Curtas – Competitiva 5: “Uma Primavera” e “O Pai Daquele Menino”

Uma Primavera, de Gabriela Amaral Almeida

por Thiago Macêdo

Um querido tio costumava dizer que a cada vez que ele passava um tempo sem ver os sobrinhos e depois os encontrava era como se estivesse se deparando com estranhos. Segundo ele, um dia chegou em casa e isso ocorreu com seus próprios filhos, “aquelas criaturas bizarras”, como dizia. Os filmes de Gabriela Amaral Almeida costumam serem pontuados por seres estranhos, de atitudes artificiais, gestos mecânicos, sentimentos ambíguos. Uma Primavera abriga alguns desses personagens, que podem ser prontamente identificados pela câmera, mas é realmente conduzido pela atitude de uma personagem supostamente naturalista, “convencional”, que é a Lara, a garotinha de 13 anos que vai passar o aniversário ao lado da mãe, num piquenique no parque. Porém, Lara e seu amadurecimento em curso são os mais absurdos dos seres de Uma Primavera.

No caso da narrativa do filme, a surpresa se dará na postura da mãe em relação ao sumiço inexplicável da filha, durante o passeio. Enquanto somos levados a presenciar e compartilhar o desespero da mulher, gradativamente é estabelecido no filme, sob a forma de inúmeros elementos narrativos, o limite finíssimo que separa a realidade da fantasia, o que é fato do que é imaginado, sensorial, absurdo. Uma Primavera, talvez ainda mais que Náufragos ou A Sutil Circunstância (filmes anteriores de Gabriela, dirigidos em parceria com o fotógrafo Matheus Rocha), se ergue como uma obra de realismo fantástico, pois o que é colocado para a platéia como conflito real só pode ser plenamente experimentado na imersão em seus elementos que ressaltam o que não pode ser visto em cena, mas sugerido pela mise-en-scène e captado pelo espectador. Quanto mais angustiante se torna a busca pela filha, mais a câmera varia entre planos gerais e a instabilidade dos planos que seguem a mãe; mais o ambiente se torna menos civilizado, mais selvagem e desconhecido. E essa busca se revela, acima de qualquer coisa, uma inserção em meio ao desconhecido, ao que amedronta, mas que é inteiramente natural.

Lara está crescendo e junto deste fato, a perspectiva da mãe em relação à filha precisa passar também por um processo de amadurecimento. É um constante exercício de percepção do outro, possibilitado somente por conta do entendimento de si próprio. É isso que as personagens de Uma Primavera fazem ao longo de seu passeio, que mais que refletir uma tarde, reflete uma época, o passar do tempo, o curso natural da vida (que não obstante se encontra constantemente ligado à morte, como mostrado no pássaro caído do ninho, morto entre as folhas secas de uma árvore). Para uma mãe apavorada por não poder cumprir seu papel básico, a nova idade da filha traz um conforto agridoce na conclusão de Uma Primavera, mas que é perpassada pela impressão de que muito mais medo há de vir pela frente, à medida que cada vez mais essa estranha for sendo criada dentro de sua própria casa. Como todos os jovens, as “criaturas bizarras” que tanto surpreendiam o meu tio.

*Visto no Paulínia Festival de Cinema 2011

 

O Pai Daquele Menino, de Raul Arthuso

por Thiago Macêdo

Assim como Uma Primavera, o outro curta exibido na noite, O Pai Daquele Menino tem como personagem central um jovem. No caso, o que diferencia principalmente os dois filmes é que no primeiro a mãe passa a acreditar em algo que pode não necessariamente ser verdadeiro, em relação à filha, enquanto neste a crença está ligada à postura do jovem em relação à mãe. Na verdade, a obsessão do garoto em descobrir se sua mãe está ou não tendo um caso com um homem que vai sempre à sua casa, aguardar a saída do filho das aulas de música que a mãe do protagonista dá. O homem que não adquire uma identidade é o pai do menino do título. Porém, o cerne de toda a trama está relacionado ao processo obsessivo que o personagem principal desenvolve, partindo da interpretação de uma fotografia que tirou da mãe e do homem.

O Pai Daquele Menino é metalingüístico no que diz respeito à construção de sua narrativa, pois tudo se dará por conta do entendimento do personagem em relação a uma imagem captada por ele mesmo, dentro do próprio filme – ainda que não haja a resposta conclusiva dentro do filme se a imagem realmente condiz com a interpretação que se faz dela. O filme de Raul Arthuso parece filho direto de Blow-Up, de Michelangelo Antonioni, mas se distanciando especificamente na construção dos personagens, principalmente Márcio, o protagonista, pois suas conclusões a respeito da imagem vão além do que ela esconde como verdadeiro ou falso (e da construção narrativa de um conteúdo por detrás da mesma), para as conseqüências reais que podem causar na vida dos envolvidos, no caso da imaginação encontrar de fato a figura da realidade. Ao final, nenhuma resposta dada, mas sim a continuidade do processo metalingüístico, a partir da existência de uma nova imagem, esta sim pregando uma realidade que nós, como público, sabemos não ser verdadeira. Mas afinal de contas, o que interessa mesmo: o real ou o projetado?

*Visto no Paulínia Festival de Cinema 2011

Filmes Citados:

Uma Primavera (2011/Gabriela Amaral Almeida)

Náufragos (2009/Gabriela Amaral Almeida e Matheus Rocha)

A Sutil Circunstância (2010/Gabriela Amaral Almeida e Matheus Rocha)

O Pai Daquele Menino (2011/Raul Arthuso)

Depois Daquele Beijo (Blow-Up, 1966/Michelangelo Antonioni)

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