Os 3, de Nando Olival

por Thiago Macêdo

Os 3 tem início com uma cartela onde estão definidos livremente quatro sentimentos que supostamente deverão ser experimentados ao longo da projeção pelos personagens e, através deles, pelo público. Amizade, amor, paixão e tesão. Ao longo da primeira metade do filme, que compreende quase dois atos inteiros da narrativa, nenhum desses sentimentos pode ser percebido de modo legítimo pelo público. Muito pela linguagem afetadamente publicitária que Nando Olival propõe (esse filme é sua estréia na direção solo de longas, depois de co-dirigir Domésticas com seu sócio na produtora O2, Fernando Meirelles), negligenciando um desenvolvimento mais palpável de seu trio de personagens. Os três, dois homens e uma mulher, decidem morar juntos, dividir suas vidas e as experiências da faculdade, a partir de um encontro leviano em uma festa. É vendida uma idéia de destino, de união cósmica que não é fácil de comprar caso não se tenha empatia pelas ligações.

E elas praticamente não existem, pois cada ator desempenha somente uma função específica para a evolução da narrativa, que por melhores que sejam as interpretações (e cabe ressaltar o naturalismo do trio formado por Juliana Schalch, Victor Mendes e, principalmente, Gabriel Godoy, respectivamente como Camila, Rafael e Cazé), não impede a sensação de dureza na condução do envolvimento sentimental que eles têm. O modo de se relacionar parece estar ali exclusivamente para que se acredite na intimidade dos três quando o projeto de reality show feito em cima do cotidiano deles for colocado em prática. De certo modo, é como se a primeira metade funcionasse como uma introdução, longa e midiática, para o verdadeiro objetivo do roteiro: uma espécie de crítica ao formato da realidade captada ao vivo.

As coisas mudam quando o reality show começa a ser ameaçado pela empresa que os patrocina. Por conta dessa iminente diluição do projeto os personagens articulam um plano que os fará interpretar a si mesmos, atuando dentro de suas próprias vidas. É possível afirmar que é nesse momento que um dos “sentimentos” citados no começo do filme pode finalmente ser percebido pela platéia: o tesão. Não somente no sentido sexual da palavra, mas na idéia de uma transgressão que, mesmo tímida, dá indícios de que pode haver algo de mais interessante por trás das situações estéreis até então mostradas. Quando os três personagens se encontram sentados no sofá, cruzando uns com os outros suas pernas, braços e olhares, Os 3 se torna mais estável, justamente por finalmente adotar uma linguagem realmente cinematográfica. Esta passa a ser um pouco mais fluida e até mesmo os cortes excessivos da montagem de Daniel Rezende perdem um pouco de sua agilidade, o que revela ser um ponto extremamente favorável para o filme.

Infelizmente Nando Olival abre mão da sutileza alcançada em determinados momentos nesse ato final para explicar, quase sempre de modo verbalizado, as cenas que eram mais potentes justamente por conta de sua ambigüidade.  O didatismo imposto acaba tirando a força da melhor sequência do filme, quando Camila e Rafael trocam olhares ambíguos, nos quais sentimento e encenação se encontram e geram um questionamento legítimo para quem está acompanhando o filme. Logo depois há uma explicação para o momento, opção que será retomada também ao final do filme. Uma pena pensar que Os 3 poderia propor um exercício mais interessante para o público jovem que pretende alcançar. Por outro lado, me soa como um alívio sentir que o filme, ao menos por momentos específicos na sua parte final, toma cara de peça cinematográfica e não publicitária.

*Visto no Paulínia Festival de Cinema 2011

Filmes Citados:

Os 3 (2011/Nando Olival)

Domésticas (2001/Fernando Meirelles e Nando Olival)

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