
Ovos de Dinossauro na Sala de Estar, de Rafael Urban
por João Toledo
Ovos de Dinossauro na Sala de Estar não é um filme qualquer. Em parte, porque Ragnhild Borgomanero, a personagem do filme, definitivamente não é uma pessoa qualquer. Mas, em grande medida, a raridade do filme está em compreender a complexidade de sua aparente singeleza. É Possível se prender aos artifícios formais e passar frases dizendo o quanto há um rigor de quadro, composição fotográfica e cenográfica do plano, e de como sua estrutura dá conta, não apenas abrigar confortavelmente a personagem, mas traduzir um certo estado de fossilização de um ambiente que, apesar de recheado de dados do mundo, parece estar fora dele, confortavelmente esquecido em uma realidade paralela – mundo de memórias? Todos estes são dados do filme, e certamente estruturam a narração, dão peso e vida às lembranças daquela mulher, nos guiam o olhar ao mesmo tempo nos deixando livres para vagar por entre a memorabilia dessa casa/museu.
Também é possível chamar a atenção para a estruturação da narrativa do filme, envolvida de uma elegante e sintética explanação, composta por sua personagem com rigor didático de uma visita guiada. O filme reproduz na narrativa essa lógica de um tour, se pauta, plano a plano, pela completude das informações (os planos têm início, meio e fim), ele se reconhece entrando em um terreno incomum, permite-se apalpar com cuidado os temas e objetos: delicadeza diante de uma matéria frágil.
É ainda possível pensar no gesto documental do filme como uma declaração de descaso diante da idéia de pureza que habitualmente ronda a intenção de registro do “real”, cuja lei é ser espontâneo e pouco mediado. Rafael compõe o filme como quem compõe cuidadosamente uma enciclopédia de gestos, de artefatos e de afetos que sua personagem nos oferece em sua casa. A interferência surge ali, menos para cercear nossa forma de olhar para aquele mundo, e mais para encontrar a justa medida de representação de uma personagem que talvez não se dê no plano da espontaneidade. Seria, talvez, uma traição demandar isso dela, extirpar dela a pose que constitui sua força.
Mas, acima de tudo, parece-me importante dizer não apenas sobre as escolhas formais do filme e tudo o que revelam de uma perspectiva cinematográfica. Importa dizer que se trata de uma intensa obra sobre a vida, que, como em raros casos, ao invés de nos abrir uma janela para um mundo e nos ajudar a entendê-lo – como de hábito o cinema faz – olha de volta para o mundo e compreende mais a nós espectadores do que a ele somos capazes de compreender. Ovos de Dinossauro na Sala de Estar, filme que paira naquele universo perdido, pleno de vestígios e pistas de alguma coisa em extinção, habitado por uma mulher indecifrável por natureza, nos contém mais do que é possível contê-lo.
* Visto no 13o Festival Internacional de Curtas de BH
Media Training, de Eloar Guazzelli e Rodrigo Silveira
por Thiago Macêdo
O primeiro plano de Media Training revela uma imagem que “respira”. Pouco tempo depois, saberemos que aquela imagem estampa uma camiseta de um homem que acaba de torturar outro e que a mesma imagem se tornará extremamente popular, ao redor do mundo, quando a fotografia da sessão de tortura for divulgada em redes sociais. Na mesma fotografia, um aspirador de pó prestes a ser lançado no mercado é utilizado na tortura, podendo causar um dano irreparável à empresa dona do produto, em um caso espetacular de má publicidade. Media Training é uma metralhadora giratória, cuspindo críticas desenfreadas em direção aos mais diversos aspectos da sociedade, principalmente a norte-americana. Do norteamento criminoso do consumo capitalista, à banalização da informação na internet (através das já citadas redes sociais e também dos próprios veículos de comunicação), passando também pela imbecilidade da guerra e distanciamento dos interesses reais que são a base de todo conflito armado. Tudo isso, concentrado em uma animação à moda antiga, sem grandes intervenções tecnológicas contemporâneas.
Porém, o que mais chama a atenção no filme é que tudo está baseado no poder da comunicação e ela mesma está perdida nas esferas mais simples possíveis. A foto que vaza da sessão de tortura foi publicada na internet por um dos próprios participantes, que logo em seguida se vê ameaçado de morte caso não seja capaz de reverter a situação. Ele, uma peça quase irrelevante na política mercadológica do lançamento de um produto, passa a ser fundamental para que o sucesso publicitário seja efetivado. Quem coordena essa operação é a diretora de comunicação da empresa fabricante do aspirador, através de seu celular, enquanto prepara a ceia de natal em sua casa, localizada no subúrbio de Washington. Ao mesmo tempo em que tenta organiza o estrago iminente que a divulgação da fotografia pode causar, a mulher perde o controle de sua própria casa, quando seu filho “seqüestra” e queima as bonecas das irmãs, causando um incêndio em toda casa, tudo distante dos olhos da mãe. De um lado, a tentativa do controle de um escândalo, de outro, a inexistência da comunicação dentro da própria casa. E assim o caos se ergue em Media Training, que prega a visão de um mundo em processo constante de autodestruição.
