Curtas – Competitiva 2: “A Grande Viagem” e “Tela”

A Grande Viagem, de Caroline Fioratti

por Thiago Macêdo

A Grande Viagem é mais uma obra do cinema recente conduzida pelo olhar de uma criança a respeito do mundo que a cerca. Em longas recentes como Valentin, A Culpa é do Fidel, Stella e O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias, a criança é a personagem principal que olha com inocência para a sociedade e o momento histórico em que vive. No filme de Caroline Fioratii, o contexto político-social é substituído pelo olhar a respeito de uma doença: o Mal de Alzheimer.

Felipe faz companhia a seu avô Mário em sua realidade paralela, estabelecida por conta da doença e juntos os dois fazem uma espécie de viagem fantasiosa rumo a destinos turísticos tradicionais, já que Mário atuava, no passado, como vendedor de guias de viagem. No caso de Mário, a inocência do neto é o que mais se aproxima de sua condição, já que o passado parece obscuro e a realidade inaceitável. Já em relação a Felipe, seu avô é o companheiro perfeito para que sua imaginação seja livre, pois a entrega de Mário é tão completa quanto a do próprio Felipe.

A Grande Viagem é um filme simples e pessoal, como a própria diretora afirmou em sua fala de apresentação. Mas apesar das boas intenções, nem tudo funciona perfeitamente. Existem lacunas na narrativa e soluções apressadas, principalmente em relação à conclusão do filme, que deixam uma impressão de que ou a montagem tentou ser subjetiva demais, para alcançar uma duração de tempo específica, ou que realmente o filme não soube dar a importância necessária à ligação entre os dois personagens em seu momento definitivo, quando eles já não estão mais próximos.

*Visto no Paulínia Festival de Cinema 2011

 

Tela, de Carlos Nader

por Thiago Macêdo

Depois de um longo plano em que aos poucos vai sendo revelada uma platéia de cinema por baixo da luz difusa vinda do projetor, a câmera faz um movimento no qual inverte o posicionamento, partindo do ponto observado (a tela do cinema, com uma platéia observando a tela) para o ponto do observador (também uma tela de cinema, observada por uma platéia semelhante). Segundo a cartela que inicia o novo filme de Carlos Nader, o curta que mostra o público olhando para a tela é obra de um artista que experimentava com a imagem. Seu filme será também uma experimentação com a imagem e um exercício de metalinguagem, já que incontáveis vezes seremos levados a compreender todas as novas perspectivas da narrativa e o que vem a ser o filme propriamente dito, ou o filme dentro do filme (ou o filme dentro do filme, dentro do filme).

Não é fácil descrever o filme de Carlos Nader, a não ser pela definição do artifício metalinguístico de se referir sempre à imagem que está sendo projetada e pensar esta imagem como algo não finalizado, passível de modificação. A partir disso é desenvolvida uma narrativa ora cômica, com um viés de esquete de programa de humor, ora melodramática, digna de folhetim barato, que liga os vários reposicionamentos do público dentro do filme. Talvez Tela fosse mais interessante caso se mantivesse focado somente à força da música “Araçá Azul”, de Caetano Veloso, ou ao rosto extremamente expressivo do ator e comediante Luis Miranda. Ou quem sabe mesmo, à força natural da composição de sua imagem. De todo modo, ainda que haja uma queda no filme quando a trama tenta se torna mais palatável e lógica, o exercício metalinguístico de Nader é, para dizer o mínimo, interessante.

*Visto no Paulínia Festival de Cinema 2011

Filmes Citados:

A Grande Viagem (2011/Caroline Fioratti)

Valentin (idem, 2002/Alejandro Agresti)

A Culpa é do Fidel (La Faute à Fidel!, 2006/Julie Gavras)

Stella (idem, 2008/Sylvie Verheyde)

O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias (idem, 2006/ Cao Hamburguer)

Tela (2011/ Carlos Nader)

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