Programa Brasil V (BRA V): Vó Maria, O Último Dia, Iaia et Leni, Irene, As Aventuras de Paulo Bruscky e Para eu Dormir Tranquilo

Vó Maria, de Tomás von der Osten

por Ursula Rösele

Fazer um bom filme com o tema “memória” como pano de fundo é tarefa árdua. Em Vó Maria Tomás von der Osten recorre a uma fotografia antiga de uma mulher que foi avó, bisavó e já é tataravó na circunstância em que esta foto foi trazida de volta à memória da família. Vemos inicialmente uma parte da fotografia ainda difícil de reconhecer, numa lembrança construída em fragmentos, através da palavra e da imagem. À medida que este rosto vai se formando, a fala sobre esta mulher chega a um ponto em que não há mais muito a dizer da pessoa retratada (visto que quando o rosto começa a aparecer por inteiro é a sua tataraneta quem fala) e se transforma em uma conjectura sobre as impressões da própria foto. Neste momento é a ontologia da imagem o que importa, é a potência do rosto, o punctum, a imaginação de quem vê que encontra lugar para se expressar.

*Visto na 14ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

O Último Dia, de Christopher Faust

por João Toledo 

O Último Dia é um filme curioso, desses que te desarmam aos poucos. Não tem nenhuma articulação estética que impressiona ou chama a atenção o suficiente para denotar uma consciência extrema de seu processo. Ao mesmo tempo, nunca deixa de ser orgânico, ao ponto de parecer inclusive um tanto espontâneo. Jovens amigos se encontram em um parque e se despedem de um deles, que está de mudança para São Paulo. As animadas angústias dos jovens, que disfarçam de festa o agonizante peso das muitas despedidas que ali sucedem, vão aos poucos nos deixando à vontade em meio àqueles garotos cheios de vida, cheios de afetos e conflitos. É realmente curioso que, em meio à pueril abordagem e ao gesto simples de acompanhar os acontecimentos com a câmera na mão – sem fazer disso um efeito –, o filme revele suas diversas sutilezas, que habitam a esfera do não-dito. A tensão entre o amigo e a garota, fantasmas de acontecimentos passados; o descompromisso e irresponsabilidade do amigo que parece ainda preso à vontade de permanecer naquele universo; a não resolução de quaisquer dos conflitos naquele fim de tarde. Um adeus sem final. Uma despedida; inevitável e ao mesmo tempo impossível. 

* Visto no 13o Festival Internacional de Curtas de BH

 

Iaia et Leni, de Eugenia Castello

por Thiago Macêdo

Os signos visuais de Iaia et Leni remetem imediatamente à infância. Duas garotinhas ruivas fazendo estripulias em um jardim, durante um chá no fim de tarde, filmadas por uma câmera de Super 8. Porém, um elemento estranho propõe uma ruptura na idéia compartilhada da observação lúdica de uma brincadeira de criança: os pés de uma mulher, calçando um par de sapatos antigos, que são a única parte do corpo dela que é possível ver, pois o resto está soterrado por folhas secas. De quem seria aquele corpo, quem seriam aquelas garotas que se lambuzam de chantilly e morangos, uma disposta à frente da outra, quase como um reflexo absoluto? O filme de Eugenia Castello, ainda que montado em tom lírico, deixa a impressão de ser um pesadelo de um tempo passado, rememorado na figura das duas garotinhas travessas.

*Visto no 13º Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte

 

Irene, de Victor Nascimento e Patricia Galucci

por Thiago Macêdo

Irene é herdeiro direto do cinema da argentina Lucrecia Martel. As referências começam no desenvolvimento da personagem principal, uma senhora que vive isolada em uma casa, muito provavelmente em uma cidade de interior, que vê sua rotina alterada pela visita da neta. Irene é quase indiferente à existência da neta (o que parece ser recíproco), mas a sexualidade latente da garota, exposta nas brincadeiras com a amiga que a acompanha, termina por despertar em Irene sua própria pulsão sexual, supostamente reprimida.

Em um plano longo, de aproximadamente seis minutos, somos levados a observar Irene reconhecendo seu corpo, tocando a si mesma e tendo um orgasmo diante da câmera, que se mantém fixa o tempo todo. Esse enquadramento também parece extraído de filmes como O Pântano, assim como a opção por uma fotografia muito próxima dos personagens, praticamente “sufocando” os mesmos. Todos eles são vistos de modo fragmentado, como se fosse necessário desvendar cada parte para se chegar ao todo.

A impressão claustrofóbica deixada por estas opções é um modo de interpretar a vida de Irene, que vive praticamente isolada do restante do mundo. Poderia se concluir de aquela senhora está perdida nas próprias limitações de sua vida. Porém, este isolamento é ambíguo, pois a personagem parece mais serena quando a neta finalmente abandona o seu espaço do que quando ainda estava presente. Irene segue um caminho pouco ortodoxo na abordagem da velhice, expondo a sexualidade de sua personagem e a construindo como uma mulher mais fria e imperfeita do que se esperaria da figura de uma avó tradicional, mas também mais humana.

