Programa Brasil III (BRA III): Eu Não Quero Voltar Sozinho, Uma Primavera, O Céu no Andar de Baixo e Praça Walt Disney

 

Eu Não Quero Voltar Sozinho

por João Toledo 

Eu Não Quero Voltar Sozinho é um filme correto sob todos os pontos de vista; clássico como ninguém mais sabe ou quer ser, calculado com régua, decupado com precisão, concatenado num regime de condução do olhar como se o espectador fosse tão cego quanto seu personagem. Não nos é dada muita autonomia; parte-se do princípio que, ainda que consigamos caminhar sozinhos – como seu personagem – talvez o espectador não queira voltar sozinho. Enquanto narrativa, funciona como um relógio, e envolve o espectador em sua guia de forma bastante eficaz, sem permitir muita deriva. 

No entanto, esse envolvimento é um tanto apático e despersonalizado do ponto de vista cinematográfico, não tem nada de próprio, ou de particularmente pulsante enquanto imagem – por um lado, o filme não é tomado pela pretensão do artista que deseja mais atenção para si que para o sujeito da cena, mas por outro aposta-se demais na força da narrativa, naquilo que está por trás do cálculo cinematográfico. O carisma dos atores torna a experiência quase sempre agradável e verdadeira; nos envolvemos com eles, com essa intimidade que se tateia com dificuldade. Mas talvez o elogio ao filme se cumpra muito mais pela sensibilidade no tratamento de uma temática que necessariamente por méritos de ordem estético-narrativa. Claro, são as escolhas cinematográficas condicionam a sensibilidade do filme, e a questão talvez seja justamente essa: curva-se demais ao espectador, à necessidade de ser universalmente acessível, de ser sempre correto de todos os pontos de vista, sem espaço para contradições dos personagens, contradições visuais e narrativas. Resta um filme impecável. E genérico. 

* Vistos no 13o Festival Internacional de Curtas de BH

 

Uma Primavera, de Gabriela Amaral Almeida

por Thiago Macêdo

Um querido tio costumava dizer que a cada vez que ele passava um tempo sem ver os sobrinhos e depois os encontrava era como se estivesse se deparando com estranhos. Segundo ele, um dia chegou em casa e isso ocorreu com seus próprios filhos, “aquelas criaturas bizarras”, como dizia. Os filmes de Gabriela Amaral Almeida costumam serem pontuados por seres estranhos, de atitudes artificiais, gestos mecânicos, sentimentos ambíguos. Uma Primavera abriga alguns desses personagens, que podem ser prontamente identificados pela câmera, mas é realmente conduzido pela atitude de uma personagem supostamente naturalista, “convencional”, que é a Lara, a garotinha de 13 anos que vai passar o aniversário ao lado da mãe, num piquenique no parque. Porém, Lara e seu amadurecimento em curso são os mais absurdos dos seres de Uma Primavera.

No caso da narrativa do filme, a surpresa se dará na postura da mãe em relação ao sumiço inexplicável da filha, durante o passeio. Enquanto somos levados a presenciar e compartilhar o desespero da mulher, gradativamente é estabelecido no filme, sob a forma de inúmeros elementos narrativos, o limite finíssimo que separa a realidade da fantasia, o que é fato do que é imaginado, sensorial, absurdo. Uma Primavera, talvez ainda mais que Náufragos ou A Sutil Circunstância (filmes anteriores de Gabriela, dirigidos em parceria com o fotógrafo Matheus Rocha), se ergue como uma obra de realismo fantástico, pois o que é colocado para a platéia como conflito real só pode ser plenamente experimentado na imersão em seus elementos que ressaltam o que não pode ser visto em cena, mas sugerido pela mise-en-scène e captado pelo espectador. Quanto mais angustiante se torna a busca pela filha, mais a câmera varia entre planos gerais e a instabilidade dos planos que seguem a mãe; mais o ambiente se torna menos civilizado, mais selvagem e desconhecido. E essa busca se revela, acima de qualquer coisa, uma inserção em meio ao desconhecido, ao que amedronta, mas que é inteiramente natural.

Lara está crescendo e junto deste fato, a perspectiva da mãe em relação à filha precisa passar também por um processo de amadurecimento. É um constante exercício de percepção do outro, possibilitado somente por conta do entendimento de si próprio. É isso que as personagens de Uma Primavera fazem ao longo de seu passeio, que mais que refletir uma tarde, reflete uma época, o passar do tempo, o curso natural da vida (que não obstante se encontra constantemente ligado à morte, como mostrado no pássaro caído do ninho, morto entre as folhas secas de uma árvore). Para uma mãe apavorada por não poder cumprir seu papel básico, a nova idade da filha traz um conforto agridoce na conclusão de Uma Primavera, mas que é perpassada pela impressão de que muito mais medo há de vir pela frente, à medida que cada vez mais essa estranha for sendo criada dentro de sua própria casa. Como todos os jovens, as “criaturas bizarras” que tanto surpreendiam o meu tio.

*Visto no Paulínia Festival de Cinema 2011

 

O Céu no Andar de Baixo, de Leonardo Cata Preta

por Thiago Macêdo

A utilização da narração, seja por um narrador em primeira ou terceira pessoa, pode ser um elemento cinematográfico interessante, desde que o desenvolvimento da percepção do filme não esteja ligado exclusivamente a ela. Quando um filme propõe ser guiado por um narrador, parece mais eficaz para a riqueza da narrativa que ele não necessariamente pontue todos os momentos da obra, justamente para que o didatismo seja evitado. Todo extremo é prejudicial, pois é extremo e não permite a flexibilidade e, muitas vezes, a razão. O personagem Francisco, na animação O Céu no Andar de Baixo só pode olhar ou para o céu, ou para o chão, por conta de um problema de nascença. De certo modo, o diretor estipula que seu filme só olhe para um extremo, por conta do emprego excessivo e extremamente piegas da narração.

