Curtas – Mostra Venturas: “Os Mortos-Vivos”, “Quando Morremos à Noite”, “Memórias Externas de uma Mulher Serrilhada” e “Bomba”

 

Os Mortos-Vivos, de Anita Rocha da Silveira

por Ursula Rösele

O universo da juventude segue sendo o mote dos filmes de Anita Rocha da Silveira. Depois de Handebol, curta no qual duas amigas se preparam para enfrentarem suas rivais do colégio em um jogo desse esporte, a diretora decide investir nas estranhezas próprias do ser jovem e no sem-número de estímulos que essa fase compreende.

Um misto de Felipe Bragança e Marina Meliande com a saga Crepúsculo, Os Mortos-Vivos é, para dizer o mínimo, intrigante. Não existe um personagem-chave, mas vários. Sabe-se de um casal, que sofre um acidente no chuveiro e a menina morre. Há outro jovem interessado em uma moça que não retribui à altura. Ele conversa com uma amiga na praia, os dois se beijam, ele some no mar, nada mais é dito. Ela acorda à noite na areia, de óculos escuros, e vai ensaiar com a sua banda.

Em meio a essa profusão de estranhezas, a cidade também pulsa: um monumento emana luzes coloridas, uma esfinge é a escada de um shopping e, assim como no curta Charizard, a música eletrônica contemporânea preenche os espaços, os vazios dos personagens e as inúmeras não-respostas. Um universo prolífico, confuso e de crises passageiras – Anita Rocha da Silveira parece falar com extremo conhecimento de causa: capta os olhares perdidos, compreende o peso que a vida tem para os jovens e faz disso imagem. Pulsante imagem.

 

*Visto na 7a Mostra de Cinema de Ouro Preto.

 

Memórias externas de uma mulher serrilhada

por João Toledo

O filme de Eduardo Kishimoto propõe um desafio angustiante de direção, que é o de abrir mão do olhar pessoal para propor um olhar crítico social, deslocado da subjetividade artística. Nesse sentido, todo o filme se amolda sobre formas objetivas que emulam estéticas diversas. É muito corajoso esse ato de abrir mão, que pressupõe a importância e a força desse gesto criativo do qual o filme se alimenta.

Existe uma sofisticação narrativa muito evidente no filme. A construção se dá inteira de maneira indireta. A história se configura aos poucos, à medida que fragmentos virtuais nos oferecem dados dessa meta-narração. Trata-se de uma lógica que reproduz perfeitamente o tipo de relação mediada que vivemos hoje, onde tudo atravessa uma série de processos. O filme diz de uma maneira muito particular e forte da forma como essas tecnologias não só atravessam nossas vidas, mas condicionam nossas formas de ser e se relacionar. Já faz tempo que, no nosso regime capitalista, ser é ter, e essa lógica resvala na aquisição das imagens, nessa posse e domínio do mundo, que é inteiro tornado objeto de fetiche das perversões particulares. O sujeito, colocado nesse estado de potência produtiva, se impõe violentamente sobre o mundo, escondido sob o véu da distância do registro. Ao final, testemunhamos a apoteose da barbárie contemporânea. A imagem que fere, esse memorial estilhaçado do mundo, na qual tudo se distorce em nome de um vão prazer.

* Visto na 15ª Mostra de Tiradentes

 

Quando morremos à noite, de Eduardo Morotó

por Leonardo Amaral

O universo criado na literatura de Charles Bukowski traz, em si, aparentes facilidades em ser adaptado para o cinema. No entanto, existem certas contradições e impressões que por diversas vezes se mostram insuficientes na tela. Portanto, adaptar o autor no cinema acaba por se tornar um exercício de recriação dos ambientes sujos e degradantes sem deixar, no entanto, de se levar pelas facilidades primeiras que esse tipo de adaptação requer. Quando morremos à noitesabe se apoderar do universo bukowskiano sem deixar de se marcar também por um tipo de condução que lhe confere um êxito de execução.

