

por Marcelo Miranda
A tão propalada adaptação do romance autobiográfico On the Road, de Jack Kerouac, circulou por anos nos EUA e foi parar nas lentes do brasileiro Walter Salles. O filme foi exibido na competição de Cannes 2012 sem muita empolgação. Fãs do estilo beat de Kerouac e da impetuosidade do escritor não deverão encontrar em Na Estrada muito do que tornou o autor famoso. O próprio Salles diz ter feito um longa sobre a geração beat antes de ela ser efetivada como tal. É o mesmo caminho assumido em Diários de Motocicleta como sendo o de mostrar Ernesto Guevara antes de se tornar o revolucionário Che.
Esse tipo de “justificativa” está cada vez mais presente nos trabalhos de Salles e, de alguma forma, parece frear quaisquer outros tipos de pretensões que eles pudessem ter. Na Estrada tem produção impecável, belas imagens, lindos planos de paisagens e corpos e tudo está devidamente colocado no lugar certo. Talvez por isso soe tão pouco fervilhante. O desenvolvimento da caminhada dos personagens, mesmo com algumas ousadias e subversões do status quo social (uso de drogas, prática de sexo grupal, abandono familiar), não transmite o ardor dessas situações.
De fato, fica um gosto de coragem mais dos personagens do que do filme. Para falarmos apenas do sexo – elemento fundamental na trajetória do trio central, com alguns acréscimos de outros aventureiros ao longo do caminho –, tudo é filmado com a devida assepsia e iluminação devida para que a imagem seja mais bonitinha do que a ação em si. Kristen Stewart tem uma cena de masturbação dupla. Parece forte, mas não é, porque Salles a filma de uma maneira apenas “divertida”. Se Stewart estivesse dando tapinhas nas pernas dos rapazes, o efeito seria o mesmo. Em outro momento, um homem transa com outro, e ao que se assiste são os dois vistos por uma fresta, corretamente testemunhados da barriga para cima.
Situações assim pululam pelo filme em tudo no que o trio se envolve, o que passa a chamar a atenção pelo aspecto da correção e da busca pelo “bom-gosto”. Existe uma carga mais evidente de emoção no processo de aprendizado pessoal do protagonista, Sal Paradise (Sam Railey), porém o filme logo faz disso uma “lição de vida” que tira o potencial de aquilo soar orgânico ou simplesmente acontecer. A voz off (reproduzindo trechos do livro original) dá a devida explicação aos sentimentos de Paradise.
A assepsia tende a ser uma característica do trabalho de Walter Salles, o que por vezes tem suas funcionalidades dentro de determinados contextos e maneiras de colocar elementos e pessoas em cena. No caso de Na Estrada, alguma coisa está desencaixada. O filme que nos é exibido mostra uma coisa, mas o que acontece de verdade parece ser outra coisa que não nos é permitido olhar. Há nisso a vontade aparentemente consciente de “limpar” a imagem, de “poupar” os olhos de quem assiste e de fazer da poesia algo que seria apenas limpo demais. Um retorno ao filme deverá ser necessário, já depois desta primeira impressão, para tentarmos captar alguma segunda camada ali escondida e perceber, talvez, se ela quer se impor e não consegue ou se é apenas e devidamente sufocada.
Filmes citados
Na Estrada (On the Road, 2012/ Walter Salles)
Diários de Motocicleta (The Motorcycle Diaries, 2004/ Walter Salles)