

por Marcelo Miranda
Num movimento panorâmico, a câmera mostra soldados nazistas maltratando prisioneiros numa região rural da Rússia. Estamos na Segunda Guerra Mundial. Lentamente, a imagem revela a paisagem humana e natural do lugar; logo apenas escutamos as vozes das pessoas. Uma execução está em andamento. Na hora do ato final, a câmera chega à carcaça de algum bicho, provavelmente ali há dias. Vem o som da execução, fora de quadro. Tela preta.
A contundência do início de V Tumane (In the Fog), do ucraniano Sergei Loznitsa, é mantida ao longo das pouco mais de duas horas de projeção. Este filme sobre amizade, moral e honra é um drama de guerra em tom menor, no qual explosões e conflitos entre frentes de batalha abrem espaço para questões individuais de um grupo de homens do campo às voltas com a ocupação alemã. Loznitsa mantém o rigor formal e estético do anterior Minha Felicidade, desta vez fazendo menos um panorama de determinada realidade e estado de espírito para se aproximar de um microcosmo muito particular, marcado por um passado em comum entre os personagens que é modificado pela explosão da guerra e a selvageria necessária à sobrevivência.
Loznitsa segue como um encenador de primeiríssima linha, talvez um dos melhores em atividade no cinema contemporâneo. O cuidado nos enquadramentos, o tempo prolongado de cada plano-sequência e especialmente a precisão do corte e da passagem de uma cena à outra são elementos que fazem a experiência de se assistir a V Tumane algo de profundamente encantador enquanto experiência estética e muito exasperante como mergulho artístico. Isso é curioso de ser pensado a partir do que está sendo apresentado na tela. Em imagens na sua maioria pouco iluminadas, com silhuetas de personagens lutando contra a escuridão para ganharem algum contorno de luz, Loznista narra pouco a pouco a interação entre as pessoas que escolhe retratar.
Inicialmente, pouco ou nada sabemos do soldado da resistência que chega numa casa e leva em custódia um trabalhador. Ao longo da caminhada pela mata fechada, a verdade se revela ora em diálogos, ora em flashbacks que entram em cena sem aviso “prévio”, permitindo ao espectador montar o quebra-cabeça cuidadosamente desenvolvido no filme e sentir a exata desilusão dos personagens a cada nova etapa da jornada.
Há algo de muito característico no jeito russo de filmar, uma secura desesperadora que chega a recônditos limítrofes. Submeter-se a filmes como os de Andrei Tarkovski, Elem Klimov e agora Loznitsa, entre outros, é mergulhar na construção objetiva e nada redentora de uma narrativa pouco preocupada em aliviar tensões. A guerra é ao mesmo tempo pretexto e catapulta à reflexão proposta por V Tumane.
Se em Minha Felicidade sua ambição era a de captar a sensação de niilismo e gratuidade no trato com o outro presente na contemporaneidade do interior da Rússia, neste novo filme há um movimento de fora para dentro dos sentimentos. Em meio ao mata-mata proporcionado pela guerra, ainda sobra espaço para humanidade e dignidade, ilustradas especialmente por um corpo morto sendo carregado nas costas (imagem cinematográfica sempre representativa à noção do peso da honradez). Só não sobra espaço para a esperança, porque isso é algo que já se foi há muito, se é que já esteve presente para aquelas pessoas para além da neblina que as cobre por inteiro.
Filmes citados
V Tumane (2012/ Sergei Loznitsa)
Minha Felicidade (Schastye Moe, 2010 / Sergei Loznitsa)