
por Leonardo Amaral
Marco Del Fiol tem uma intenção nesse seu média-metragem: fazer um filme de ficção que dê conta das relações e diversidades de alguns locais de São Paulo. O diretor cria, portanto, dois personagens que são assaz distintos em suas origens: Ki é um pianista e professor de canto coreano e Nicole é uma estilista judia que mora com a mãe. Estes personagens cruzam vários espaços da cidade para, ao final da narrativa, se encontrarem e, supostamente, começarem algum tipo de relação não muito usual. A intenção, como pode ser notada, é bastante válida. No entanto, a execução disso acaba esbarrando em algumas metáforas e tiques que não ajudam muito o resultado final.
Não existe em Segundo movimento para piano e costura um grande esmero de montagem que possibilite, por exemplo, que as narrativas cruzadas dos dois personagens seja algo interessante. A montagem dos filmes é muitas vezes mambembe e meramente funcional. Um dos piores exemplos disso ocorre em uma cena em que o personagem do pianista coreano toca piano em um salão e nesse mesmo instante há um ensaio de um coral lírico, ao mesmo tempo em que Nicole faz um desenho de um vestido para uma cliente da loja onde trabalha. Os planos que se sucedem são os da mão do pianista que se articulam com as mãos da desenhista, planos do coral e paisagens da cidade. Essa montagem se repete até o final do concerto e, de alguma maneira, remete a toda a tônica desse filme, um amontoado de ambientações que pouco dizem dos personagens e suas vontades dentro do filme. Nesse sentido, Segundo movimento para piano e costura se mostra quase sempre bastante superficial.
A exceção talvez seja a cena em que Ki recebe sua irmã Mi em seu apartamento e ela inicia uma discussão e um escândalo por conta do seu casamento que está prestes a ocorrer. Ela fala de suas frustrações em relação ao irmão e a algumas condições que se apresentam naquele momento. Ele tenta consolá-la e ambos se abraçam e cantam uma canção coreana. É uma cena bonita, filmada quase toda em um enquadramento aberto que termina nessa catarse. Se o filme se investisse mais desses momentos ao invés de se construir em diálogos muitas vezes insossos e auto-explicativos, Segundo movimento para piano e costura lograria mais êxito em sua intenção de retratar diversidades.
*Visto na 7ª Mostra de Cinema de Ouro Preto
Filmes citados:
Segundo movimento para piano e costura (2011/Marco Del Fiol)