O Ar

Leonardo Sette, de Cannes

Há algum tempo, não sei precisar, os grandes aviões de linha incorporaram câmeras apontadas para o exterior levando imagens diretamente para a telinha particular de cada passageiro. Vindo pra Cannes, no trecho SP-Paris, pela primeira vez olho para essa nova atração de bordo, dois elegantes e suaves travellings que se alternam em montagem (provavelmente) pré-programada. Uma câmera na ponta do avião, de frente para o caminho, com vista adoravelmente desimpedida, aparece no visor durante a decolagem e a aterrissagem. A outra, embaixo, apontada para o chão, perpendicular ao movimento, remetendo de forma um tanto sombria às imagens de bombardeios, as bombas caindo, os alvos no fundo do plano, lá no chão. Dependendo da altura em que estiver, lembra ainda algo como Google Earth, só que de fato ao vivo, em movimento e bem abaixo dos pés.

Cannes 2008 aviao

De forma nada desinteressante, quando a imagem da câmera na ponta do avião surgiu no monitor, começava o deslocamento frontal para a decolagem, fazia noite e os faróis do avião iluminavam a pista que brilha antes de ficar para trás. A conexão com o antológico plano que abre e encerra A Estrada Perdida (1997) veio de forma violenta, compulsória, “parassimpática”, incontornável. O avião decolou e, de maneira bem menos imediata, lembrei mais adiante que o cartaz do 61o Festival de Cannes, absoluto ao longo de toda a área de Cannes em que acontece o Festival, é inspirado em Lynch. Na verdade, traz uma foto de Lynch - de autoria de Lynch, melhor dizendo - em composição gráfica do artista visual Pierre Collier. Lembrei por fim que Cannes 2008 traz ainda o segundo longa-metragem de Jennifer Lynch, filha de David, na seção hors competition.

 Cannes 2008 caderno

Cannes 2008 Lynch

 Graças não somente a uma identidade visual longe da dos cineastas saltitantes do ano passado, os ares em Cannes um ano depois parecem bem mais respiráveis de imediato. Se Cannes 2007 abria-se exatamente no mesmo dia 16 em que um Nicolas Sarkozy onipresente e quase onipotente tomava posse como presidente da França, nos quiosques de revistas e jornais brilham dessa vez, além do próprio Festival (como de hábito nas mais diversas capas), a comemoração dos 40 anos de maio de 68. O fato é que o Presidente que disse poucas semanas antes de ser eleito que era preciso liquidar esse mesmo maio de 68 está em queda de popularidade prolongada e constante. Sarkozy assiste portanto à comemoração de seu primeiro ano de mandato - que inclui balanços oficiais, prestação de contas e tudo o mais – ser completamente ofuscada justamente por um certo outro aniversário indiscutivelmente mais importante e querido que o seu.

Cannes 2008 revistas

 Mas o 61o Festival de Cannes começa e passemos aos filmes propriamente ditos, já que essas linhas são puro luxo de uma disponibilidade de tempo pré-festival. Muito válido lembrar aqui o que escreveu Marcelo Miranda no blog da Filmes Polvo, logo após o anúncio da Seleção Oficial. Pouco acrescento por hora, além de concordar que a seleção desse ano parece realmente excelente – coisa que só poderá ser de fato confirmada com o passar das projeções, claro.

1) O Festival esse ano prestará tributo aos 100 anos de Manoel de Oliveira (a serem completados em Dezembro) com a projeção de seu primeiro filme, Douro, Fauna Fluvial (1931, 18’) e de acordo com o catálogo oficial, uma “surprise de Gilles Jacob”, presidente do Festival de Cannes. Ano passado, Manoel subiu os degraus de Cannes literalmente correndo. Belíssima imagem, belíssimo cineasta.

2) A edição de número 61 do festival será a primeira em que outro grande artista, um pouco mais jovem digamos, terá um filme em competição, La Frontière de l’Aube. Aos 60 anos e com cerca de 20 filmes, vem a Cannes Philippe Garrel (Amantes Constantes), cineasta francês que infelizmente tem corrido o risco de ser mais conhecido por muitos como pai de Louis (Em Paris, Os sonhadores, Amantes Constantes).

Leia novidades instantâneas em nossoblog.