*Visto no 13º Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte
Sendai, de Cláudia Nunes e Erico Rassi
por Thiago Macêdo
Ao longo de pouco mais de cinco minutos, somos convidados a presenciar a inundação de um corpo, sua luta contra a força de um jato de água, proveniente de um hidrante aberto. O frágil corpo pertence a uma criança, provavelmente um garoto, cujos traços orientais podem ser percebidos em meio à luz vermelha e posteriormente azul que forma a imagem captada por Cláudia Nunes e Erico Rassi, em Sendai. A imagem da luta deste corpo é a alegoria de uma luta ainda maior, de outros corpos também anônimos, vítimas da tragédia de Sendai, no Japão, quando no início deste ano um tsunami foi a conseqüência do maior terremoto já experimentado pela população do país.
À medida que o incansável garoto vai tentando chegar mais perto da fonte da força da água, mais abalada se torna sua figura. É quando a fusão das cores se torna ainda mais evidente e, em seqüência, a fusão também das imagens, para uma conclusão final esperançosa, ainda que improvável: o mesmo corpo não chega a vencer a batalha travada com a água, atravessando o campo da fúria da natureza, mas acaba por se tornar mais forte e permanece lá, erguido, suportando de modo impassível as pancadas que continua recebendo constantemente e que não deverão cessar tão cedo. Uma bela homenagem ao povo japonês, capaz de sempre se reerguer depois das regulares catástrofes naturais que sofrem.
*Visto no 13º Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte
O Hóspede, de Anacã Agra e Ramon Porta Mota
por Thiago Macêdo
O primeiro filme de Anacã Agra e Ramon Porta Mota é um deleite para qualquer amante esperançoso de cinema no Brasil. O Hóspede é um filme de gênero, ou melhor, de gêneros. É ficção científica, passada na Paraíba, que narra a chegada de um homem misterioso em uma pousada de um casal de idosos, chamada Solaris. O homem passa quase todo o filme usando óculos escuros - mesmo nas sequências diurnas - em uma referência clara a Eles Vivem, de John Carpenter, onde o personagem principal encontra óculos escuros idênticos aos do personagem de O Hóspede, que o fazia enxergar criaturas alienígenas disfarçadas de seres humanos comuns. É também suspense, acompanhando a obsessão do dono da pousada em descobrir que tipo de coisa aquele hóspede estranho pode estar escondendo.
A montagem prioriza a interseção de momentos de um certo naturalismo dramático entre os donos da pousada (suas pequenas brigas e atitudes diante da presença do novo hóspede, que revela gradativamente questões sobre a personalidade de cada um) e outros de tensão crescente, das tentativas do homem em conhecer o interior do quarto do estranho hóspede, entender os sons absurdos que ecoam lá de dentro e chegar, já nos momentos finais, a seguir o homem pelas ruas da cidade, numa escuridão assustadora. O encontro entre os dois personagens é o encontro entre o naturalismo e o absurdo, a narrativa dramática tradicional e o evento que não pede nenhum tipo de resposta. É também a união entre a força criativa de realizadores novatos, mas com grande paixão cinematográfica, com mestres consagrados, donos de filmes definitivos, como é John Carpenter, que está incluído inclusive nos agradecimentos finais.
*Visto na 14ª Mostra de Cinema de Tiradentes.
L, de Thais Fuginaga
Por João Toledo
O filme de Thais Fuginaga constrói, a partir de um ferramental poético, o universo de uma jovem desconfortável com seu próprio corpo. O filme acompanha o isolamento da jovem adolescente, e a colisão do mundo interiorizado dela com o de um outro jovem, cujas características físicas também o tornam alvo de chacota no ambiente escolar. Existe ali, enquanto processo de construção dos personagens, a importação de uma vontade de investigar o corpo própria do cinema de Lucrecia Martel. O que, por si só, a priori, não constitui uma questão. No entanto, a intenção de imergir naquele universo e observar as relações e reações violentas desses corpos em desacordo, parece sempre sabotada por uma vontade suavizadora de poetizar os momentos de peso dramático. A vontade de criar um transtorno sensorial acaba dando lugar a um vagar poético genérico, e o grande momento de auto-condenação/repressão/mutilação desemboca num escape: no momento em que a pedra cai, somos jogamos dentro de uma piscina.
Não se trata de um filme equivocado, mas de uma obra cujas linhas de força conflitantes terminam por diminuir seu potencial. Tudo o que é próprio da narrativa, e filmado dentro de uma perspectiva mais pautada por objetividade que subjetividade, traz a força da relação entre mundos, entre pessoas. Há momentos em que um gesto singelo e despojado, como o de tirar o peixe da banheira, traduz melhor a violência a que esses corpos jovens estão sujeitos do que quase qualquer outro que esteja amparado pelo apelo do detalhe, como aquele em que vemos os machucados dos pés. Os momentos de força estão todos amparados na troca, no encontro, na relação; muito raramente na fuga poética, ou na forma de resolver visualmente o drama da personagem nos colocando ao seu lado. Talvez fosse mais forte manter alguma distância, alguma camada de inacessibilidade ao universo íntimo da garota, preservando um pouco de sua solidão. O encontro no filme parece trazer consigo um interesse de solução e alívio mais voltados para o espectador que para a personagem. Uma redenção que é externa, para o mundo, um pouco imposta como atenuante das dores: e essas dores são resolvidas em um antes/depois, como se elas se dissipassem completamente com a amizade.
* Vistos no 13o Festival Internacional de Curtas de BH
Filmes Citados:
Ovos de Dinossauro na Sala de Estar (2011/Rafael Urban)
L (2011/Thais Fuginaga)
Sendai (idem, 2011/Claudia Nunes e Erico Rassi)
Media Training (2011/Eloar Guazzelli e Rodrigo Silveira)
O Hóspede (2011/Anacã Agra e Ramon Porta Mota)