Uma mulher sob influência

por Mariana Souto

 

Sem pestanejar, digo que Uma Mulher sob Influência entrou de imediato para a lista dos filmes mais impactantes que já vi. A sensação de tensão que John Cassavetes conduz é crescente a tal ponto que nos faz contrair na cadeira do cinema e zelar com apego desproporcional por uma família que não é a nossa.

 

O título já diz muito. Estamos vendo uma mulher, nossa protagonista. Mas é uma mulher sob influência de todo um ambiente patológico. A mulher (Mabel – Gena Rowlands) é praticamente um sintoma pronunciado de toda uma estrutura doente, conclusão a que vamos chegando ao longo do filme já que, de início, Mabel é a destoante, a responsável pela instabilidade de um certo universo. Mas o título é só o ponto de partida e a tentativa de síntese desse parágrafo é insuficiente diante da potência do filme, mais profundo e complexo do que o raciocínio “os outros são mais loucos do que ela”. E para ultrapassar essa noção, é necessário discuti-la em suas nuances e ampliá-la, assim como analisar alguns outros aspectos da obra, como se intenta fazer adiante.

 

Com o tempo há, de fato, um deslocamento da percepção do espectador. Mabel, de louca e geradora de problemas, passa a ser uma vítima da agressividade ao seu redor, o único lugar em que, apesar de algum desequilíbrio, ainda se encontra um pouco de ingenuidade, bondade e esperança de saúde. É interessante perceber como essa inversão se dá também na mise en scène, no modo como a personagem e as situações são filmadas. No início do longa, Nick (Peter Falk) traz os amigos para jantar em casa e comer o espaguete feito pela esposa. O enquadramento se dá a partir de Mabel, sendo que os demais aparecem apenas quando o olhar e a atenção dela são direcionados a eles. Na maior parte do tempo, ela está no centro e eles cortados. Ela cozinhou e está alimentando a todos; é uma pessoa produtiva e útil. Acima dela, a placa “Private” (privado) na porta da cozinha, fechada. Ela convive com outras pessoas, mas sua intimidade e sua consciência são resguardadas. A câmera a vê feliz.

 

Depois de muito tempo de filme e da reversão da situação, voltamos a essa mesma mesa de jantar. O momento agora é outro: Mabel volta de sua internação num hospital psiquiátrico e é recepcionada pela família. Seu lugar não é mais a cabeceira da mesa. Agora, está de costas para a câmera, que coloca em foco as demais pessoas. Não foi ela quem cozinhou; ela agora vê sua capacidade produtiva alienada de si, não pôde cuidar dos filhos, da casa e nem se relacionar com o marido. Foi considerada doente e afastada. A cozinha está aberta e não vemos mais a placa “Private”, indicando ali sua exposição, a atenção de todos voltada para sua loucura e a situação escancarada até para quem não é da família. A câmera a vê apreensiva e triste.

 

O drama de Mabel é acentuado pelo uso da trilha sonora. Muitas vezes a cena é aparentemente tranqüila, de convívio em casa, mas a música, puxada para a erudita e para a ópera, nos leva a entrar em outro tipo de clima. Essa utilização do som pode ser vista como um exemplo dos princípios de transferência de Eisenstein, dentro de suas idéias sobre neutralização - um elemento entra em conflito com outro em sentido contrário para criar um novo efeito. Numa brincadeira, supostamente leve, entre Mabel e as crianças ao ar livre, sentimos pesar a carga pessimista de O Lago dos Cisnes. Aludindo à tragédia, a trilha marca que há algo ali que não é visível e nem palpável, como uma consciência em delírio ou relações em crise, mas que mexe com todos e lhes causa grande sofrimento. Funciona até mesmo como uma dica do que vem adiante, dos momentos ainda mais dramáticos que estão por vir.

 

E há alguns momentos verdadeiramente dramáticos em Uma Mulher sob Influência, mas poucos são explícitos e visíveis, como o da internação ou o de algumas brigas. Estes são como rompantes quase que inevitáveis diante de tamanha contenção de incômodo. A maioria das cenas se constrói na tensão, na violência psicológica e, sobretudo, numa grande sensação de inadequação. Tudo isso pode ser visto na seqüência a partir da preparação da festa para receber Mabel. Nick convida gente que sequer a conhece para o seu retorno à casa depois de 6 meses - momento este que deveria ser de acolhimento. Cassavetes monta um suspense em cima da expectativa dessa chegada e da ciência do espectador de que tudo aquilo é inapropriado e está prestes a desandar.

 

Mabel está totalmente exposta, colocada como atração para uma multidão. Mesmo os amigos e parentes permanecem assistindo a cenas íntimas, curiosos. No momento em que Mabel passa pela porta, um enquadramento nos mostra a família em formato de meia-lua à espera, aguardando por ela. Essa composição quase que abraça o espectador e a sala de cinema, trazendo-os para presenciar algo delicado e no qual não se deveria interferir; daí uma sensação de mal-estar. Não à toa há limites colocados de até onde se pode ir, como a placa “private” e as portas de correr dentro da casa, separando um ambiente do outro, mas que nem sempre são respeitados. Os personagens muitas vezes têm comportamentos invasivos, e mesmo que a intenção seja ajudar, o resultado é que perturbam e agridem pessoas e situações já muito fragilizadas.

 

Com isso, o espectador se vê envolvido na posição de observador, voyeur e inconveniente de todos aqueles à volta de Mabel, como se ela fosse uma aberração, tal qual O Homem-elefante, de David Lynch, porém nas esferas da emoção e do pensamento. O público se identifica com a posição de quem assiste mas não deveria, ao mesmo tempo em que cria forte empatia com o personagem da mulher sob influência, o que gera uma ambigüidade: quero ver, tudo o que acontece à minha frente me prende, mas a sensação que tenho ao ver é extremamente desagradável – provavelmente o mesmo sentimento gerado nos personagens à volta do núcleo  Mabel, Nick e filhos.

 

Em determinado momento quase pedimos para não ver mais tanta falta de bom senso, situações difíceis e dolorosas expostas. Pedimos em pensamento para que Cassavetes feche alguma das portas da casa à nossa frente e nos deixe de fora, dando privacidade a uma família para que possa respirar e ser – louca, se quiser. Até porque todo o problema foi gerado pela exposição, pela garotinha nua, pelo olhar de apreensão do pai dos amigos dos filhos, pelo olhar de julgamento da mãe de Nick e não pela loucura ou pelo funcionamento da família em si. Por fim, o diretor de fato nos afasta, mas com cortinas que se fecham entre nós e o casal Mabel-Nick. Cortinas. Melhor que portas. Não só pelo efeito artístico, que remete a uma apresentação com atores de um lado e observadores de outro, mas como recurso que ainda nos deixa brecha e uma certa transparência para observar mais, sem nos livrar por completo de compartilhar de toda aquela saborosa angústia.

 

Filmes Citados:

Uma Mulher sob Influência (A woman under the influence, 1974/ John Cassavetes)

O Homem-elefante (The Elephant Man, 1980/ David Lynch)

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