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Leonardo Sette, de Cannes

 

Filmes vão se acumulando sem textos além dos rápidos posts no blog. Na hora de gerenciar o tempo em Cannes (filas, filmes, rebatê-los, encontrar ou não o que dizer, escrever, fotografar, filmar, enviar pra edição, postar no blog, coletivas, dormir, refeições...) a tentação que vence leva sempre para dentro de uma sala de projeção. Para diminuir um pouco o desequilíbrio:

 

Leonera, de Pablo Trapero 

 

Leonera, Pablo Trapero

 

Lembra um fino exercício dentro do próprio universo de um autor. Olhar atencioso e delicado voltado a uma personagem no limite, jovem mulher que chega à prisão (grávida) por assassinar o namorado/amante de alguma forma em legítima defesa, embora nada fique muito claro. Mais consistente e melhor construído que Nascido e Criado, contudo sem a firmeza e concisão de El Bonaerense. Fez pensar em Day Night Day Night (Julia Noktev, 2006, Quinzena). Leonera é um bom filme, que talvez sofra aqui demasiado rigor na análise pelo efeito “en Compétition”.

 

 

Three Monkeys, de Nuri Bilge Ceylan 

 

Three Monkeys, Nuri Bilge Ceylan

 

Tendo visto e admirado Nuvens de Maio, Uzak e Climates (aqui um tanto solitário na admiração), decepciona ver Ceylan preferir não avançar digerindo suas matrizes cinematográficas, assimilando e reprocessando-as em estilo próprio, contemporâneo, como em Usak talvez. Essa já era uma crítica existente para seus trabalhos anteriores (por mim não compartilhada, mas compreendida), especialmente em Climates. Em Usak, se o quadro e o tempo de Antonioni embalavam lindamente uma gelada Istambul sob a neve, ao mesmo tempo parecia funcionar somente como moldura para um original desenho dramatúrgico aquecido por certo humor negro “humanista”.

 

Se os planos de Stalker apareciam na TV da casa do fotógrafo esparramado na poltrona (entre um filme pornô e outro) e o nome de seu realizador em conversa entre os personagens, o cinema de Tarkovski pincelava harmonicamente o trabalho de composição de Ceylan. Mais que em Climates, em Usak e Nuvens de Maio Ceylan parecia estar prestes a evoluir para um caminho de um cinema original, que com o tempo se desprenderia “de vez” das fontes que até então regavam saudavelmente seu terreno criativo. Em Three Monkeys, porém, o movimento parece ser en arrière, ou para o lado ao menos. O filme tem cara de um lento jogo de xadrez consigo mesmo, onde os movimentos não se arriscam para além das jogadas já apre(e)ndidas – planos incansavelmente sofisticados pela fotografia e mise-en-scène (paradoxalmente ou não, salvo engano é o primeiro filme em que Ceylan não se ocupa também da fotografia), trabalho de som não menos rebuscado também chama excessivamente para si. A parábola dos três macacos sela o aprisionamento em tentativa de tratado simplificado sobre o comportamento humano.

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