
Querença
por João Toledo
O filme de Iziane, enquanto projeto de cinema, lida com uma série de referências clássicas da cinematografia americana, mas surge no cenário da produção brasileira atual como um objeto misterioso. Trata-se de um universo cada vez menos explorado, este onde tudo está em função da narrativa, onde a câmera, sempre onisciente, se posiciona moralmente diante da cena. O filme de época transporta alguns dos pressupostos do western para o sertão, para lidar com o feminino em meio a um ambiente que é sempre revisitado pela história pela perspectiva masculina. A imagem tem um tipo de tratamento que desloca a imagem de seu referente real e a lança para um universo codificado como ficção. Imergimos em um ambiente que já não faz parte do mundo. Acompanhamos essa história como se ela não tivesse implicações no nosso mundo, como se estivesse presa a um universo fabular e distante. No entanto, somos surpreendidos quando nos vemos diante do dilema que se apresenta àqueles homens de ação.
A mulher, vista naquele contexto como propriedade do homem, é vértice de uma relação que enseja uma discussão de moral obtusa. A honra dos homens dita um ato bárbaro, perpetuando uma lógica que ainda hoje encontra espaço no nosso convívio social. Nesse sentido, o filme puxa nosso tapete quando nos oferece uma imagem de violência que nos devolve toda a brutalidade do real. A imagem-síntese da beleza romântica, clichê apoteótico do belo – o pôr do sol –, se apresenta aqui subvertida. Nesse momento, todos os símbolos fáceis se diluem. O belo é a máscara do horror.
* Visto na 15ª Mostra de Tiradentes
Memórias externas de uma mulher serrilhada
por João Toledo
O filme de Eduardo Kishimoto propõe um desafio angustiante de direção, que é o de abrir mão do olhar pessoal para propor um olhar crítico social, deslocado da subjetividade artística. Nesse sentido, todo o filme se amolda sobre formas objetivas que emulam estéticas diversas. É muito corajoso esse ato de abrir mão, que pressupõe a importância e a força desse gesto criativo do qual o filme se alimenta.
Existe uma sofisticação narrativa muito evidente no filme. A construção se dá inteira de maneira indireta. A história se configura aos poucos, à medida que fragmentos virtuais nos oferecem dados dessa meta-narração. Trata-se de uma lógica que reproduz perfeitamente o tipo de relação mediada que vivemos hoje, onde tudo atravessa uma série de processos. O filme diz de uma maneira muito particular e forte da forma como essas tecnologias não só atravessam nossas vidas, mas condicionam nossas formas de ser e se relacionar. Já faz tempo que, no nosso regime capitalista, ser é ter, e essa lógica resvala na aquisição das imagens, nessa posse e domínio do mundo, que é inteiro tornado objeto de fetiche das perversões particulares. O sujeito, colocado nesse estado de potência produtiva, se impõe violentamente sobre o mundo, escondido sob o véu da distância do registro. Ao final, testemunhamos a apoteose da barbárie contemporânea. A imagem que fere, esse memorial estilhaçado do mundo, na qual tudo se distorce em nome de um vão prazer.
* Visto na 15ª Mostra de Tiradentes
Encontro com São João da Cruz
por Nísio Teixeira
Em uma sessão com bons filmes, a obra de Daniel Ribeiro Duarte não foi exceção. O curta é um mergulho no universo da escritora portuguesa Maria Gabriela Llansol, falecida em 2008, a partir do exame de um dos momentos iniciais da obra da escritora: o referido encontro com a obra de São João da Cruz, religioso e poeta carmelita espanhol do século XVI e seu impacto na trilogia Geografia dos Rebeldes, que se inicia com o Livro das Comunidades, sendo seguido pelo volume A Restante Vida – um sugestivo título para o impacto dessa influência nos anos seguintes à obra de Llansol.
Alternando fotografias, trechos de poemas, anotações, capas de livros e imagens retiradas da casa onde viveu a escritora em Sintra, o filme articula, em delicada e sensível montagem, a referência dessa influência e, por consequência, a obra de Llansol. Essa articulação acontece não só a partir da perspectiva da alternância entre fotos e imagens, mas também entre sons e declamações da narradora, bem como de uma interessante exploração de sua construção também dentro do quadro, em que capas de livros, leituras e imagens também são exploradas em primeiro, segundo e até terceiro planos.
Tanto para os iniciados como para os neófitos, Encontro com São João da Cruz não só revela esse contato importante de Llansol com o poeta e místico espanhol, mas também funciona como uma boa imersão no universo da escritora – não só no sentido de iluminar e apontar alguns caminhos, mas, numa afirmação que beira um curioso paradoxo, deixar clara a importância de movimentos lacunares e do silêncio, aspectos igualmente caros à obra da artista.
* Visto na 15ª Mostra de Tiradentes
A Mulher no Alto do Morro, de Cássio Pereira dos Santos
por Thiago Macêdo
O cineasta mineiro Cássio Pereira dos Santos entra pela segunda vez consecutiva na Mostra de Tiradentes, agora em competição na Mostra Foco, depois de ter exibido no ano passado, na Mostra Panorama, seu documentário A Boate Azul (texto aqui). Cássio retoma a cidade de Cruzeiro de Fortaleza, no interior de Minas Gerais, como espaço de ambientação deste novo documentário, A Mulher no Alto do Morro. Na verdade, cabe relativizar o sentido do documentário no filme de Cássio, como ele próprio costuma fazer. Existe nos dois projetos a opção de acompanhamento de uma realidade, mas ao mesmo tempo essa ação é realizada através de recursos expressivos naturais das ficções, como propostas de encenação ou definição mais bem demarcada das ações. No caso de A Mulher no Alto do Morro, o destino final é antecipado pelas ações primárias, que terão no percurso estabelecido pelos personagens do filme, o trabalho de documentação da interação entre personagem e espaço.
A mulher que dá nome ao filme será o destino final da trajetória de um grupo de crianças que começa o dia fazendo, em um trabalho colaborativo, lanternas coloridas de papel de seda. Estas lanternas iluminarão o caminho até a casa da mulher, até então desconhecida pelo público, mas pretensamente familiar às crianças e ao cineasta. No alto do morro mora dona Santa Serrana, que conta causos diversos sobre um passado que remota um tempo muito anterior ao nascimento de seus ouvintes. Existe no fascínio da captação da fala de dona Santa e na atenção das crianças em ouvir seus relatos, um teor familiar, como se aquela ação fosse cara ao próprio Cássio, trazendo uma nostalgia de sua própria infância, vivida naquela mesma cidade. A união entre essa memória passada e o olhar inocente das crianças, em uma dinâmica constante com o espaço que as rodeia, proporciona ao filme uma potência singela, ainda mais forte que se fosse proposta por depoimentos diretos, vindos de uma estrutura mais “clássica” do documentário.
* Visto na 15ª Mostra de Tiradentes
Filmes citados:
Querença (2011/Iziane Filgueiras Mascarenhas)
Memórias externas de uma mulher serrilhada (2011/Eduardo Kishimoto)
Encontro
com São João da Cruz (2011/Daniel Ribeiro Duarte)
A Mulher no Alto do Morro (2011/Cássio Pereira dos Santos)
A Boate Azul (2010/Cássio Pereira dos Santos)