O esmero com o tratamento do traço, uma sofisticação menos óbvia que a maior parte dos filmes animados que vemos no mercado, é notável e eleva o filme a um patamar de maior relevância artística, neste quesito. A decupagem também proporciona bons momentos, com movimentos de câmera que se aliam à singeleza que a história pretende passar. Soluções como os pés falantes como reflexo dos rostos das pessoas que os suportam, ou a própria união das poucas imagens de ação real com o restante animado são opções acertadas do realizador, pois funcionam bem como alicerce para um todo narrativo que é capaz de ligar a evolução do filme de modo eficaz e mais impressivo. E é justamente por conta disso, de um bem maior do cinema baseado pela construção imagética acima do discurso da palavra, é que o “caminho” enunciado constantemente durante o filme acaba deixando de lado a potência eventual que ele poderia alcançar.

*Visto na 14ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

Praça Walt Disney, de Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira

por Ursula Rösele

Mais uma vez na Mostra de Tiradentes deste 2011 vemos o olhar que tem sido dirigido a Recife (PE) através de diferentes – e instigantes –realizadores pernambucanos que vêm problematizando as situações de verticalização que a cidade enfrenta atualmente e alguns paradoxos que esta ocorrência provoca em um local praiano que, ao que parece, vem perdendo sua identidade ao longo dos anos. Kleber Mendonça Filho, crítico e diretor (presente no cinema tanto em suas produções e contribuições críticas quanto em sua participação e apoio à realização independente do Recife), traz a cidade para suas duas últimas obras (Recife Frio e Som ao Redor, este ainda em fase de montagem), assim como Gabriel Mascaro (Um Lugar ao Sol e Avenida Brasília Formosa).

No bairro Boa Viagem, localizado próximo ao mar, uma praça chamou a atenção dos diretores de Praça Walt Disney, que inclusive dá nome ao filme. Composta de pequenos brinquedos coloridos, a praça é rodeada por prédios e serve de rotatória no trânsito do bairro. Pinheiro e Oliveira constroem uma espécie de documentário ficcionalizado: primeiro vemos o mar e diversos planos rotineiros de moradores de cidades praianas. Perto da praia um elemento vem quebrar a normalidade do registro: diversas bolas coloridas estão presas em uma rede formando o rosto conhecido de Mickey Mouse, primeira criação de Walt Disney. Há um efeito surrealista implícito, de um personagem que de certa forma simboliza a cultura americana pelo viés lúdico, mas também representa uma invasão capitalista que, como sabemos, influencia praticamente todo o planeta. O rosto de Mickey vem chegando à superfície à medida que as ondas batem sobre ele, num movimento que não influencia em nada o comportamento dos habitantes, que seguem seu dia de praia normalmente.

Vamos então à cidade, à praça que dá nome ao filme. Sutil, passa quase despercebida pelos passantes – uma espécie de metáfora de uma invasão já tão deflagrada que virou parte da rotina. O filme, porém, pelas suas inúmeras possibilidades de mise-en-scène, reconfigura este local a partir de elementos como a música e a montagem de planos que exploram a ironia que a nomenclatura desta praça evoca através de nossa relação imaginária com a Disney – construída durante diversos anos por ser um lugar que “vende” literalmente a promessa de uma magia que, como sabemos, esconde um ideario problemático da lógica capitalista.

Enquanto no mar o rosto de Mickey invade o espaço, em outro lugar, não sabemos se distante ou próximo dali, um homem puxa em sua canoa outra rede repleta de brinquedos infláveis – dispostas sem nenhum formato específico, como o Mickey da praia. Temos três espaços conjugados pela montagem de Pinheiro e Oliveira, que, de diferentes maneiras, parecem tanto ameaçados quanto ameaçadores: ao mesmo tempo que denunciam uma ausência do sentimento e do sensível no mundo atual, trazem também uma possibilidade de reflexão através da utilização do sonho, por mais que isso possa significar tanto um pesadelo quanto um devaneio bom.

O último plano de Praça Walt Disney surge como o símbolo maior daquilo tudo, o lugar que ainda tateia as regalias desse universo capitalista (e é tragado por ele ao mesmo tempo) tomado pelos Mickeys da cidade: ao som da canção que talvez só não vença “Garota de Ipanema” em termos de número de execuções,  “Aquarela do Brasil” invade a tela enquanto a câmera entra em um barracão durante um plano sequência contundente que vem observar seus desgastes; e os seus adultos e infantes aqui representados por um país que ora os abarca, ora os abandona por completo.

*Visto na 14ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

Filmes Citados:

Eu Não Quero Voltar Sozinho (2010/Daniel Ribeiro)

Uma Primavera (2011/Gabriela Amaral Almeida)

O Céu no Andar Debaixo (2010/ Leonardo Cata Preta)

Praça Walt Disney (2010/ Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira)

Um Lugar ao Sol (2009/Gabriel Mascaro)

Avenida Brasília Formosa (2009/Gabriel Mascaro)

Recife Frio (2009/Kleber Mendonça Filho)

Som ao Redor (em fase de finalização/Kleber Mendonça Filho)




 

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