Blindness, de Fernando Meirelles (competição)

Leonardo Sette, de Cannes

 

Uma vez confrontado por um interlocutor com um exemplo que citava Spielberg, Andrei Tarkovski respondeu objetivamente, sem sarcasmo: “Mas nós não exercemos o mesmo métier”.

 

O espectro possível de ecletismo entre os filmes da competição em Cannes é suficientemente amplo para fazer o espectador se sentir por vezes deslocado diante de uma obra ou outra, no sentido da própria natureza ou família das mesmas. É extremamente provável, por exemplo, que alguém que sair nos próximos dias encantado dos novos filmes de Jia Zhang-ke ou Philippe Garrel recusará o de Fernando Meirelles. Essa observação em nada desvaloriza esse posicionamento crítico quase a priori, combatente, nada impede a materialização dessa recusa frontal em análise crítica. Mas a questão mais interessante talvez habite o espectador já pouco ou nada sensível ao trabalho de Meirelles que tente um exercício de crítica, observando Blindness pelo que ele é umbilicalmente como projeto de cinema – filme grande (Miramax, entre outros) com estrelas de Hollywood (Julianne Moore, Danny Glover, Mark Ruffalo), investimento financeiro com expectativa e necessidade de retorno, voltado para grande público.

 

 

Debruçando-se sobre o filme dessa forma, Blindness pode se mostrar belo, diferenciado e até inventivo.  Especular se Blindness está ou não à altura da obra de Saramago, ou se Saramago aprova o filme que vimos ontem, parece-me totalmente desinteressante. Ou ainda divagar sobre o que seria a adaptação para o cinema nas mãos de Michael Haneke ou Kubrick. Na verdade, creio que o que faria talvez algum sentido, porém pouco ainda, seria imaginar esse projeto nas mãos de Alejandro Iñarritu, Cuarón ou Amenábar.

 

Meirelles trata o Ensaio sobre a Cegueira de Saramago com um trabalho de fotografia que normalmente aparece em Hollywood apenas de forma maneirista. Há composição em textura, luz, enquadramentos e movimentos de câmera (foco incluído) que parecem vir de um diretor talentoso honestamente entusiasmado com seu tema (a perda da visão, entre outros), compenetrado como um garoto que morde a língua caprichando na tarefa de caligrafia. Em Blindness, fotografia e montagem estão sem dúvida de alguma forma próximas de Cidade de Deus, ao mesmo tempo que parece haver nesse novo filme uma incorporação de tiques de cinema de autor ao gosto de Cannes / Cahiers, de um jeito absolutamente desinibido e descomplexado. E enquanto o filme lida com uma história sobre colapso social e lado negro no humano – as palavras Dogville e Les Temps du Loup (Haneke) surgiram num caderno durante a sessão – a trilha sonora de Marco Antônio Guimarães, de autoria rapidamente reconhecível, despista ou confunde em certas seqüências o destino dos personagens, numa espécie de quase ironia sonora – melodia e arranjo “exóticos” (árabe?) ao mundo retratado, embalando enredo sombrio.

 

Ainda entre aspectos interessantes, possível citar o uso de imagens de arquivo de catástrofes reais, captadas em câmeras amadoras ou de vigilância; a cidade de São Paulo exibida em um ou dois momentos em toda sua estranheza arquitetônica de metrópole terceiro-mundista, usurpada aqui como english speaking town; Gael Garcia Bernal compondo um psicopata oportunista em arriscada mímica de Stevie Wonder (presente no romance?), num cena que seria certamente cortada por um distribuidor mais pragmático.  E há... Julianne Moore. Num blog sobre o processo de realização de Bilndness que se tornou famoso pela impressionante abertura, franqueza ou ingenuidade, Meirelles comenta: “Tudo na cena está ruim? Corta para um close da Julianne Moore. Aí é xeque-mate.”

 

 

Comentário  à parte, Moore mostra-se mais uma vez atriz impressionante, única. Em momento de ruína emocional de seu personagem, Meirelles (estaria tudo ruim na cena?) corta o som e sem constrangimento  arma o silêncio para Julianne Moore chorar. Em termos de atuação, diametralmente distante parece estar a tentativa do roteirista do filme, Don McKellar, de representar como ator uma das “vítimas” da cegueira, compondo algo mais próximo de embriaguez alcoólica que de inaptidão por súbita perda da visão ou do desespero motivado por ela.

 

Pontos fracos vêm especialmente numa introdução rápida demais, explicitamente funcional para o filme ser contado em seguida, no excesso de voz off explicativa de Danny Glover, descrevendo os sentimentos e ações da personagem de Moore de alguma maneira próxima do que há em Dogville, porém sem o interessante efeito supostamente brechtiano composto por Von Trier. Fica ainda a impressão que de Cidade de Deus a Blindness, pela diferença na natureza do conteúdo, a diminuição na rapidez dos planos ou na velocidade do ritmo construído pela montagem poderia ter sido menos tímida.

 

Filme para ser revisto e analisado de preferência fora de um Festival como o de Cannes, longe de outros muito mais livres da lógica de mercado. Por sinal, entre mais uma das “confissões” desencanadas de Meirelles: o filme nem deveria estar na competição.

 

Obs. Blindness teve parte considerável do orçamento vinda de captação por leis de incentivo no Brasil, fato que no mínimo merece avaliação. Recomendo muito a leitura do excelente artigo  de Leonardo Mecchi na Revista Cinética.

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