Febre do Rato, de Cláudio Assis

por Thiago Macêdo

Em um determinado momento, uma personagem comenta com Zizo, conhecido como “Poeta”, que o filme que ela havia assistido não tinha uma história, ao que ele responde que a história cabe a quem está assistindo, ela é feita pelo público. Febre do Rato é uma espécie de não-história de Cláudio Assis, um tratado antropológico utópico, sobre uma sociedade livre de preconceitos, que prega o amor livre, o sexo abundante, a poesia. Em suma, é uma viagem dentro da mente de Assis.

Como disse um crítico na saída da sessão do filme, Febre do Rato é “Cláudio Assis em estado de graça”, pois, por mais que não se compartilhe do pensamento pregado pelo filme, é impossível negar que ele seja legítimo, até o último corpo nu fotografado. Não há a impressão de gratuidade em nenhuma opção estética de Febre do Rato, mas sim da valorização do que Cláudio – e seus seguidores/equipe – consideram como belo e necessário de ser exibido. Portanto, a exuberante fotografia em preto e branco e Cinemascope de Walter Carvalho nada mais é que a reafirmação de que aquelas ações, ainda que aparentemente episódicas e sem uma linha clássico-narrativa formadora, são fundamentais de serem captadas, em todo seu virtuosismo poético.

Mas não chega a ser bem verdade afirmar que Febre do Rato não tem uma “história” por trás do discurso utópico. O Poeta se vê enfeitiçado por uma criatura de beleza sublime, feitiço que tem o mesmo efeito sobre ele que suas palavras sobre seus “discípulos”. A personagem de Nanda Costa é inserida em Febre do Rato tardiamente, mas toma para si toda a luz e fascínio possíveis, se tornando motivação primordial para que o arco dramático do Poeta seja concretizado. Caso ainda não fosse possível compreender a eloqüência do discurso da beleza e da fúria pregado no filme até então, a presença de Nanda Costa bastaria para que não restasse nenhuma dúvida.

E assim, passeando por personagens, por um Recife não-localizado no tempo, por uma periferia de extrema complexidade e rigor, por uma sociedade de submundo, por símbolos poéticos de profunda sensibilidade, Cláudio Assis se expõe inteiro em Febre do Rato, principalmente na figura de seu protagonista, seu alter-ego evidente. Segundo Irandhyr Santos, ator que faz o Poeta, foi bastante gratificante interpretar Cláudio Assis no cinema. Para o público, até mesmo aqueles que eventualmente se choquem com a explicitude do cinema de Assis, Febre do Rato é uma experiência da qual é difícil ser indiferente.

*Visto no Paulínia Festival de Cinema 2011

Filmes Citados:

Febre do Rato (2011/Cláudio Assis)

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