

por Thiago Macêdo
O filme do consagrado Vladimir Carvalho comprova sua desenvoltura em se colocar diante de um entrevistado (ou personagem a ser documentado) com leveza e buscando um posicionamento justo (ou seria justo posicionamento?) para com seu público. Talvez por isso seja tão agradável ver os eventuais contra-planos nos quais o cineasta aparece no filme. Vladimir também está ali como espectador e a cada uma das vezes que vemos sua expressão em cena, ela vem impressa por um sorriso, um fascínio pelas coisas que estão sendo ditas para sua câmera. Rock Brasília – Era de Ouro é um filme no qual esse fascínio é exalado, tanto nos relatos do início, auge e fim de carreira dos grupos de rock mais importantes dos anos 80, quanto na impressão de que todos eles, na verdade, eram uma grande família unida pela música.
Portanto, parece natural que o filme tenha seu começo e final centrado na figura dos “pais do rock” de Brasília, os familiares dos integrantes do Legião Urbana, do Capital Inicial e da Plebe Rude. Constituído basicamente por entrevistas (a exceção fica por conta de uma cena de reconstituição de um encontro de jovens na década de 80, narrado por Dinho Ouro Preto, do Capital, com direito a um sósia de Renato Russo atuando como se fosse o cantor) que são montadas em cortes secos tradicionais, a narrativa de Rock Brasília – Era de Ouro é das mais fluidas em um documentário recente nacional. Chega quase a liberar as pessoas de suas perspectivas e opiniões sobre as bandas (eu, particularmente cresci ouvindo Legião Urbana, mas não gosto nada de Capital Inicial, porém, me mantive atento a todos os personagens do filme), para estabelecer uma conexão legítima com suas trajetórias, conquistas e derrotas inevitáveis.
O único problema real que parece haver no filme de Vladimir Carvalho é o ritmo acelerado – e por isso, menos fluido– do terceiro ato. As “conclusões” e destinos de cada um dos personagens são dados rápidos demais, como se o filme corresse para chegar a seu fim. Isso pode ser notado a partir do ponto em que Renato Russo já não faz mais parte da narrativa (e sua morte, curiosamente, foi comentada de modo superficial, talvez para evitar uma dramatização excessiva de um episódio notório) e o documentário perde um pouco em força, justamente por ser mais explicativo que perceptivo. Por sorte, a sequência final nos faz lembrar a impressão inicial do filme, do acolhedor espírito de ser este mais um “filme de família” exibido em Paulínia.
*Visto no Paulínia Festival de Cinema 2011
Filme Citado:
Rock Brasília – Era de Ouro (2011/Vladimir Carvalho)