Um homem mais velho encontra uma jovem moça em bar decadente e sujo e a leva para a casa. A partir daí, eles começam um relacionamento já fadado a não se concretizar. Eduardo Morotó aposta em uma narrativa bastante clássica e numa economia de planos para construir essa relação. Portanto, o curta-metragem, que a princípio seria sobre a degradação humana, é bem mais um filme sobre relação e presença de corpos no quadro. Não existe uma pressa da narrativa, ela é conduzida aos poucos, a fim de perceber nuances que se transpõem na medida em que a mise-en-scène se desenvolve. Na primeira noite do casal, a conversa é filmada em um único plano em que ela está sentada na cama, em oposição ao homem, que está na cadeira diametralmente oposta, mas a uma distância próxima. O que se dá a partir daí é uma aproximação que se constrói na crueza de uma fotografia quase subexposta e numa atuação amarga de um personagem que caminha para a morte devido à tuberculose.

Nesse sentido, o curta de Morotó é também um filme sobre a morte, e a surpresa é que ela, apesar de estar sempre presente nas tosses do homem tuberculoso, acaba surgindo no suicídio aparentemente inexplicável da jovem mulher. De alguma maneira, ela se apodera da vida dele, e a insuficiência de salvação e redenção acarreta em uma desistência da vida. E isso se dá de uma forma bastante sóbria: sem psicologismos e virtuoses, o mundo daqueles dois personagens é apresentado de maneira direta, quase frontal, em um cinema de ações.

*Visto na 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

Bomba, de Francisco Franco

por Leonardo Amaral

O universo da adolescência é, em um primeiro momento, algo aparentemente fácil de se retratar no cinema. Não é à toa que muitos filmes com temáticas e experiências dessa idade são retratados, especialmente em curtas-metragens. No entanto, há quase sempre uma cartilha por vezes tomada como verdade que coloca todos esses filmes em uma só gama de tipos, como se todos fossem mais ou menos parecidos.

Bomba investe em um tipo de humor que rompe um pouco com essa uniformização encontrada em circuitos de exibição. Francisco Franco nos apresenta de cara um certo contexto para o seu curta: logo que o personagem caminha para a escola, uma legenda nos diz que tudo aquilo se passa no ano de 1995. Os anos 90 estão bastante presentes dentro do filme: nas atitudes, nas mochilas Company, nos tênis, nas brincadeiras e nos anseios de jovens que se encontravam em um contexto histórico de início do Plano Real, que possibilitava naquele momento alguns acessos a coisas que antes não era muito possível. O mundo se conectava mais a partir daquele instante.

O ambiente da escola torna-se então um lugar de fuga, pois a diversão fora dele é bem mais interessante. Uma prova adiada e a possibilidade de recuperação torna-se um drama existencial para um garoto dessa época. Na mesa de almoço, o pai cobra do filho dedicação maior na escola enquanto a mãe confia no que o rebento tem feito. Os diálogos encontram um timing e uma estranheza que dão ao filme uma força na construção desses personagens que criam um boato de bomba na escola para não terem que fazer a prova. Algo que acabam conseguindo, na medida em que a direção da escola acredita na história.

Esse tipo de atitude, conveniada aos trotes por telefone e as conversas e desejos juvenis encontram em Bomba uma grande expressão e humor para lidar com tudo isso. Os anos 1990 criaram um tipo de humor naqueles que foram jovens nessa época que nem sempre está presente em filmes que retratam personagens, situações e fatos desse momento. Bomba consegue dimensionar um pouco o que foram aqueles anos.

 

Filmes citados:

Bomba (2011/Francisco Franco)

 

*Visto na 7a Mostra de Cinema de Ouro Preto.

 

Filmes Citados:

Os Mortos-Vivos (Anita Rocha da Silveira, 2012)

Quando morremos à noite (Eduardo Morotó, 2011)

Memórias Externas de uma Mulher Serrilhada (Eduardo Kishimoto, 2011)

Bomba (Francisco Franco, 2011)

 

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