Faces

por Marcelo Miranda

 

Cassavetes não tem um olhar moralizador em relação ao álcool. A embriaguez nunca é apontada como doença, mas sim como força de liberação, com múltiplos efeitos. Deprimente ou excitante, paranóica ou afetiva, a embriaguez tem sempre dois pólos, negativo e positivo. Em Faces, o álcool desenvolve a paranóia, aumenta a agressividade e sublinha a decadência catastrófica de cada momento.

Thierry Jousse, no livro “John Cassavetes”

 

Uma definição rápida e apressada de Faces (1968), quarto longa-metragem de Cassavetes, seria a de um filme embriagado como as pessoas que retrata. Isso não significa necessariamente que as imagens estejam tão bêbadas quanto os personagens (ainda que, em alguns momentos, a câmera pareça, de fato, também ter se embebedado). Chamar Faces de “embriagado” é entender sua concepção e realização como um projeto de revelação de humores, amores e desamores; é olhar para a tela e sentir sair da projeção toda a carga dramática e incômoda, ora engraçada, ora constrangedora, de pessoas agindo em estado de suspensão via litros e litros de álcool; é acompanhar com elas o mergulho em situações corriqueiras somente possíveis de acontecerem da forma como vemos justamente por conta da bebida. 

 

Não se está falando aqui que Faces seja um filme sobre alcoolismo, nem muito menos que ele sirva de apologia ou condenação ao álcool. Como o crítico francês Thierry Jousse fala na epígrafe acima, Cassavetes nunca enxergou a questão como algo patológico ou doentio (e Jousse gasta metade de um capítulo de seu livro sobre o diretor para refletir sobre os efeitos do álcool nos principais filmes do cineasta). Especificamente em Faces, o ato de beber torna os personagens passíveis de se revelarem, de se abrirem perante o mundo e de agirem como gostariam de fazer em estado são. Num dos vários momentos de reunião pós-festa retratados pelo filme, uma senhora confessa ao rapaz de programa as suas angústias em relação à vida infeliz que leva, para logo em seguida se atirar nos braços (e pernas) do homem. O que inicialmente é engraçado, enquanto comportamento irracional de uma carente velha e gordinha, ganha ares da mais pura melancolia quando ela se aproxima do cara e sussurra: “eu gostaria muito que você me beijasse”. É o álcool potencializando o prazer, ao mesmo tempo em que também aumenta a noção pessoal de limitação e tristeza. Nesse sentido, para a personagem, a bebida ganha contornos proustianos.

 Efeito semelhante há sobre o casal Richard e Maria Forst. Numa crise aparentemente incontornável, cada um segue rumo noite adentro, enchendo a cara e aproveitando ao máximo a potencial liberdade dada a eles sem as amarras de um casamento quase inexistente. De um lado, Richard (John Marley) vai se bandear com uma prostituta de luxo (Gena Rowlands). Esta, por sua vez, parece também viver em algum tipo de encruzilhada, que o filme nunca faz muita questão de esclarecer. Já Maria (Lynn Carlin) flertará com um loverboy (Seymour Cassel) e o levará para casa, onde aproveitará as alegrias da bebida até cair de bêbada e se humilhar diante do “convidado”. Em cada instante dessa trajetória noturna, Cassavetes varia o tom do filme entre o debochado e descolado até a mais amargurada dor de se estar sozinho e abandonado, sem rumo e sem caminho à frente.

 

O que torna um filme como Faces tão grandioso e angustiante é que Cassavetes filma basicamente corpos e rostos, e não pensamentos ou idéias. O que nos é mostrado na tela está lá como é, como foi filmado e como deve ser representado. Sem simbolismos, sem contextos, sem amarras prévias, os personagens de Faces são o que são e agem como agem porque representam, acima de quaisquer outras interpretações, eles mesmos. Isso faz com que a experiência de assistir ao filme seja perturbadora, na medida em que a câmera frenética e por vezes extremamente próxima não dá qualquer tipo de refresco a ninguém, nem do lado de lá e nem do lado de cá da tela.

 

É por elementos assim que podemos dizer que Faces é um filme embriagado. Na medida em que adentramos mais e mais na intimidade dos personagens, e quanto mais sentimos que o filme parece não ter controle sobre eles – exatamente como o efeito provocado pela bebida em excesso –, menos conseguimos nos afastar daquelas criaturas. A longa seqüência inicial na casa da prostituta, regada a conversas intermináveis, brincadeiras infantis, confrontos súbitos e, claro, álcool e mais álcool, serve muito para o adensamento de relações do filme consigo mesmo e com quem o assiste. É uma carta de apresentação que será desenvolvida e catalisada a cada nova cena, atingindo o ápice no momento de racionalidade do casal em crise após a noitada, já na cena final. A dança das escadas que toma conta da tela, com um e outro trocando constantemente de posição até seguirem caminhos opostos, é o fecho mais demolidor possível para a saga particular e intimamente épica aqui filmada por Cassavetes. Em algumas poucas horas, os personagens vivem instantes de uma vida inteira – ou, ao menos, instantes de decisão para o restante de uma vida. Se tudo o que vemos será mesmo primordial para os rumos futuros de cada um ou se, na manhã seguinte, tudo voltará a ser como era antes, isso o filme não responde e nem quer responder. Importa, na verdade, é que, no paroxismo de seu domínio cinematográfico, Cassavetes nos embriagou com instantes dolorosamente bonitos de serem vistos.

 

Filme Citado:

Faces (idem, 1968/John Cassavetes)

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