*Visto no 13º Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte

 

As Aventuras de Paulo Bruscky, de Gabriel Mascaro

por João Toledo

Gabriel Mascaro, depois de Um Lugar ao Sol e Avenida Brasília Formosa, dois longas-metragens que em catálogos de festivais têm circulado sob o rótulo de documentários, faz este que é seu mais complexo e mais estranho filme. O curta-metragem, uma espécie de documentário de animação, novamente traz duas de suas questões mais caras: em primeiro lugar, a busca por escolher um espaço que necessariamente configura as formas de vida que ali habitam. E, em segundo, mentir; fazer chacota de sua face documental, influir nos rumos do filme nos confundindo quanto à sua interferência no âmbito narrativo do filme, nos dificultando a relação de acesso a uma suposta verdade.

No entanto, ao contrário dos outros filmes, a escolha do lugar não se configura como uma decisão de cunho sociológico; até porque não se trata de um lugar físico, mas abstrato, um lugar que compreende todo tipo de influência criativa na base de sua construção. O espaço é tornado reflexo dos aspectos internos do personagem retratado, usado como ferramenta expressionista, a explorar externamente o interior do artista que dá título ao filme. Nesse sentido, a escolha representa uma inversão saudável no tipo de abordagem de Mascaro, pois ao invés de buscar no espaço social as questões de seus personagens, busca agora neles as questões que, elas próprias, configuram o espaço por onde ele circula. Ele vai antes no homem que em seu lugar social.

Outra grande diferença, na mentira documental, é que Gabriel se insere no filme, se tematiza também. Ele sempre esteve em seus filmes, como uma incisiva mão a guiar todos os rumos, mas aqui se revela, se inclui, se permite parte dessa criação do imaginário do outro. As aventuras de Bruscky e Mascaro se passam em um mundo virtual chamado “Second Life”, onde o artista contrata o cineasta para fazer um documentário sobre seu olhar para a arte. O que se segue é um meta-documentário com lastro ficcional que vai produzindo, dentro dessa plataforma virtual, em meio às suas possibilidades absurdas e limitações técnicas, uma mise-en-scène muito rigorosa, de controle e inventividade. O olhar para a arte passa muito por essa liberdade de suporte e por uma percepção deslocada de qualquer tradição. E essa reinvenção do mundo a partir das possibilidades de um programa virtual normalmente associado à alienação, ao embotamento e à fuga, só fazem dessas imagens mais potentes e estranhas, pois reconfiguradas por uma perspectiva estética muito própria, que consegue aliar uma forte verve irônica às belezas mais banais do mundo. 

* Visto na 14ª Mostra de Cinema de Tiradentes

 

Pra Eu Dormir Tranquilo, de Juliana Rojas

por João Toledo 

Juliana Rojas, aqui, dá prosseguimento às pesquisas recorrentes em sua cinematografia; o interesse pelo sobrenatural se impondo sobre o cotidiano, o olhar para a classe média, para as relações familiares, tudo isso filtrado por uma contenção narrativa e uma mise-en-scène mínima. Dessa vez, mais do que ter o estranho naturalizado pela encenação, temos ele humanizado através de gestos de afeto. O sobrenatural corporificado, e inserido no filme sob a chave de uma mitologia, de um diálogo mais próximo com o cinema de gênero. Ainda que usado nesse diálogo com finalidade ora funcional, acentuando tensões e criando suspense, o que a presença desse corpo estranho tem de mais forte é sua ternura na relação com o garoto. A afetividade familiar ambígua, que está presente nos curtas anteriores, aqui é personificada pela figura da babá, esse ser estranhamente maternal. A relação dos dois cria uma bonita e conflituosa dialética entre a fábula infantil e o cinema de horror. 

Tudo parece tratado com muito cuidado, e sob o calculado rigor da câmera impassível de Juliana. A harmonia de uma família é mais uma vez perturbada, mas a sensação dessa vez é de que, em nome de uma certa placidez e harmonia entre o menino e sua babá, algo de essencial escapa. Algo que nunca se consolidava em uma transformação evidente a ponto de abalar a relação de fixidez da câmera, mas que insinuava sempre a força de uma transformação interna. Aqui não parece haver tempo para que essa sensação nos atravesse. Falta, talvez, uma certa angústia diante da impossibilidade da plenitude daquilo, talvez apenas um tempo a mais no rosto desses personagens, pra que nos sintamos mais próximos e mais cúmplices de seus segredos. A sensação é de que tudo passa um pouco rápido demais. Um filme complexo que parece desejar-se pueril, infantil, e termina por sabotar muito de suas forças. Ainda assim, está longe de ser um filme qualquer. 

* Visto no 13o Festival Internacional de Curtas de BH 


Filmes Citados: 

Vó Maria (2010/ Tomás von der Osten)

O Último Dia (2010/Christopher Faust)

Iaia et Leni (2011/Eugenia Castello)

Irene (idem, 2011/Victor Nascimento e Patricia Galucci)

O Pântano (La Ciénaga, 2003/Lucrecia Martel)

As Aventuras de Paulo Bruscky (2010/Gabriel Mascaro)

Pra Eu Dormir Tranqüilo (2011/Juliana Rojas)

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