno da imagem como recorte realista do “real” é debatida o tempo todo (não em texto) ao longo do filme de Ari Folman.

 

Waltz with Bashir

 

Produzido, entre outros, pela respeitada Les Films d’Ici (exclusiva de documentários) e Thierry Garrel (irmão de Philippe), Waltz with Bashir é uma construção em animação (alguns falaram em rotoscopia mas na verdade é mistura de Flash, animação clássica e 3D) da reconstrução que Folman tenta fazer em sua vida “real” de seus momentos como jovem soldado na Guerra do Líbano, no início dos anos 80.

 

Uma noite num bar, outro amigo conta-lhe que vem tendo um pesadelo recorrente, 26 cachorros sanguinários o perseguem todas as noites para matá-lo. O amigo revela uma conexão do sonho com a época da guerra, e Folman pela primeira vez recorda-se de uma imagem: ele mesmo, jovem, banhando-se no mar com dois outros soldados em Beirute. Folman percebe então que não guarda lembrança de praticamente mais nada da guerra e decide ir atrás de antigos colegas, para tentar (re)compor o passado e entender o furo em sua memória, realizando um filme. Vemos então o próprio diretor viajando para encontrar pessoas, conversando com elas, além de planos captados pelo próprio Folman enquanto “personagem” documentarista: os depoimentos - tudo em animação.

 

O documentário filmado por Folman dentro de Waltz with Bashir seria dos mais convencionais possíveis, à parte a questão da imagem animada, como se o diretor quisesse aí simplesmente demonstrar que um documentário está sendo feito, sobre uma história que, ela sim, seria importante. Pode ser ainda comentário sobre os limites dessa forma televisiva que ainda ocupa boa parte na produção do gênero. Os entrevistados são enquadrados (desenhados...) bem à maneira de entrevistas para a TV e, enquanto falam sobre a guerra, as imagens vão surgindo, sempre acompanhadas em off pelo texto.  Por sinal, o excesso de voz  off  parece ultrapassar esse documentário TV dentro do filme e ser um dos poucos limites ou resquícios de convenção em Waltz with Bashir.

 

Waltz with Bashir 2

 

De certa forma, o filme de Ari Folman parece esbarrar em questão recorrente em várias experiências animadas, o aparente contentamento com a simples “extravagância” animada, deixando de lado a possibilidade de explorar mais adiante o terreno cinematográfico da mesma forma que seria possível em filmes de imagem plasticamente verossímil, fotográfica. Mas é um filme de grandeza incontestável, minha opinião,  por essa reflexão não nominal sobre a imagem de guerra, pelo desfecho surpreendente e fortíssimo e por jogar um pouco de luz no lado obscuro que tem toda ação militar numa guerra, especial nesse caso sendo autocrítica de Israel para Israel, algo, senão raro, pouco visto e até mesmo tabu em certas esferas.

 

PS: Não vi Redacted , de Brian de Palma, mas várias pessoas aqui lembram do filme ao falar de Waltz with Bashir. Posso citar um inquieto jovem realizador libanês, Waël Nourredine, realizador dos curtas-metragens Ça sera beau (From Beirut with Love) e July Trip, como um importante olhar atento ao legado da Guerra do Líbano e ao que vem se passando no país nos últimos anos, conflito após conflito.

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