
por Gabriel Martins
Dito filme de improviso, Sombras, de Cassavetes, busca ruas e rostos. Se é apresentada uma articulação fílmica que aparentemente dispensa o rigor, é aí também, no aparentemente acidental, que a casualidade proveniente dos acontecimentos encontra sua real beleza. Não é dizer, com isso, que inexista um pré-planejamento. Há um percurso minimamente definido, encadeamento de alguns fatores e conflitos, mas, em soma geral, o que se vê é uma tentativa de mostrar pessoas, colar a câmera em seus rostos, livre movimento de dança com o universo das ruas, da música. Ritmo de jazz.
Jazz este que transforma o próprio ritmo da narrativa. Um conflito toma grandes proporções em um momento (briga entre Lelia e Tony) para logo depois cair na trivialidade da vida – um desapego a um modelo da supremacia dos acontecimentos. Neste esquema de polirritmia jazzístico há ali, latente, uma guia musicada da montagem. Desde a batida em ragtime, swing e blues, Sombras flui no estabelecimento da nota aos relacionamentos e desavenças.
O filme sustenta-se também pela fluência da câmera entre os atores em cena, uma busca maior pela geografia da locação como uma existência do mundo real, não um cenário erguido. Há, com isso, uma fotografia naturalista, da câmera que ganha o externo buscando o que já está lá. Ao mesmo tempo, não nega as possibilidades da estratégia de câmera. Na cena em que Rupert, Hugh e um apresentador praticam uma piada, eles são enquadrados estrategicamente de forma a percebermos todas as reações simultaneamente, o que demonstra uma premeditação que, por mais que em si seja coordenação, não deixa de pretender enfatizar a maior importância da cena: não é válido o que exatamente está sendo dito, mas sua existência simplesmente como uma fala de um personagem, de um momento e sua casualidade.
Uma jóia de representação cênica, rostos em conforto com a sua cidade (no que diz respeito à presença física, não aos anseios profissionais e amorosos) porque eles são, sim, frutos dali. O nome do ator é o nome de seu personagem, e daí, parte a desconstrução fílmica do que se pretende real dentro da assumida existência de um mundo exterior ao cinema. Claras semelhanças com Quem bate à minha porta, de um Scorsese que também saberia anos mais tarde filmar das ruas à cama. Cassavetes, logo na estréia, redefinindo para si e para o mundo o próprio significado do tempo.
Filmes Citados:
Sombras (Shadows, 1959/ John Cassavetes)
Quem bate à minha porta (Who’s that knocking at my door, 1967/ Martin Scorsese)