Dois irmãos, de Daniel Burman

 

por Leonardo Amaral

 

Existe um fato: a crise econômica na Argentina ainda se reflete bastante nesse que muitos reconhecem como Novo Cinema Argentino. Ao mesmo tempo, é impressionante como o rótulo é frágil. Se pensarmos nos filmes de Lucrecia Martel, percebemos o quanto eles são diferentes de Lisandro Alonso, que se diferem dos de Pablo Trapero, Juan José Campanella e Daniel Burman. São esses alguns dos nomes desse novo cinema e estéticas completamente diferentes. Poderíamos colocar em um par Juan José Campanella e Daniel Burman. Equivoco imenso. A única realidade que talvez os aproxime seja a de filmarem a uma classe média em constante trânsito por Buenos Aires. E pára por aí.

 

Daniel Burman faz um cinema repleto de sutilezas. Dois irmãos é circundado pela crise econômica, na verdade, uma crise imobiliária da qual a personagem Susana (Graciela Borges) tenta se aproveitar. Aliás, se aproveita tanto que vende a casa onde o irmão, Marcos (Antonio Gasalla), habitava junto com a mãe. Tão logo a progenitora morre, ela vende a casa e força o irmão a ir morar em uma cidadezinha no interior do Uruguai. Essa é a primeira camada do filme. Graciela Borges e Antonio Gasalla são bastante responsáveis pela condução dessa camada, pela forma como constroem e dão vida aos seus personagens. Outras será, para além da relação conflituosa dos irmãos, a relação edipiana de Marcos com a mãe, que fica ainda mais explicita - mas não vazia e gratuita - na peça Édipo Rei, encenada por ele e uma companhia de teatro uruguaia liderada por um diretor bastante orgulhoso.

 

O diretor argentino constrói todo o filme através dessas relações, desse cotidiano simples de ir ao Uruguai, voltar a Buenos Aires e retornar novamente ao sul. E tudo é feito com algumas das características caras ao cinema de Burman: um olhar para as pessoas comuns, para a família, para uma classe média, quase sempre em crise financeira, pessoal, as duas ao mesmo tempo. Existe também um olhar cômico e irônico para as situações. Uma ironia do diretor, mas, principalmente, uma ironia desses personagens em relação as suas próprias vidas. Ao final, Marcos encena a peça e é aplaudido pela irmã. A conciliação dos dois se dá por uma mediação do espetáculo, seguidos de um show de sapateado que se dá juntos aos créditos. Burman sabe que o cinema é o lugar do popular, mas, em especial, das pessoas. É isso que o diferencia de Campanella e faz de seu cinema um lugar bem mais interessante.

 

* Visto no Indie 2010.

 

Filmes citados:

Dois irmãos (Dos Hermanos, 2010 – Dainel Burman)

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