

por Marcelo Miranda
Morto subitamente em agosto de 2011, aos 70 anos, o chileno Raúl Ruiz deixou um autêntico testamento cinematográfico como despedida de uma vida dedicada à realização de filmes. La Noche de Enfrente estava em montagem quando o cineasta faleceu e foi devidamente finalizado por sua equipe de pós-produção com rigor e cuidado. (Há ainda um outro filme de Ruiz já pronto e a ser exibido ao longo de 2012).
Sente-se a todo instante a presença muito forte de Ruiz, sua leveza e simplicidade no trato com a imagem atravessando cada um dos personagens, todos devidamente acariciados por ele. A nostalgia e a memória perpassam o filme, com elementos evidentemente autobiográficos que remontam ao exílio do cineasta de seu Chile natal para a França, após o golpe militar de Augusto Pinochet em 1973.
La Noche de Enfrente guarda semelhanças com qualquer bom relato de fundo memorialístico perpassado pela infinita possibilidade da imaginação e da invenção de lembranças. A exemplo de Proust e seu Em Busca do Tempo Perdido (o livro é referência explícita de Ruiz não apenas neste filme; ele já adaptou um dos tomos do monumento do autor francês, O Tempo Redescoberto), o cineasta revolve o passado para encontrar respostas sobre si, os outros e a própria função num mundo que vai permanecer após todos partirmos.
O alter ego de Ruiz é Don Celso (Sergio Hernandez) um senhor prestes a se aposentar (“na verdade eu sempre vivi como um aposentado”, dispara ele), cuja paixão de contar histórias só não é maior do que a criatividade em projetá-las mentalmente. Há uma mistura do que ele narra com o que ele viveu (ou acha ter vivido), entremeado por diálogos com piratas aventureiros e um pomposo Beethoven – numa cena, aliás, dois garotos levam o compositor à “nova maravilha” que é o cinema. “Como as pessoas são grandes!...”, diz ele.
O principal elemento dessa rememoração imaginativa é um neologismo de nome que invariavelmente vem à mente do personagem tanto como uma busca por seu significado quanto pela importância de ele se apegar a essa palavra. Uma espécie de “rosebud” de Cidadão Kane, seja como representação de um tempo que se foi e não volta, seja como catalisador de digressões mentais.
A morte em La Noche de Enfrente é uma realidade iminente, cada vez mais próxima, é a “noite que está à frente”, como diz o título, na certeza do personagem de que ele será assassinado. Sua convivência com as pessoas ao redor é permeada dessa “garantia”, e ele aguarda que ela logo aconteça pelas mãos de um terceiro. A forma como Raúl Ruiz encena, afinal, essa morte é a culminância de uma reflexão certeira e lúcida, liberta de amarras e tradicionalismos e mergulhando num comportamento de teatro do absurdo muito estimulante e cheio de símbolos surgindo organicamente no universo criado pelo diretor.
Após o monumental Mistérios de Lisboa, seu filme anterior, o chileno fez em La Noche de Enfrente algo menor, menos ambicioso, um adeus de quem viu e fez muito e entende perfeitamente quando e como interromper da melhor maneira uma trajetória pessoal e artística.
Filmes citados
La Noche de Enfrente (2012/ Raúl Ruiz)
Mistérios de Lisboa (2010/ Raúl Ruiz)
O Tempo Redescoberto (Le Temps Retrouvé, 1998/ Raúl Ruiz)
Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941/ Orson Welles)