

por Marcelo Miranda
Um dos diferenciais dos dois filmes até então conhecidos do australiano John Hillcoat era o tempo alongado da ação dentro de um ambiente inóspito que parecia pedir que esse tempo não fosse tão estendido. A sobrevivência e os embates em A Proposta e A Estrada, afinal, dependiam da urgência com que os personagens transitavam pelos espaços, fosse uma paisagem inóspita em meio ao Oeste da Austrália, fosse num isolamento causado pelo fim do mundo iminente e pela suspeita de que alguém perigoso pode estar sempre à espreita em busca de carne humana. A questão em Hillcoat sempre foi maior do que simplesmente retratar seus errantes nessas situações. Em ambos os filmes, importava proporcionar o respiro que antecedia a algum momento definitivo, único, singular e passível de permitir ou não a continuidade da vivência. Na essência, A Proposta e A Estrada são filmes sobre a morte que invariavelmente vai chegar – e, a partir dessa certeza, resta saber quando e como ela vai ocorrer dentro de uma configuração de mundo incontrolada e incontrolável.
A sensação de “tensão urgente” intercalada pelo nervosismo da espera permanece no terceiro longa de Hillcoat, Os Infratores (Lawless), competidor pela Palma de Ouro em Cannes 2012. Porém, algo mudou. A morte ainda é uma presença, mas não tão definidora de rumos; os tempos e respiros existem, mas em proporção menor; a ação e a desforra fazem parte da realidade do filme (estamos nos anos 1930 nos EUA, em plena Lei Seca), e os personagens sabem que dependem apenas de si mesmos para enfrentarem autoridades tão corruptas quanto eles. Porém, a questão toda acaba por se resumir num constante vai-e-vém de acertos de contas que em determinado momento levanta a dúvida se há algo a realmente mover aquelas pessoas com um pouco mais de consistência.
Não se busca, aqui, o autorismo puro e simples como um clichê. Os Infratores é um filme de ação policial certamente acima da média do lixo hollywoodiano que nos chega constantemente. O elemento maior é que, se John Hillcoat nos movia por ser um nome especial, não só “acima da média”, então o que nos chega neste seu filme, apenas genérico e bem-acabado, não o torna mais notável do que um executor de bons projetos. A logomarca gigante de abertura dos créditos (“A Weinstein Company Production”) dá a pista (solução?) para essa sensação de vazio que surge ao final. Não é segredo o poder dos irmãos produtores.
Mesmo o teor brutal de sanguinolência em Os Infratores parece milimetricamente modelado para causar um choque imediato que se esvai logo na cena seguinte, até vir outro momento similar que igualmente fica para trás. É como se a violência exacerbada também tivesse algo de timidez, de pudor, de banalização por sua utilização, diria até da obrigação de ela existir daquele jeito no universo por onde o filme transita. Na prática, o sangue e os corpos dilacerados de Os Infratores beiram o anódino – mesmo tendo uma estética abertamente vinculada aos grandes Sam Peckinpah e Arthur Penn e com pelo menos uma cena que remete à marcante abertura de Senhores do Crime, de David Cronenberg.
Há de se destacar com mais entusiasmo a presença muito interessante de Guy Pearce, ator já em sua terceira colaboração com Hillcoat e aqui em chave debochada e perversa. Talvez seja o único personagem masculino (um policial cheio de empáfia e trejeitos afetados) que provoque algum tipo de reação diferenciada na paisagem de tipos apresentados por Hillcoat – que trabalha, aliás, com roteiro do músico Nick Cave, autor também de A Proposta. Entre as mulheres, Jessica Chastain, cuja expressividade vem sendo construída em escala ascendente desde A Árvore da Vida e O Abrigo, é a imagem da atitude e da coragem num filme de machos um tanto quanto indiferentes, representados pela figura ascética e resmungona encarnada por Tom Hardy.
Paradoxalmente, Hillcoat demonstra outro tipo de pudor ao tratar essa mulher, tirando da imagem filmada dela a degradação e “feiura” que se paga para permanecer incólume em Os Infratores. Na verdade, Chastain, inadvertidamente, é a melhor imagem metafórica do filme, sua beleza e magnetismo escondendo chagas que Hillcoat opta por apenas insinuar. O desfecho artificialmente conciliador confirma a impressão, inclusive pela utilização de uma piadinha recorrente cujo efeito é mais reforçar as fragilidades do que legitimá-las como efeitos das escolhas.
Filmes citados
Os Infratores (Lawless, 2012/ John Hillcoat)
Senhores do Crime (Eastern Promises, 2007/ David Croneberg)
A Proposta (The Proposition, 2005/ John Hillcoat)
A Árvore da Vida (The Tree of Life, 2011/ Terrence Malick)
O Abrigo (Take Shelter, 2011/ Jeff Nichols)