
Bushido, de Cíntia Nakashima
por João Toledo
Do curta Bushido, de saída, temos declarada a filiação a certas tradições a partir de sua escolha pelo preto e branco. Não há intenção de atualização; há um olhar retrospectivo que se curva diante do referencial. A mise-en-scène solene compõe a delicadeza e precisão dos gestos pelos quais a cultura japonesa é tradicionalmente conhecida. O rigor de câmera compõe duramente os quadros nos guiando o olhar por entre os detalhes. Mas, à medida que se desenrola, a decepção se acentua diante da evidência de que se trata do retrato pelo retrato. Ilustra-se a idéia do código de honra, levado às últimas conseqüências. Mas o filme em si não tem grandes conseqüências,não pensa para além de compor um caso sem história. Sua vagueza não esconde segredos ocultos. É feita mesmo de vento. A solenidade, apesar de ligada a tradições cinematográficas que sufocam o olhar em cena, até que faz sentido. Mas falta substância e, sobretudo, um posicionamento, qualquer que seja. Isenção é anulação.
* Visto na Mostra de Cinema de Ouro Preto 2011.
Contigo Quero Dividir Minha Solidão, de Malu Teodoro
por João Toledo
Composto de cartões portais em movimento endereçados a diversos amigos da realizadora, o filme traça, com o suporte de um olhar poético, as pequenas narrativas de uma viagem. Alguns compartilham momentos e imagens, outros compartilham memórias saudosas, e alguns ainda compartilham de um olhar para o futuro. As experiências se traduzem de forma muito livre, nunca pautadas por uma forma pré-determinada. Há momentos bonitos, ainda que muitas vezes marcados por uma poeticidade que se impõe sobre tudo. Há também uma certa ingenuidade, mas que escapa de se tornar um peso negativo pois se ampara na evidente sinceridade que funda o registro. Enfim, um fluxo de pequenas narrativas que propõe um caminho afetivo bonito mas que, diante da ausência dos destinatários, perde um pouco de sua força. Se não dispomos dos códigos que caracterizam cada relação, nos relacionamos com as imagens a partir de nossos próprios códigos, e isso nem sempre é o suficiente para dar vida às imagens que o correio nos trouxe por engano.
* Visto na Mostra de Cinema de Ouro Preto 2011.
2004, de Edgard Paiva
por João Toledo
2004 é uma animação mineira que mistura personagens totalmente criados em traço e imagens filmadas de Belo Horizonte. No entanto, ao invés de imergir na sua condição e aproveitar o choque de registros como uma questão interessante para o filme, propõe-se um filtro em cima das imagens filmadas que o aproxima (toscamente, diga-se) de um registro de animação. A história é breve; uma pequena fábula urbana de olhares e afetos. O rapaz, um estudante de desenho, busca registrar no caderno uma imagem próxima à da garota ao seu lado. Diante do fracasso, ele tenta registrá-la fotograficamente com o celular a partir do reflexo em um vidro, mas a imagem sai borrada. O momento passa, passa a oportunidade de fixar a imagem, e o ônibus segue com o garoto. Passamos à perspectiva da garota, e nos é revelado que o interesse era mútuo, bem como mutuamente dissimulado. Nesse ponto, todo o jogo de forças do filme é jogado por terra diante da necessidade de concluir a narrativa com um inesperado momento de subversão de expectativas. O que interessa é a engenhosidade de uma idéia que, no fundo, é ingênua e banal, e que esvazia um pouco a força do personagem solitário que vive de imagens.
* Visto na Mostra de Cinema de Ouro Preto 2011.
Oma, de Michael Wahrmann
por João Toledo
Diretor de um dos curtas mais celebrados nos festivais brasileiros de cinema dos últimos anos – o Avós –, Michael conclui um novo filme que, de certa forma, não deixa de ser o mesmo filme; uma obra análoga em outro registro. Tanto Oma quanto Avós são filmes sobre visitas: no sentido literal, mas, sobretudo, no sentido de um resgate memorialístico, de um retorno às experiências e suas imagens. O que está em questão é a relação afetiva do realizador com a sua avó, e isso permanece inalterado em ambos. A diferença fundamental entre os dois está no fato de que Avós, sendo ficcional, se ampara na busca por não parecer uma ficção, depende do apagamento dos signos de sua construção. A intenção é colar ao calor de um registro íntimo a afetividade que funda aquela relação cômica e desencontrada culturalmente entre neto e avós. A pequena crônica cotidiana simula ludicamente o que Oma dá a ver sem filtros. Mas, melhor do que questionar um diante do outro, é perceber o como se completam, o como funcionam um ao lado do outro, como dois olhares, duas visitas íntimas ao imaginário pessoal atravessadas pela experiência do cinema.
Oma tem uma imagem precária, sem nenhum requinte de pretensões cinematográficas no sentido estrito. E esse registro deixa marcado na imagem o quase desespero diante da necessidade de guardar o que poderia ser uma última visita, um último encontro, uma última troca. A intimidade ainda é atravessada pelo humor do desencontro; eles não compartilham da mesma língua, e isso cria nuances de uma melancolia invisível, sem que nenhum sentimento predomine e afogue o filme em saudosismo. Um filme de chegadas e partidas, em preto e branco, sobre a vontade de apego e sua consequente impossibilidade. Um olhar que se despede das cores, uma imagem que se apaga aos poucos. A imagem é aquilo que resta. E, acima de tudo, ela não é o que quer ser nem o que precisa ser; ela é simplesmente o que ela é.
* Visto na Mostra de Cinema de Ouro Preto 2011.
Mais Denso Que O Sangue, de Ian Abé
por João Toledo
A grande frustração diante desse curta está justamente na expectativa que ele cria, logo de saída, de que venha a ser um grande filme. Apesar da referência um tanto juvenil e despropositada de Leone no começo, o universo precário que funda a ficção dá um tom de ironia para o diálogo com o western italiano. O auge do filme é, certamente, o momento da encenação bíblica, dublada pelo carro de som. Existe um evidente exercício de gênero, e o suspense de um iminente ato de violência se sustenta muito bem ao longo de uma cena claramente marcada por uma força irônica em diálogo com tradições interioranas do Brasil. Essa transfiguração do gênero diante de um universo peculiar incontornável carrega o que o filme tem de força de cinema. Logo em seguida, no entanto, a adesão irrestrita ao gênero de ação sufoca o filme em uma seqüência pouco orgânica e, mais que isso, pouco interessante – porque genérica. Os momentos de violência se tornam, a partir da queda das motos, uma espécie de manifesto das contradições de valores presentes na realidade abordada – quando, na verdade, essas contradições já estavam evidentes sem a necessidade da exploração abusiva do grafismo da violência, ela estavam evidentes desde o começo da encenação pública da história de cristo. O filme se torna uma tese crítica, e esquece de seus propósitos narrativos, ainda que sempre travestido de um filme de gênero aparentemente inconseqüente. A crítica banal sufoca o gênero, e o gênero apaga as ambigüidades do mundo que se critica, por sua vontade de resolver o mundo, de tornar tudo visível, filmável e atraente, ainda que pelo filtro do grotesco.
* Visto na Mostra de Cinema de Ouro Preto 2011.
Filmes Citados:
Bushido (2011/Cíntia Nakashima)
Contigo Quero Dividir Minha Solidão (2011/Malu Teodoro)
2004 (2011/Edgard Paiva)
Oma (2011/Michael Wahrmann)
Mais Denso Que O Sangue (2011/Ian Abé)